Análise: Bolsonaro confunde população ao falar de petróleo no mar

Como no caso das queimadas na Amazônia, presidente faz declarações sem provas e tenta arranjar um inimigo externo para desastre ambiental

Foto: José Cruz/Agência Brasil

atualizado 10/10/2019 10:01

Mais uma vez, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) força a barra para tentar impor uma discussão ideológica em assuntos do governo. As atitudes tomadas em relação às toneladas de petróleo espalhadas nas águas do litoral brasileiro revelam interesse do chefe do Executivo em usar o episódio para polarizar com a oposição.

Como se deu no auge das queimadas na Amazônia, as primeiras manifestações do presidente serviram mais para confundir do que para esclarecer a população sobre a gravidade e as causas do fenômeno. No caso da floresta, ele acusou ONGs por incêndios criminosos, mas nunca provou o que disse.

A postura descompromissada se repete em relação à poluição das praias nordestinas. Sem informações conclusivas, o capitão disse na segunda-feira (07/10/2019) que, sobre a origem das manchas de petróleo, tinha um país “no radar”.

Nessa quarta-feira (09/10/2019), o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles (com Bolsonaro na foto em destaque), explicitou as suspeitas do chefe. “Esse petróleo, muito provavelmente da Venezuela, é petróleo que veio por um navio estrangeiro”, afirmou, sem apresentar evidências da suposição. O presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, não confirma a informação, embora afirme que não se trate de produto brasileiro.

Nada impede que o país vizinho seja a origem da poluição no litoral do Brasil. Afinal, a Venezuela tem as maiores reservas de petróleo da região e, de lá, saem navios que passam pelo Atlântico.

Mas não cabe ao presidente da República fazer especulações, notadamente, voltadas para alimentar um confronto político com o país de Nicolás Maduro. Pelo principal gabinete do Palácio do Planalto passam informações de toda natureza. Se tratadas de forma leviana – ou mesmo infantil –, tendem a provocar confusões artificiais e desnecessárias.

Por exemplo, mesmo que a origem do petróleo seja venezuelana, não necessariamente o país vizinho tem responsabilidade sobre o vazamento. Em tese, a falha pode ser do navio ou do proprietário do petróleo.

Então, enquanto as investigações não apontarem com precisão as circunstâncias da tragédia, ilações do presidente em nada contribuem para a compreensão ou para a solução do problema. Prestam-se apenas a atiçar os seguidores do capitão contra Maduro e seus aliados.

A bem da verdade, a atuação de Bolsonaro nos casos das queimadas na Amazônia e no vazamento de petróleo é, de certa forma, previsível. Desde antes de chegar ao Palácio do Planalto, o presidente demonstra indisfarçado desprezo pelas causas ambientais. Tornou-se famosa, por exemplo, a multa que ele recebeu em 2012 por pesca ilegal no litoral fluminense. A punição foi cancelada no final do ano passado.

A atuação de Ricardo Salles reforça a imagem de que o governo se contrapõe às causas ambientais. Nesse sentido, vale registrar o protesto feito contra ele nessa quarta-feira (09/10/2019) por um manifestante na Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara. Na ocasião, um rapaz lhe entregou o “troféu exterminador do futuro”, uma alusão ao aumento do desmatamento no Brasil.

Pelo perfil do capitão nessa área, pode-se mesmo esperar certa dificuldade em tratar do tema na perspectiva de proteção da vida marinha. A postura sempre refratária às causas ambientais não deixa margem para atitudes que pareçam concessões ao discurso “politicamente correto” dos ecologistas. Isso não, jamais.

Mais fácil procurar inimigos. Na Amazônia, foram as ONGs e o presidente da França, Emmanuel Macron. Agora, no vazamento de petróleo, é a Venezuela. Se for confirmada essa hipótese, Bolsonaro poderá capitalizar politicamente o fato. Caso contrário, fica por isso mesmo.

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