Bolsonaristas usam BBB21 contra a esquerda e o movimento negro

Discursos algumas vezes extremistas de ex-integrantes movimentam as redes sociais e alimentam críticas quanto à forma e ao conteúdo

atualizado 09/03/2021 7:55

Lumena no BBB21Reprodução/Twitter

O discurso identitário da psicóloga e DJ Lumena Aleluia e as atitudes da cantora Karol Conká, agora ex-participantes do Big Brother Brasil 21, aumentaram o caldo do debate sobre racismo, ao serem instrumentalizados por conservadores e bolsonaristas para criticar a esquerda e o movimento negro.

A edição deste ano do reality show da Rede Globo é a que possui a maior quantidade de participantes negros. E o discurso algumas vezes mais duros de alguns ex-integrantes movimentam as redes sociais e alimentam críticas quanto à forma e ao conteúdo. Acuada, a esquerda questiona como esses personagens têm sido retratados pelo programa.

O presidente da Fundação Cultural Palmares, Sergio Camargo, crítico rotineiro da esquerda e do movimento negro, tem aproveitado para atacar o que considera “racismo” dos negros no programa. “Sem se dar conta, essa participante do BBB presta um grande serviço ao Brasil, ao expor a verdade: pretos também são racistas – pretos militantes, sempre eles”, escreveu.

Camargo também ironizou a postura da psicóloga dando “lição de moral” em outra participante “branca privilegiada”. “Mais uma semana e ela acaba com o movimento negro no Brasil, de tanta chatice. Força, Lumena! Sou seu fã!”.

Um dos criadores do canal bolsonarista Terça Livre, Italo Lorezon, corrobora as críticas. “Depois de 20 edições, o BBB produziu algo que preste na vigésima primeira: nos deu um retrato fidedigno do que é a esquerda na prática e no dia a dia”, escreveu.

“Esse BBB tem que permanecer no ar por uns três anos e ser transmitido em cadeia nacional de televisão. Seria uma forma rápida de superarmos a cultura da lacração/cancelamento. Só não é mais eficaz do que carpir um lote”, escreveu deputado federal Paulo Eduardo Martins (PSC-PR).

A ofensiva não ocorre apenas nas redes sociais. O deputado estadual do Rio de Janeiro Anderson Moraes (PSL) apresentou uma queixa-crime contra Lumena por racismo contra pessoas brancas.

Quando a cantora Karol Conká foi eliminada com recorde de rejeição do programa, o bolsonarista comemorou: “99,17% é o que chamo de ‘aqui se faz aqui se paga!’ Racistas não passarão!”

Durante o programa, Lumena reclamou das atitudes potencialmente preconceituosas de colegas e impôs um discurso militante. Em algumas ocasiões, foi ríspida e colocou o dedo em riste para contrapor alguém. Assim como criticou colegas de confinamento, sob o argumento de privilégio pela cor da pele.

Karol, por sua vez, levantou a questão identitária em momentos pontuais para impor sua condição de mulher negra, mas foi sua “animosidade” – como ela costumava repetir – contra determinados participantes que gerou desconforto.

Chiara Ramos, cofundadora da Abayomi Jurista Negras, explica que uma pessoa negra pode até ser preconceituosa em relação a uma branca, mas não se trata de racismo, visto que este é uma questão estrutural que está veiculada diretamente ao princípio do poder, dos direitos e da exploração da vida e da morte.

“Quando a gente fala em racismo, fala em toda uma estrutura social, que, a partir de critérios de raça, exclui, oprime e subalterniza um grupo social a partir da cor”, explica Chiara. “O racismo, enquanto sistema de opressão, é uma estrutura, um modelo social, e não um ato individual”, acrescenta.

“Pôquer identitário”

O filósofo Wilson Gomes, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), classifica o jogo proposto por alguns ex-integrantes do BBB21 como “pôquer identitário”, que seria um jogo de cartas de minorias em que cada uma delas têm um peso diferente. Segundo ele, homem, branco, heterossexual e cis são cartas fracas ante mulher, negro, homossexual e trans.

Neste jogo, diz ele, ser militante confere alguma vantagem, ser desconstruído diminui o déficit, ter empatia idem, mas quem têm as cartas mais fortes é quem decide se empatia significa alguma coisa. “Não é o jogo da vida real, claro, em que as cartas têm valores invertidos, mas por isso mesmo se reveste de enorme valor simbólico”, explica.

“A maioria dos participantes veio jogar o pôquer identitário, na dupla certeza de que, de um lado, é um jogo que ‘as pessoas lá fora’ aceitam e têm que aceitar, de outro, de que é o jogo que esses participantes em particular, buscados no seio da militância identitária e que se sentem parte de identidades, sabem jogar e têm jogado na vida”, analisa Gomes.

Edição

Do lado de fora da casa, militantes do movimento negro têm se mostrado preocupados com a narrativa imposta pela edição do programa e como isso pode reverberar na luta do movimento e no debate racial. A deputada estadual de São Paulo Erica Malunguinho (PSol) foi uma das que ponderaram sobre a “narrativa da negritude” criada pela produção.

O sociólogo Luiz Carlos Pinto Junior, da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), destaca que a produção do programa foi perspicaz em captar a tendência da sociedade acerca do debate racial, que é uma demanda histórica no Brasil.

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Pinto, contudo, pondera que o BBB21 mostra a capacidade que a emissora tem de se renovar e de criar realidade, mas critica o fato do programa estar surfando no modelo de racismo vigente no Brasil, que é a demonização das mulheres negras.

“Essa edição forneceu um material audiovisual precioso aos bolsonaristas, mas também de argumentos. Por causa da escolha dos personagens. Essa instrumentalização navega no senso comum, numa narrativa que é repisada todos os dias na programação televisiva, a de que mulheres negras são barraqueiras, que as mulheres em geral são problemáticas, que as militantes são mau-caráter. Essa narrativa tem aderência grande nos formatos do racismo no Brasil, e eles surfam no senso comum”, analisa Pinto.

“Por outro lado, o bolsonarismo trabalha com método de inversão. Isso consiste, justamente, em inverter o discurso, inverter a acusação. É um método que também tem aderência com o senso comum”, acrescenta o sociólogo.

Wilson Gomes, da UFBA, por sua vez, destaca que a história é contada a partir de diversos fatores.

“Já tivemos BBB vencido por negra e por racista, então, toda história pode ser contada e, em princípio, todas podem ser bem-sucedidas, tudo depende da autoconstrução moral e psicológica dos personagens, protagonistas e antagonistas, do desenho dos conflitos, da narrativa que a edição quiser favorecer, do posicionamento emocional e moral do público”, avalia Gomes.

“Só que não é um script, é um reality, e o xadrez emocional e moral vai se constituindo a depender de como os participantes vão reagindo uns aos outros quando começam a interagir”, acrescenta.

Gomes pontua que os “identitários” já tiveram condições de conduzir a própria narrativa, e cita o exemplo de Jean Wyllys, que ganhou o BBB5.

Preocupação

A deputada estadual do Rio de Janeiro Dani Monteiro (PSol) se mostra preocupada com a generalização em torno do discurso de Lumena, como mecanismo de controle social, e, consequentemente, com a potencial deslegitimação da luta do movimento negro. “Entendam que a subjetividade dela não representa toda a luta”, defende-se.

“Muitas pessoas que militam no movimento negro estão preocupadas com a instrumentalização dessas pessoas, muito preocupadas com esse tipo de militante que a Lumena representa ali [no BBB]. Parece que é uma militante insensível. O que foi vendido pelo BBB é que ela é uma pessoa insensível, fria e racionalista demais”, afirmou Pinto.

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