Tarifaço: governo vê interesse eleitoral em fala de Flávio nos EUA
Segundo interlocutores de Lula, manifestação de Flávio reforçou percepção de oportunismo, com foco no impacto da taxação nas eleições

Integrantes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avaliam que a participação do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) em audiência do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), em Washington, nesta terça-feira (7/7), teve motivação eleitoral.
Para auxiliares do Planalto, o discurso do parlamentar reforçou a percepção de que sua presença no evento teve caráter oportunista, com foco no impacto da taxação sobre a disputa presidencial. A audiência discute a proposta do órgão americano de impor tarifa de 25% sobre produtos brasileiros.
Segundo interlocutores da gestão petista, Flávio deixou claro que não prioriza os interesses nacionais, mas sim uma estratégia política para se afastar da narrativa defendida por governistas de que a ameaça do tarifaço estaria ligada à atuação dele e de seu irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, contra interesses do país e a soberania nacional.
Na avaliação de aliados de Lula, o senador utilizou os cinco minutos de manifestação apenas para criticar o governo federal e sustentar que este seria o “pior momento possível” para adoção da medida, sob o argumento de que a taxação poderia beneficiar o presidente às vésperas da eleição. Ele também afirmou que as tarifas “foram exploradas politicamente” pelo governo brasileiro.
“Impor agora uma tarifa que seria difícil de reverter — premiando aqueles que são responsáveis pelas ações em questão e punindo aqueles que suportaram suas consequências — seria o pior momento possível para agir”, disse Flávio, em um apelo aos membros da Comissão. “Elas [taxas] foram exploradas politicamente pelo atual governo brasileiro. Uma tarifa de 25% penaliza todo o povo brasileiro, exceto justamente as autoridades responsáveis por essas decisões”, acrescentou.

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Antes da audiência, o senador já havia encaminhado ofício ao USTR pedindo o adiamento da aplicação das tarifas, sob a justificativa de que a medida poderia favorecer Lula na corrida eleitoral de outubro.
Aliados do presidente também destacam que Flávio associou o atual governo a escândalos de corrupção, como o mensalão, mencionou suposto envolvimento de familiares do presidente em investigações recentes e citou o caso do Banco Master, sem mencionar sua própria relação com o empresário Daniel Vorcaro.
A audiência pública, aberta à sociedade civil e iniciada nessa segunda-feira (6/7), reúne associações e empresas interessadas em se manifestar. O governo brasileiro não participa. Interlocutores do Planalto afirmam não ver sentido na presença do Executivo em um fórum voltado à sociedade civil, uma vez que o país mantém canal direto de diálogo com a gestão do presidente Donald Trump.
Na avaliação do governo, o encontro não é espaço de negociação, mas de exposição de posições de setores potencialmente afetados pelas tarifas propostas.
Atuação bolsonarista
Desde o anúncio do resultado da investigação do USTR contra o Brasil, em junho, com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 — que recomendou a tarifa de 25% por práticas consideradas desleais —, o Planalto sustenta que os argumentos carecem de base técnica e têm viés político.
Fontes do governo afirmam que a família Bolsonaro tenta recalibrar sua estratégia em relação ao tarifaço anunciado no ano passado, quando a medida foi associada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no âmbito da trama golpista. Naquele momento, a crise acabou favorecendo Lula, que registrou alta de popularidade ao reforçar o discurso de soberania nacional.
Agora, porém, auxiliares do presidente avaliam que o impacto pode ser mais negativo para o clã Bolsonaro. Isso por que, caso a tarifa seja de fato implementada — cenário considerado mais provável pelo governo brasileiro —, a população poderá também atribuir a Flávio o custo político da medida, caso ele não consiga revertê-la, enfraquecendo a narrativa de proximidade sólida com a gestão Trump.
O governo dos Estados Unidos tem até 15 de julho para decidir se adotará a recomendação do USTR. Técnicos dos dois países devem se reunir no início desta semana, como preparação para um encontro entre o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, e o representante de comércio dos EUA, Jamieson Greer, antes do prazo final.
O governo brasileiro mantém a aposta na negociação, embora avalie que há pouca disposição, por parte dos norte-americanos, para rever a medida.


