Análise: PT mistura “Lula Livre”, “Vaza Jato” e oposição a Bolsonaro

Abatido por sucessivas derrotas, partido tem o desafio de encontrar discurso sobre a Lava Jato depois da divulgação das conversas de Moro

Foto: Daniel Ferreira/MetrópolesFoto: Daniel Ferreira/Metrópoles

atualizado 07/07/2019 7:58

A divulgação de conversas de autoridades envolvidas com a Operação Lava Jato surgiu como uma janela de oportunidades para a oposição. Para o Partido dos Trabalhadores, em particular, a revelação dos métodos de atuação dos procuradores federais e do então juiz Sergio Moro forneceu material para pressão sobre o Judiciário e proporcionou um foco de desgaste no governo.

No curto prazo, os diálogos publicados reforçam os argumentos da sigla petista pela soltura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No horizonte mais distante, abre o leque de estratégias para as eleições municipais, em 2020, e para o Planalto, em 2022.

A nova realidade produz dilemas, à parte, dentro do PT. As sucessivas derrotas nas causas defendidas e no enfrentamento com os adversários recomendam reflexão cuidadosa sobre os próximos passos. 

Depois da vitória de Dilma Rousseff na reeleição de 2014, o partido fracassou nas campanhas Não Vai Ter Golpe, Fora Temer, “Ele Não” e Lula Livre. Na disputa de 2018, ficou evidente o equívoco da estratégia de insistir com a candidatura do ex-presidente até poucas semanas antes do primeiro turno.

Os erros dessas táticas forçam o PT a repensar o discurso até a disputa presidencial. De imediato, precisa decidir como tratar a Lava Jato.

Aplaudida pela maioria da população por desmantelar uma rede de corrupção sustentada por políticos, a operação agora tem as entranhas expostas nas conversas divulgadas pelo site The Intercept. O trabalho da força-tarefa de Curitiba, mais do que nunca, divide opiniões. 

Para os próximos meses e anos, o partido terá de analisar se mantém o ataque cerrado à Lava Jato, como tem sido desde o início das investigações. Embora ajude a mobilizar os militantes, essa postura tem a desvantagem de reforçar o atrelamento da imagem da legenda aos escândalos de corrupção.

Dentro do PT, há quem defenda a bandeira “Lula Livre” sem a crítica generalizada contra a Lava Jato. Assim, avalia-se, as forças da direção se concentrariam na soltura do ex-presidente, causa mais urgente para a sigla. As revelações da “Vaza Jato” ajudam nessa estratégia.

No mesmo sentido, acredita-se, essa posição mais flexível em relação à operação poderia reduzir um pouco a tensão com o Judiciário. Assim, quem sabe, constrói-se um ambiente mais favorável a Lula. Não é essa, no entanto, a compreensão da cúpula do partido.

Líder máximo do PT, Lula ainda desfruta de grande aceitação entre os eleitores, mas sofre também pesada rejeição. O papel dele na próxima campanha, preso ou solto, será determinante no resultado eleitoral, para um lado ou para outro.

O objetivo maior, no momento, para os oposicionistas, é buscar formas de enfraquecer o presidente Jair Bolsonaro (PSL), dono da aprovação de um terço dos brasileiros, segundo as pesquisas, apesar dos desgastes dos primeiros seis meses de governo. Esse é o patamar histórico de apoio do PT nas últimas décadas, suficiente para quatro vitórias em eleições presidenciais.

Mas o PT também precisa avaliar como calibrar o discurso de liberdade do ex-presidente em relação a Moro e ao governo. Apesar do impacto dos vazamentos, o ministro da Justiça e Segurança Pública ainda desfruta de popularidade por simbolizar o combate à corrupção. Pesquisa Datafolha divulgada nesse sábado (06/07/2019) mostra que, embora 58% dos brasileiros considerem que o ex-magistrado agiu de forma inadequada na condução da Lava Jato, 55% não veem razão para que ele deixe o cargo na Esplanada. 

Com a publicação dos diálgos, Moro fica com o futuro atrelado ao entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) em relação ao conteúdo e ao vazamento das mensagens.

O ex-juiz trata o vazamento do arquivo como crime e a publicação como sensacionalismo. Caberá aos ministros do Supremo decidir se as atitudes do então magistrado foram abusivas. Nessa hipótese, as ambições políticas de Moro estarão comprometidas. 

Caso o STF compreenda que suas ações se enquadram nas normas da Justiça, Moro sairá fortalecido. Nos últimos balões de ensaio de Brasília, o ex-juiz aparece como vice de Bolsonaro em 2022. Pelo fatos abordados acima, essa é uma aposta demasiadamente precipitada.

De qualquer forma, a atuação da oposição em relação a Moro e ao governo estará, pelo menos nos próximos meses, vinculada aos desdobramentos das revelações do The Intercept. Como tem sido de uns tempos para cá, com fortes doses de emoção.

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