Mandetta: “410 mil vidas me separam do presidente até o dia de hoje”

Ex-ministro da Saúde destacou que o presidente Jair Bolsonaro fez uma série de negações e, por isso, tem direito de criticá-lo

atualizado 04/05/2021 18:28

Luiz Henrique Mandetta, ex-ministro da SaúdeJefferson Rudy/Agência Senado

O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta afirmou, nesta terça-feira (4/5), em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga ingerências do governo federal no enfrentamento da pandemia da Covid-19, que “410 mil vidas o separam” do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) até agora.

Mandetta explicou que, quando conversava com Bolsonaro e explicava a situação, o presidente demonstrava entender e dizia que colaboraria, mas passava-se o tempo o presidente fazia aglomerações.

Veja o depoimento:

Mandetta iniciou a fala defendendo que o coronavírus se “transformou em um ataque global” e mandou um recado ao presidente Jair Bolsonaro, de quem virou opositor após a saída do governo federal. “Não há nenhum raciocínio individual que prevaleça sobre o raciocínio coletivo”, disse.

“Como cidadão, eu posso criticar. Mesmo após eu ter saído, ter visto ele negar o uso de máscaras, higiene das mãos, a compra de vacinas. Uma série de negações, negações”, disse Mandetta à CPI da Covid-19. “Eu, como cidadão, 410 mil vidas me separam do presidente até o dia de hoje”, acrescentou.

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Em pronunciamento aos senadores, o ex-ministro da Saúde afirmou que sempre se baseou na preservação da vida e na ciência para tomar decisões. Ele alegou ainda que sempre defendeu a imunização da população e que “houve discordância” com o presidente Bolsonaro sobre a política de isolamento social para conter o vírus.

Luiz Henrique Mandetta revelou que, enquanto esteve no comando da pasta, testemunhou reuniões de ministros nas quais Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) fazia notas sobre os encontros. “Eles tinham constantemente reuniões com grupos dentro da Presidência. Tinham um assessoramento paralelo”, apontou.

“Mostrei projeções”

Segundo Mandetta, Bolsonaro sabia das projeções sobre 180 mil mortos pela Covid-19 no fim do ano. “Alertei sistematicamente, mostrei as projeções”, pontuou.

A sessão teve início por volta das 10h20. Um novo bate-boca entre os senadores, no entanto, atrasou o início do depoimento de Luiz Henrique Mandetta, o primeiro a responder às perguntas do colegiado.

O vice-presidente da comissão, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), e o líder do Centrão, senador Ciro Nogueira (PP-PI), discutiram sobre o andamento dos trabalhos.

Randolfe criticava as questões de ordem para atrasar o início da sessão, interpeladas pelos senadores da base aliada do governo federal, quando foi interrompido por Ciro.

O ex-ministro da Saúde também afirmou que tomou decisões com base em três pilares: a defesa intransigente da vida, o SUS como meio para atingir os objetivos e a ciência como elemento de decisão.

“A defesa intransigente da vida foi a [prioridade] número um. Não haveria nenhuma vida que não fosse valorizada. O SUS como meio para atingir e a ciência como elemento de decisão. O eixo de atenção, prevenção, testagem, hospitalização e monitoramento”, declarou Mandetta.

Vacinas

O médico defendeu a importância da imunização da população brasileira como saída para a crise sanitária. “A única pauta sugerida para o Brasil, na assembleia de 2020, foi a vacina como patrimônio global da humanidade.”

Mandetta, que estava à frente da Saúde quando a pandemia chegou ao Brasil, foi demitido em abril do ano passado, após divergir do presidente sobre o modo de conduzir a crise do coronavírus no país.

Desde o início, ele se mostrou contrário ao tratamento precoce contra a Covid-19, amplamente defendido pelo chefe do Executivo federal, e favorável a um lockdown nacional para conter a disseminação do vírus.

No depoimento, Mandetta disse que faltou iniciativa do Executivo para criar uma política de isolamento social já no início da pandemia. “[Era] Fundamental que se fizesse uma fala de prevenção dos brasileiros e de isolamento. Não é possível se fazer qualquer tipo de gestão sem prevenir infecção. Era importante naquele momento [o isolamento social] porque tínhamos baixo número de casos”, defendeu.

Discordância

O ex-ministro assumiu ter discordado de Bolsonaro sobre medidas para garantir o isolamento social. “Houve discordância. Nunca tive discussão áspera, mas sempre coloquei as recomendações de maneira muito clara. Sempre as fiz de acordo com o que é preconizado para doença infecciosa epidêmica”, completou.

Ele afirmou que alertou Bolsonaro sobre previsão de 180 mil mortos até dezembro de 2020. Mesmo assim, Bolsonaro “não recomendou nenhuma providência”. “Me lembro do presidente falar que adotaria o chamado confinamento vertical, que era algo que a gente não recomendava. Tinha uma outra fonte, que dava a ele o porquê. Nunca houve a recomendação nossa que não fosse da cartilha da OMS [Organização Mundial de Saúde]”.

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