Análise: pelo visto, “Vaza Jato” fez Moro perder energia no cargo

Um mês depois das primeiras conversas divulgadas pelo The Intercept, ministro anuncia decisão de tirar uma semana de descanso com a família

Igo Estrela/MetrópolesIgo Estrela/Metrópoles

atualizado 09/07/2019 12:34

O porta-voz da Presidência da República, Otávio do Rêgo Barros, foi explícito ao informar as razões da licença do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro. O afastamento se dará, segundo o general, para o ex-juiz “descansar” e “reenergizar” o corpo.

Ninguém tem dúvidas da importância, para qualquer pessoa, de se tirar férias para recobrar as forças depois de uma temporada ininterrupta no batente. Mas, nas circunstâncias atuais, a saída temporária transmite a sensação de que o cansaço está associado à divulgação pelo site The Intercept de conversas atribuídas às autoridades envolvidas na Operação Lava Jato.

A repercussão do caso no Brasil e no exterior dá uma ideia da gravidade das suspeitas levantadas pelos diálogos tornados públicos desde o dia 9 de junho. Depois de um mês sob ataque, faz sentido que Moro se sinta com pouca energia para administrar a pasta e as complicações decorrentes da “Vaza Jato”.

Deve-se ressaltar que o ministro não explicou os motivos do afastamento de cinco dias. Segundo despacho do presidente Jair Bolsonaro, publicado no Diário Oficial, o ministro tomou essa atitude para resolver “assuntos particulares”.

Trata-se de uma atitude inusitada. Ministros, como quaisquer trabalhadores, não costumam tirar uma semana para descansar depois de seis meses no cargo. Muito menos quando se encontram no centro de um escândalo.

O exemplo mais conhecido de fato semelhante ocorreu durante o governo Itamar Franco, quando o então ministro-chefe da Casa Civil, Henrique Hargreaves, afastou-se do cargo por causa de suspeitas relacionadas a desvio de verbas orçamentárias.

As razões da saída foram tornadas públicas. Encerradas as investigações, nada se provou e Hargreaves reassumiu o posto no Palácio do Planalto.

Pode-se lembrar, ainda, de casos relacionados a doenças. No governo Dilma Rousseff, o então ministro da Agricultura, Mendes Ribeiro, pediu licença da função para tratamento de saúde. Antes de sair, ele informou que estava com câncer. Ainda retornou à cadeira na Esplanada, mas retirou-se definitivamente logo depois e morreu em 2015.

Note-se que, nesses dois episódios, não se falou de descanso nem de necessidade de reenergizar. Ambos os ministros apresentaram motivos claros e inquestionáveis para pedir afastamento.

Agora, é diferente. Antes da publicação no Diário Oficial, não se sabia da intenção do ministro de aproveitar uns dias de lazer ao lado da família. O anúncio da pausa no trabalho surge exatamente quando o ministro sofre cobranças pela suspeita de conluio com o Ministério Público nos processos da Lava Jato. Recorde-se ainda que, logo depois da divulgação dos primeiros diálogos, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) pediu o afastamento do ministro.

Nesse contexto, fica impossível dissociar a escapada de Moro das encrencas decorrentes do vazamento de mensagens da força-tarefa instalada em Curitiba. Assim, mesmo que ele de fato tivesse programado férias não remuneradas depois de seis meses no cargo, os fatos estão inter-relacionados pelas circunstâncias atuais.

De qualquer forma, a se julgar pelas palavras do general Rêgo Barros, o ministro precisa repor as forças dispendidas no trabalho. Literalmente, pode-se dizer que Moro perdeu energia no cargo.

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