Tristeza embala o voto do brasileiro nas eleições 2018

Pesquisas e medições nas redes identificam o inédito mau humor dos eleitores. Após o atentado contra Bolsonaro, raiva cresce

atualizado 07/09/2018 23:49

ARTE/METRÓPOLES

Voto consciente, racional. Embora a prudência ordene uma decisão pensada à luz da razão, as reações emocionais estão especialmente presentes no voto, não só do brasileiro, mas nas democracias mais consolidadas do mundo. As campanhas sabem disso e, como podem, estimulam e se defendem dos sentimentos que influenciam a definição do voto.

Em especial nestas eleições, a tristeza é um dos sentimentos mais identificados pelas pesquisas qualitativas e nos comentários das redes sociais sobre os candidatos à Presidência da República. Esse é um fato inédito em pleitos desde a redemocratização. Campanhas anteriores, mesmo as que ocorreram em clima de crise econômica, contaram com o entusiasmo do eleitor, que votou com uma boa dose de esperança em seus candidatos.

“Apesar de o brasileiro manter a esperança e a confiança, ele está triste e com medo”, analisou o doutor em comunicação social Sérgio Denicoli, diretor da AP/Exata, empresa especializada em análise de dados nas redes sociais e que, desde maio deste ano, tem acompanhado a evolução dos sentimentos presentes em postagens no Twitter sobre os presidenciáveis.

A empresa acompanhou uma amostra de 58.812 tweets geolocalizados, publicados a partir de 145 cidades, de todos os estados do Brasil. São oito sentimentos básicos monitorados nas performances das hashtags: raiva, previsibilidade, desgosto, medo, alegria, tristeza, surpresa e confiança. O mesmo método foi utilizado nas duas últimas eleições norte-americanas, seguindo a teoria de Robert Plutchik. O estudo baseou a elaboração do algoritmo de medição de emoções nas redes.

Atentado contra Bolsonaro
O termômetro das emoções nas redes sociais reagiu de forma imediata na última quinta-feira (6/9), nas duas horas que sucederam o ataque ao candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro (PSL). Ele cumpria agenda de campanha na cidade mineira de Juiz de Fora e foi esfaqueado.

Esse foi um raro momento em que o sentimento de raiva superou o sentimento de tristeza, o qual também subiu de forma bastante contundente. Além disso, o medo aumentou bastante em poucas horas.

Confira a evolução das emoções detectadas no gráfico abaixo. O atentado acontece no momento em que o gráfico marca -2:

Fonte: AP/Exata

 

A confiança – que nas últimas semanas tem sido o sentimento mais predominante já que quem fala sobre o candidato nas redes é, em geral, apoiador de determinado nome – caiu drasticamente, sendo superada pela raiva. “Houve um claro sentimento de revolta”, identificou Denicoli.

Presidenciáveis
Ao longo dos últimos quatro meses, no entanto, as emoções mais presentes nas postagens que falam dos presidenciáveis foram mapeadas. O grosso dessas publicações é de apoiadores. Isso explica, na visão de Denicoli, o alto índice de confiança, identificado pelo levantamento, nos presidenciáveis citados nos posts.

Excluindo o fator confiança, já que os posts são feitos por apoiadores, os sentimentos presentes são bastante negativos. É necessário observar que os sentimentos não se referem aos candidatos citados, mas a qualquer fato ou pessoa.

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Nas postagens feitas por apoiadores do presidenciável pelo Podemos, Alvaro Dias, o sentimento predominante é raiva (15,02%). Já em relação a Ciro Gomes, candidato do PDT, a tristeza alcançou 13,63%.

Nos posts referentes ao candidato a vice na chapa petista, Fernando Haddad, o sentimento majoritário é raiva (14,39%) e tristeza (14,31%). No caso do tucano Geraldo Alckmin, a raiva teve o maior índice nas publicações (16,28%).

As postagens que citam o candidato do PSol, Guilherme Boulos, são motivados principalmente por tristeza (16,32%). Já em relação a Henrique Meirelles, o sentimento maior é medo (12,01%).

As interações citando o candidato do PSL, Jair Bolsonaro, são motivadas principalmente por tristeza (14,99%) e raiva (14,80%). João Amoedo, do partido Novo, suscitou postagens com predominância de tristeza (13,37%) e Marina Silva motivou posts preferencialmente pautados pelo medo (15,52%).

Já as publicações que citam o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que teve sua candidatura negada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na semana passada, foram permeadas principalmente pelo medo (16,50%).

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Julgamento
Até o atentado a Bolsonaro, outro fator bastante observado foi a questão da previsibilidade. Ou seja, ninguém verdadeiramente se surpreendeu com o fato político relacionado com a campanha, apesar de seu caráter inusitado, com um ex-presidente preso, lutando para disputar as eleições.

Na sexta-feira (31/8), durante o julgamento do TSE que barrou o registro de candidatura de Lula, confiança, tristeza, medo e raiva foram predominantes na rede social. Esses sentimentos estiveram bastante presentes nas postagens associadas às hashtags que mais se destacaram sobre o assunto. São elas: #Lula, #PauNoCudaOnu, #LulaInelegível, #LulaLivre, #LulaNasUrnasTSE, #LulaPresidente e #SemLulaECiro.

Daniel Ferreira/Metrópoles

Enquanto o sentimento de raiva mobilizou nas redes os adeptos da comunidade formada em torno dos termos #LulaLivre, #LulaNasUrnasTSE e #LulaPresidente, a tristeza esteve bastante presente, por motivos opostos nos posts que utilizaram as hashtags #PauNoCuDaONU e #LulaInelegível. Uma lamentou a intervenção do Comitê de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) no processo. A outra, o fato de Lula não poder ser candidato seguindo a recomendação expedida pelo órgão internacional.

Já o sentimento de surpresa foi o menos presente no estudo. Os internautas já esperavam o impedimento de Lula. Mesmo entre os defensores do ex-presidente que utilizaram a hashtag #LulaLivre, surpresa esteve presente em apenas 7% dos tweets.

“Arame farpado”
Para o cientista político Antônio Lavareda, especialista em comportamento eleitoral e marketing político, as emoções passaram a ser expressas nas redes sociais de forma bastante explícita, fazendo com que esse ambiente virtual assumisse um papel de “rede de arame farpado”.

“As pessoas deveriam investir em entender o porquê de se comportarem de determinada forma. Saber como reagem a determinado estímulo é fácil. Difícil é entender os motivos”, observou. Lavareda afasta o mito da escolha racional nas eleições. “Isso já foi afastado pela economia e também não funciona para a política”, atestou.

Para o cientista político, o sentimento de tristeza está presente de forma bastante particular nestas eleições. Em estudo realizado em junho pelo Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe) para a XP Investimentos, ele identificou dois grupos de sentimentos presentes entre os eleitores.

O primeiro contingente, o maior grupo identificado, é motivado por sentimentos chamados aversivos ou negativos. O método desenvolvido pelo Ipespe inclui nesse grupo emoções como preocupação, indignação ou raiva, e medo. “No segundo grupo, bem menor, estão os esperançosos”, observou Lavareda. Fazem parte do segundo sentimentos positivos a esperança, o orgulho, a alegria e o entusiasmo.

“Se acrescentarmos a tristeza ao primeiro grupo, podemos observar que ele abrange 83% dos entrevistados. Já os sentimentos mais positivos passam a somar 14%”, destacou.

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Crises sobrepostas
Segundo Lavareda, esse estado emocional vigente deve-se, principalmente, às sobreposições de crises nos últimos anos. “Estas eleições ocorrem sob um signo de emoções eminentemente negativas. Isso é uma coisa inédita no Brasil.”

Estamos em um período de sucessivas crises, de ordem econômica, fiscal e ética. Tivemos ainda uma crise de instituições, o confronto entre os Poderes do Estado, entre o Judiciário e o Congresso, entre o Congresso e o Executivo, entre o Executivo e o Judiciário. Tivemos o episódio do impeachment. Ou seja, temos todo glossário de crises se sobrepondo nos últimos anos e gerando tristeza, indignação e muita raiva

Antônio Lavareda, cientista político especializado em marketing digital

O cenário atual, no entanto, é bem diferente do que se desenhou em 1989, quando o país atravessava crise econômica severa e de representação política, mas estava prestes a realizar a primeira eleição após a redemocratização.

“Se observarmos a eleição de 1989, havia um cenário de crise econômica e de representação. No entanto, havia um entusiasmo. Os partidos não fizeram coligações para o primeiro turno. Praticamente todos as legendas lançaram nomes para a disputa ao Palácio do Planalto. Foi um ano de grande alegria, apesar das crises”, enfatizou Lavareda.

Em junho, o estudo ouviu 1,2 mil  eleitores. Na amostragem, 83% dos pesquisados declararam ter emoções negativas; enquanto apenas 14% estariam imbuídos de sentimentos positivos. Outros 3% não quiseram ou não souberam responder.

No grupo de sentimentos negativos, os entrevistados responderam da seguinte forma: preocupação (33%), indignação ou raiva (27%), tristeza (12%) e medo (11%). Já entre as emoções positivas houve a esperança (12%), orgulho (1%) e alegria (1%). Entusiasmo não atingiu 1% das menções.

Emoção nos slogans de campanha
A análise das emoções é instrumento bastante utilizado pelas campanhas na definição de suas estratégias. Não é de forma gratuita que, em 1989, a campanha do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva elegeu como slogan a frase “Sem Medo de Ser Feliz”. O mote começou a mudar a imagem do operário, que metia medo na classe alta e média por seu passado sindicalista. Foi o início de uma construção que culminou com a chegada de Lula ao poder, em 2003.

Em 2002, o “Lulinha Paz e Amor” conseguiu encarnar a felicidade pretendida pelo eleitorado brasileiro no início da década de 2000, com um tom muito menos agressivo do que a sua imagem comunicava na década de 1980.

Neste ano, as candidaturas apostam em sentimentos negativos. Para Lavareda, o voto no candidato Bolsonaro é bastante motivado pelo sentimento de raiva e indignação. A indignação é ainda bastante explorada por Alvaro Dias.

A campanha de Lula também insiste na indignação diante de um ex-presidente vitimado, enquanto os candidatos Marina Silva e Ciro Gomes apostam em emoções como preocupação e ansiedade.

“É claro que nenhum dos candidatos desperta ou provoca somente um tipo de emoção. Os sentimentos afloram como na gente. Ora estamos indignados, ora preocupados”, ressalvou Lavareda. O pesquisador é defensor do “modelo de inteligência afetiva”, explicitado em seu livro Emoções Ocultas e Estratégias Eleitorais, o qual ele usa como referência campanhas vitoriosas, como a de Barack Obama, nos Estados Unidos, as de Lula, em 2002 e 2006, e de Fernando Henrique Cardoso, em 1994 e 1998.

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