Servidor afastado de cargo após denunciar Wassef teme “o que está por vir”
Funcionário público do Ministério do Turismo que estava cedido ao Cade foi desligado no dia em que ex-advogado de Bolsonaro reclamou dele
atualizado
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Um servidor público do Ministério do Turismo que estava cedido ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) foi desligado desse cargo nesta quinta (17/9), dia em que foi publicada uma entrevista do advogado Frederick Wassef reclamando dele.
O servidor diz que não pode provar, mas avalia que está sendo alvo de retaliação por ter feito um pedido de investigação ao Supremo Tribunal Federal (STF) por indícios de tráfico de influência de Wassef na negociação da concessionária do Aeroporto Internacional de Viracopos com o governo federal.
Até o ex-PM Fabrício Queiroz ser encontrado em uma casa sua, em junho, Wassef era advogado pessoal do presidente Jair Bolsonaro e de seu filho, Flávio.
O que aconteceu
O Antagonista revelou, em junho deste ano, que o advogado Frederick Wassef havia sido contratado para uma consultoria jurídica pela concessionária Aeroportos Brasil Viracopos (ABV), que queria (e conseguiu) acordo com a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para relicitação do Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas, com novos termos.
Servidor do Turismo cedido ao Cade há menos de um ano, o advogado Carlos Eduardo Silva Duarte fez, ainda em junho, uma petição ao STF para investigar os fatos, por indícios de corrupção, advocacia administrativa e tráfico de influência.
“Não fiz essa petição como servidor do Cade, mas como advogado, como cidadão que se incomodou com a notícia, que falava em um contrato de R$ 6 milhões. Eu trabalhei muitos anos com auditoria e sei que é um valor muito alto. Merece uma investigação”, afirma ele, em entrevista ao Metrópoles.
Wassef se reuniu com Bolsonaro em 14 de maio deste ano, no Palácio do Planalto, pouco antes de o presidente receber o chefe do o Conselho de Administração da Triunfo (líder do consórcio) e do Aeroporto de Viracopos, João Villar Garcia.
A PGR abriu investigação preliminar baseada na petição do servidor, mas o procurador-geral, Augusto Aras, se manifestou pelo arquivamento.
Nesta quinta-feira (17/9), após Wassef citar o caso em uma entrevista à Veja, o servidor recebeu uma ligação lhe avisando que seria desligado do Cade e devolvido ao Turismo.
“Quando eu vi a entrevista, com um recado direto para mim apesar de não citar o nome, já fiquei apreensivo, mas resolvi não falar nada. De tarde, minha chefe me ligou avisando que eu fui desligado. Não foi surpresa para mim, mas ela disse que não sabia a razão”, relata ele.
Na entrevista, ao ser questionado sobre a investigação da PGR, Wassef diz:” É o mesmo modus operandi dessa organização criminosa. Plantaram um indivíduo que eu sei que é funcionário público federal de Brasília e lotado na Embratur e que foi cedido para o Cade agora. Não atua como advogado de forma permanente. Essa pessoa foi usada, entregaram uma peça pronta e o usaram nessa prática de denunciação caluniosa.”
Duarte nega as acusações: “Não recebi peça pronta nenhuma, não trabalho para ninguém, não há agenda oculta”, garante.
Cade nega ação política
Em nota, o Cade informou que “não tinha conhecimento da petição em questão”, protocolada pelo servidor pedindo a investigação. Ainda segundo o órgão, ele ainda não foi desligado de suas funções, mas deverá ser por questões de baixo rendimento e falta de compatibilidade com o restante da equipe.
“Nesta quinta-feira (17/09), um pedido de devolução foi realizado em razão do baixo desempenho do servidor ao longo dos meses em exercício na autarquia. Neste momento, a informação encontra-se na Coordenação-Geral de Gestão de Pessoas para tratamento administrativo”, diz a nota
O servidor questiona a justificativa do Cade. “É absurda. Eu nunca fui cobrado por produtividade baixa, estava fazendo meu trabalho normalmente”, afirma.
Funcionário público federal há 8 anos, Duarte não terá corte de salário com a volta ao Turismo, porque não tinha cargo de confiança no Cade, mas diz que teme novas represálias.
“Neste momento se mostra a importância da estabilidade do servidor, porque sinto que, se não a tivesse, estaria na rua. Mas não me arrependo de ter feito o que eu acho o certo, apesar de as consequências serem chatas”.
Ele diz que não fez o pedido de investigação buscando fama, mas que agora fala com a imprensa para que seu caso não fique nas sombras.
Outro lado
Wassef não foi encontrado para se posicionar. O espaço está aberto.
