Rio de Janeiro (enviada especial) – Na noite de 14 de março de 2018, a carioca Monica Tereza Azeredo Benício, 32 anos, crescida na Maré, feminista, formada em arquitetura e urbanismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), passou a ser a viúva da vereadora Marielle Franco (PSol). Ela perdeu a companheira de mais de uma década em uma emboscada no Centro do Rio, atingida por quatro tiros na cabeça. Desde então, é pela morte de Marielle que o nome de Monica soa familiar mundo afora.

Depois de 10 meses vivendo o luto em busca de justiça por Marielle, a arquiteta retoma seu ofício na área de mobilidade urbana e direito à cidade, integrando a equipe da liderança do Partido Socialismo e Liberdade (PSol) em Brasília. Ao mesmo tempo, continua esperando respostas sobre a noite que lhe tirou a parceira de vida e de lutas.

Igo Estrela/Metrópoles

Assassinada junto ao motorista Anderson Gomes, Marielle Franco, única vereadora negra em exercício no Rio de Janeiro, era conhecida por marcar posições contrárias às milícias que aterrorizam comunidades carentes fluminenses. Desde aquela noite, não se sabe quem cravou de balas o carro da parlamentar, matando Marielle e Anderson. O duplo homicídio segue sem solução. Investigadores “não descartam”, contudo, a participação de milicianos. Na verdade, uma execução encomendada pela milícia é a hipótese mais provável até o momento para explicar o crime.

A ausência de Marielle é sentida todos os dias, desde o momento em que eu abro o olho e vejo que é real. Não tem uma noite que eu não durma tentando acreditar que de fato não tenha acontecido. O que me sobrou foi a luta. A gente vai seguindo. Seguindo com dor, mas seguindo com o que resta"
Monica Benicio, viúva da vereadora Marielle Franco, assassinada há 10 meses

Na terça-feira (22/1), a operação Os Intocáveis, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), levou à prisão cinco de 13 acusados de integrarem milícias que agem em bairros da Zona Oeste do Rio. Dez anos antes, uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) batizada como CPI das Milícias, presidida por Marcelo Freixo (PSol), já havia citado quatro deles em relatório. Marielle atuou, à época, como assessora parlamentar do então deputado estadual.

Depois da operação do Gaeco, veio à tona a informação de que o senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL), filho do presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL), prestou homenagens na Assembleia Legislativa (Alerj) ao acusado Adriano Nóbrega, que está foragido e é suspeito de participação na morte da vereadora. Flávio também empregou a mãe e a mulher do homem identificado como miliciano em seu gabinete.

Antes que terminasse a quinta-feira (24), o deputado federal reeleito Jean Wyllys, amigo e correligionário de Marielle, também conhecido por sua atuação em favor dos direitos humanos, anunciou que não assumirá seu terceiro mandato na Câmara dos Deputados e deixará o Brasil para preservar sua vida, pois é alvo de constantes ameaças de morte.

Disposta a lutar no front político com a mesma determinação com que cobra respostas do poder público sobre a morte da esposa, a arquiteta e ativista Monica Benicio conversou com o Metrópoles sobre todos esses acontecimentos. Veja a íntegra da entrevista:

 

Políticos que exibiram uma placa em homenagem a Marielle quebrada durante a campanha foram eleitos. Em compensação, o deputado Jean Wyllys desistiu do mandato. O que essa nova configuração política te faz sentir?

Poderia dizer que é um sentimento de medo, de preocupação, mas é sobretudo um sentimento de tristeza muito grande ver que o nosso país chegou a uma conjuntura política tão dramática. A gente está falando de uma pessoa que precisou tomar a dura decisão de não voltar ao seu país, à sua família, aos amigos, para poder preservar a integridade física, a sua vida. Isso é muito duro.

Dizem que ainda existe uma democracia neste país. É muito triste ver, nesse tão pouco tempo de governo [Bolsonaro], o nosso primeiro exilado político. Um homem tão combativo dentro do Parlamento, sem dúvida, vai fazer muita falta. É mais um sinal de que o mundo deve estar muito atento ao que vem acontecendo no Brasil.

São muitas retiradas de direitos, muito retrocesso nas nossas pautas políticas e sociais. Tudo isso com esse discurso de ódio, de violência, nesse clima tão pouco amistoso que a gente vem vivendo desde o período da campanha eleitoral. A quebra da placa da Marielle foi muito simbólica. Mostra o quão violento é o momento que a gente está vivendo agora. O atual governador do Rio de Janeiro [Wilson Witzel, do PSC] participou de um ato em que a placa da Marielle quebrada era mostrada e ele celebrava isso.

Eu não estou falando da Marielle minha companheira, minha esposa que eu perdi. Estou falando de uma defensora de direitos humanos. Estou falando da única vereadora negra em exercício na cidade do Rio de Janeiro sendo executada da forma bárbara como foi e isso ser tratado dessa forma por pessoas que são representantes públicos. O sujeito que faz esse ato bárbaro de quebrar uma placa em homenagem a uma defensora de direitos humanos entra na Assembleia do Rio de Janeiro como o mais votado. Que sociedade é essa? É muito difícil ver a população ser conivente com esse tipo de prática.

Esse poder é uma ameaça aos direitos humanos e a políticos como Marielle?

Sem dúvida. Isso sempre foi posto no discurso deles. Não por acaso, a principal retirada de direitos foi da população LGBT, que saiu da pasta de Direitos Humanos. É um governo que não representa as minorias, que não representa a população como um todo. É um governo que está claramente posto para governar para uma minoria elitista. O Brasil é muito perigoso, neste momento, para os defensores dos direitos humanos. Esse discurso de ódio nos afeta diretamente.

O presidente, chefe de Estado, não se pronunciou a respeito da execução de uma parlamentar, de uma defensora dos direitos humanos, sobre um dos crimes políticos de maior repercussão na história deste país, nem quando questionado. Na campanha eleitoral, todos os presidenciáveis foram questionados e todos responderam, exceto ele.

Após a sua eleição, ele novamente optou pelo silêncio. Isso é um absurdo. O mundo quer saber quem mandou matar e quem matou Marielle Franco, e o presidente, o homem que está no principal cargo de poder neste país, não se pronuncia a respeito desse ato bárbaro. Isso é muito grave. O atentado contra Marielle foi um grave atentado contra a nossa democracia. O presidente precisa se posicionar"

A CPI das Milícias, com a qual Marielle colaborou, havia citado quatro dos 13 acusados pelo Ministério Público. Você acredita que tenha havido lentidão do poder público no enfrentamento das milícias no Rio?

Demorou muito, sim. A política no Brasil e no Rio de Janeiro não é para amadores. Tem que ter muito cuidado e muita expertise. Eu acho que o MP [Ministério Público] demora, sobretudo entendendo o trabalho de CPI das Milícias que o então deputado estadual Marcelo Freixo estava ali fazendo. Foi um trabalho muito sério, muito comprometido. A gente podia já ter esse tipo de movimento antes, porque já havia ferramentas para fazer isso. Não precisava esperar tanto. Mas é isso… Não é todo mundo que tem coragem de fazer um enfrentamento como a CPI das Milícias. E isso tem o seu preço. Marcelo abriu mão da vida pessoal por anos e anda com escolta até hoje. A ameaça é clara. Se ele andar sem segurança, numa esquina do Rio de Janeiro, ele não dura meia hora. A milícia é um dos grupos mais poderosos que há e está relacionada à política, com certeza. Flávio Bolsonaro está aí para mostrar isso.

A deflagração da operação Os Intocáveis, a partir da investigação de milícias do Rio, revelou um elo entre o assassinato de Marielle e pessoas ligadas a Flávio Bolsonaro. Você acha que as duas coisas se relacionam de algum modo?

Eu acho que isso tem que ser provado por meio de investigações, mas fato é que um miliciano tinha familiares alocados no gabinete de Flávio Bolsonaro. Ele é responsável pelo gabinete dele. Pelo menos, quando eu via Marielle legislar enquanto vereadora, ela era responsável pelo gabinete dela. Então, eu entendo que ele também era responsável pelo dele. Por isso, deve saber quais são as pessoas que está contratando. Independentemente de quem faça a triagem ou não, a responsabilidade é dele. É muito grave. Flávio Bolsonaro deve prestar esclarecimentos a respeito desse fato. A milícia é um grupo paramilitar altamente perigoso no Rio de Janeiro. Obviamente, já está mais que comprovado que ele fez a homenagem a esse miliciano [Adriano Nóbrega, que está foragido]. Ele deveria, no mínimo, pedir desculpas à sociedade por ter feito isso.

O que esperar das investigações dos assassinatos de Marielle e Anderson 10 meses depois do crime?

Tem-se que olhar para essa operação com algum otimismo, enquanto carioca. As investigações correm em sigilo, mas sigilo é diferente do silêncio. Foi um silêncio desrespeitoso com os sentimentos. Tudo que vinha, vinha através da mídia, e as autoridades não se colocavam sequer para dizer se era verdade ou não. Então, não havia diálogo. É muito angustiante. O tempo que será levado para fazer isso, eu espero que seja o tempo da verdade. Que seja o tempo que entregue para a gente quem de fato mandou matar e quem matou. Que não seja uma resposta para entregar o inquérito e para silenciar esse movimento que virou a luta por Marielle Franco. Na verdade, justiça por Marielle era, na noite do dia 14 de março, ela ter chegado para jantar. Isso era justiça. Como não foi dessa forma, justiça por Marielle é a gente ter uma sociedade mais justa e igualitária, que era pelo que ela lutava e foi pelo que ela perdeu a vida. Independentemente do tempo, o mínimo que o Estado deve à sociedade e a mim, como viúva de Marielle, é a verdade.

Nesse tempo, como você tem lidado com a ausência da Marielle?

É mais fácil falar de milícias. A ausência de Marielle é sentida todos os dias, desde o momento em que eu abro o olho e vejo que é real. Não tem uma noite que eu não durma tentando acreditar que de fato não tenha sido. Ela faz falta em tudo, né? Era uma companheira, a pessoa com quem eu dividi a vida, dividi os sonhos do futuro. É difícil não ter essa pessoa perto. O que me sobrou foi a luta. A gente vai seguindo. Seguindo com dor, mas seguindo com o que resta.

Você agora traça um novo caminho em Brasília. Quais foram os motivos para a mudança?

Havia uma avaliação de segurança de que era melhor estar longe do Rio por um tempo, mas sinceramente não foi o que me motivou. Eu recebi um convite do PSol para trabalhar na liderança do partido com a pauta de mobilidade e direito à cidade enquanto arquiteta e urbanista, que é o que eu discutia antes da noite de 14 de março. É uma maneira de mudar um pouco o cenário, para ver se a vida pega um pouco do ritmo de continuidade.

Eu não fiz luto, entrei num ritmo de luta muito cedo. Eu nem percebi muito bem quando me tornei uma figura pública, estava muito mais motivada em buscar justiça pela minha companheira do que qualquer outra coisa. Nesses últimos 10 meses, só o que eu fiz foi um movimento de viagens, de agendas. Eu nunca trabalhei tanto na minha vida sem ganhar nada. Foi um momento de descapitalização muito grande. Passei os últimos meses vivendo do pouco que eu tinha e de ajuda de amigos, basicamente. Então, estava difícil. O ano mudou, a avaliação era de que eu tinha que tentar reorganizar a vida, ter uma rotina.