Maia sobre Bolsonaro: “Um filho é de internar, o outro é deslumbrado”

Presidente da Câmara diz que só agora "caiu a ficha" do chefe do Executivo de que é preciso "fazer política" no Congresso

atualizado 27/04/2019 13:24

Um dia depois de afirmar que a relação que mantém com o presidente Jair Bolsonaro (PSL) não poderia ser pior, o principal articulador da aprovação da reforma da Previdência na Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), passou a criticar, publicamente, os filhos do presidente, Carlos e Eduardo. Para o deputado, o primeiro é “doido à vontade” e caso para “internar” e o outro é “deslumbrado”.

As impressões que Maia tem a respeito do clã Bolsonaro foram reveladas ao portal BuzzFeed, em entrevista concedida na residência oficial da Câmara nesta sexta-feira (26/04/2019). Segundo a publicação, o parlamentar, no melhor estilo “metralhadora giratória”, disse que só agora “caiu a ficha” de Bolsonaro de que é preciso fazer política para conseguir votos no Congresso e detonou o líder do governo na Câmara, Vitor Hugo (PSL-GO): “Dá até dó.”

Provocado se o deputado federal Eduardo Bolsonaro estaria agindo de forma arrogante na Câmara, como, segundo o BuzzFeed, alguns parlamentares dizem, Maia praticamente concordou: “Ele não era nada, era um deputado do baixíssimo clero, o pai vira presidente, ele passa a ser chamado pela equipe do Trump, pela equipe de não sei o quê. Um pouquinho de vaidade é um direito, não é?”, disse.

“Não vamos exagerar também, achar que ele não pode ter um momento de deslumbramento. Quem é que nunca teve? Quando eu ganhei minha primeira eleição para presidente da Câmara eu também tive. Todo mundo tem, mas com o tempo você vai vendo que isso ai tudo é passageiro”, argumentou.

Sobre o vereador Carlos Bolsonaro, “o número 2”, Rodrigo Maia teria sido mais contundente. “O filho do presidente é um radical”, afirmou. O deputado comentou a notícia de que o filho segurou a senha do presidente no Twitter e o impediu de acessar a rede. “Eu acho que pode ser verdade, você não acha? Não me parece verdade, mas eu não acho impossível ser. Eu até acho que não é, acho que o filho não vai a tanto, pois aí seria uma relação… Aí precisaria internar”, reagiu Maia.

No entanto, na manhã deste sábado (27/04/2019), a assessoria de imprensa do presidente da Câmara divulgou uma nota colocando panos quentes nas declarações dadas por ele. “Sobre a entrevista publicada pelo site Buzzfeed, o deputado Rodrigo Maia afirma que as informações estão totalmente fora de contexto e que a entrevista aparenta uma agressão verbal que não ocorreu. Segundo ele, a família é algo sagrado e de forma alguma ele faria ataques à família do presidente, nem de ninguém”, diz o comunicado.

Golden shower e outros comentários
Ainda de acordo com o BuzzFeed, durante a entrevista, questionado se o temperamento intempestivo de Carlos causa impacto no Congresso, o presidente da Câmara desdenhou. “Ninguém fica preocupado com Carlos. Todo mundo tem convicção de que o Bolsonaro é quem comanda isso. E eu não acredito, e ninguém acredita mais, que é o Carlos que comanda esse jogo”, observou. “Alguém coloca aquilo do golden shower sem o pai ver? O filho pode ser doido à vontade, mas, num negócio daquela loucura, só com autorização do dono da conta”.

A acidez de Maia se estendeu a outros personagens do governo, como o guru do presidente, o escritor Olavo de Carvalho. “Apesar de achar que ele influencia demais o Bolsonaro, as agendas dele [do presidente], acho que ele vai perder relevância”, disse.

Mesmo dizendo que não gosta de comentar sobre como os pais tratam seus filhos, Maia ressaltou que Bolsonaro colocou o filho com 17 anos [Carlos] para disputar contra a própria mãe uma vaga na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro. “Ele derrotou a mãe para vereador. Isso deve ser normal na cabeça de um ser humano? Derrotar uma mãe com 17 anos? Isso deve ter gerado muito problema na cabeça do Carlos”, analisou.

“A informação que eu tenho, apenas de ouvir falar, é que eles ficaram sete anos sem se falar, ele e o pai. E você vê que ele tem uma admiração enorme pelos filhos, diz que devia ser ministro, que só chegou à Presidência por causa dele. O que influenciou muito a eleição foi a facada que quase o matou. Se Bolsonaro achar que foi a internet que elegeu ele…”, completou.

Quanto ao líder do governo na Câmara, o Major Vítor Hugo (PSL-GO), Maia não perdoa: “Dá dó. Muito fraquinho. Não ajuda”. Segundo o deputado, “a Joice [Hasselmann, PSL-SP, líder do governo no Congresso] ajuda, participa. A Joice está fazendo política. O outro faz a antipolítica, achando que o Bolsonaro vai ficar feliz porque ele está fazendo a antipolítica. E ao mesmo tempo ele quer ser articulador político, o que cria uma confusão na cabeça das pessoas”.

“Dá dó. Muito fraquinho. Não ajuda”.

Elogios a Onyx
Os elogios de Rodrigo Maia surgem na entrevista quando o assunto é o ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, a quem atribui a melhoria da relações do Planalto com o o Congresso. “Ele (Onyx) compreendeu que se ele não fizer articulação, vai cair. Então começou a fazer articulação”, disse.

“Tem gente que quer cargo? Tem. Tem gente que quer orçamento para os seus estados? Todos, inclusive os da oposição. Agora, não é só isso. Uma boa conversa no Palácio do Planalto traz muito voto. Eu vi deputado aqui na época do Michel Temer que eu falava: ‘não é possível, o Michel não fez nada para esse deputado, esse parlamentar está morto no estado dele’. Mas recebeu para almoçar, levou para jantar no Jaburu e o deputado volta falando do presidente, que nós temos que votar e ajudar. E eu ficava: ‘meu Deus do céu’”.

Para Rodrigo Maia, uma boa conversa, “em que se mostra que vai dar certo, que precisamos fazer e aprovar juntos, que vamos governar juntos, que o Brasil vai crescer e a gente vai junto, tem muito valor para muita gente”.

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