Racionamento de água atrasou ação de bombeiros no desabamento em SP

Falta de hidrantes espalhados pela cidade dificultou trabalho dos militares. Corpo de Bombeiros considera a tragédia um "aprendizado"

atualizado 09/05/2018 12:20

WILLIAN MOREIRA/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

O combate às chamas no prédio que desabou na semana passada, no centro de São Paulo, teve atraso devido ao racionamento de água. Os hidrantes tiveram sua pressão reduzida e o Corpo de Bombeiros foi obrigado a utilizar ajuda de caminhões pipa.

O reservatório de um caminhão com 20 mil litros de água dura aproximadamente 11 minutos em uma ação de combate ao fogo. Portanto, foi preciso diminuir a pressão de água nas mangueiras, sem cessa-la. Assim, o trabalho não parava enquanto acontecia o revezamento dos caminhões de apoio.

É uma resolução da Empresa Brasileira e Saneamento Básico de São Paulo (Sabesp) diminuir a água na cidade durante a noite e a madrugada, no intuito de evitar vazamentos desnecessários nos canos em períodos de baixo consumo de água.

“Não tem água em São Paulo durante a noite, a rede de hidrantes é pequena. Aí, não tem jeito. Falta água. É um problema comum. Falta água.”, disse o major Henguel Ricardo Pereira, lamentando o ocorrido.

De acordo com os bombeiros ouvidos pela reportagem feita pela Folha de SP, é preciso falar sobre esse problema, principalmente após a tragédia, com ao menos dois mortos e seis pessoas desaparecidas.

Entretanto, segundo os profissionais, mesmo com água em abundância seria impossível controlar o fogo, devido às características do prédio e da rapidez com que as chamas se alastraram. O prédio tinha muita madeira e papelão. Sem elevadores, os buracos se transformaram em grandes chaminés.

“Bombeiro nenhum do planeta conseguiria apagar um fogo daquele”, disse o coronel da reserva Sérgio Roberto da Costa Athayde, oficial dos Bombeiros por 20 anos responsável, junto com outros colegas, a implantar modelos de combate a incêndio em 17 estados do país. Para ele, essa tragédia abre a discussão sobre a dissociação entre projetos arquitetônicos e normas de segurança.

“Os arquitetos se preocupam, na maioria das vezes, em fazer prédios cada um mais bonito do que o outro. Oscar Niemeyer é um ícone da arquitetura do Brasil, mas suas obras são máquinas de matar gente. O Memorial da América Latina, o teatro que pegou fogo, é um forno. Ali, se pegar fogo durante uma exposição, vai morrer gente torrada.”

Para o coronel Reginaldo Campos Repulho, também ex-comandante dos Bombeiros, outra discussão motivada pelo desabamento é a importância da fiscalização periódica em imóveis como esse. “Este [incêndio] é um aprendizado.”

Ex-comandante dos Bombeiros de São Paulo, o coronel Wagner Bertollini Junior alertou para o treinamento da corporação. Segundo ele, o protocolo da corporação para incêndios tinha previsão de queda de um prédio após ao menos três horas de chamas intensas. No caso do prédio de vidro, o colapso ocorreu em apenas uma hora e meia.

No estado de São Paulo, os bombeiros não têm poder de polícia para multar ou para interditar prédios inseguros. Procurado, o Ministério Público de São Paulo não quis se manifestar sobre uma ação, movida pela entidade, no intuito de obrigar o município e o estado a resolverem juntos os problemas dos hidrantes.

A ação foi proposta com base em um relatório feito pelo Corpo de Bombeiros em 2014. Segundo o documento, apenas 95 dos 948 equipamentos na capital estavam funcionando normalmente

Outro lado
A Sabesp informou ter montado um esquema especial para atender os bombeiros na região do largo Paissandu, durante o incêndio, incluindo o emprego de cinco caminhões-pipa com “válvulas estratégicas de acionamento à distância”. Elas permitem maior vazão de água da tubulação durante os trabalhos de combate ao fogo.

Já a Prefeitura de São Paulo disse estar concluindo um plano de gestão dos hidrantes. Segundo o órgão, o projeto tem o objetivo de “estabelecer um processo permanente de monitoramento, manutenção e implantação de equipamentos”, inexistente até hoje de forma articulada.

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