
No Nordeste, Flávio tenta reduzir votação local de Lula ao ligá-lo a Moraes
Em passagem pelo Nordeste, Flávio tenta ocupar espaço político e passa a associar Lula, Moraes e Dino como parte de seu discurso de campanha

A pouco menos de três semanas do primeiro turno das eleições presidenciais, o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) adota, durante a passagem pelo Nordeste, a estratégia de associar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à crise institucional vivida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e ao desgaste na imagem pública do ministro Alexandre de Moraes.
O candidato do PL esteve em Juazeiro do Norte (CE) e, nessa quarta-feira (16/9), passou pelo Recife. Na capital pernambucana, Flávio relacionou Lula aos ministros do STF durante comentário sobre a sessão extraordinária realizada na terça-feira (15/9), que analisou a possibilidade de abertura de investigação contra Moraes por suposta ligação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.
Em discurso, Flávio disse que “os ministros do Lula” teriam sido determinantes para o desfecho. O julgamento terminou sem definição, após pedido de vista do ministro Flávio Dino.
“Não fossem os ministros do Lula, o Supremo Tribunal Federal ainda viveria; a nossa democracia ainda respiraria. A gente vê o desespero, todos eles apostando as suas fichas na reeleição do Lula para que eles fiquem impunes. Esse é o medo do Supremo”, afirmou.
Ainda no Recife, o candidato afirmou que Lula teria uma espécie de dívida com Moraes. “Se o Lula foi declarado presidente da República, ele deve ao Alexandre de Moraes, e é por isso que ele não pode criticar o Alexandre de Moraes. Ontem ele criticou, hoje ele já elogiou, já passou a mão na cabeça do Alexandre de Moraes”, disse. Em seguida, Flávio questionou: “Está devendo, Lula? Está devendo, Lula?”.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesO candidato também incorporou ao discurso as futuras indicações ao STF. Segundo ele, sob um eventual novo governo Lula, seriam nomeados mais ministros com o perfil atribuído a Moraes e Dino.
“Hoje, quem está votando em Lula, está votando em Alexandre de Moraes. Imagina o ‘padrão Lula’ de indicação: mais quatro Alexandre de Moraes no STF ou mais quatro Flávio Dino no STF”, afirmou.
Lula mantém vantagem no Nordeste
A estratégia de desgastar a imagem de Lula ocorre em uma região na qual o petista mantém, historicamente, vantagem expressiva nas pesquisas de intenção de voto.
No Ceará, levantamento da Real Time Big Data divulgado em 8 de setembro aponta Lula com 61% das intenções de voto no primeiro turno, contra 19% de Flávio Bolsonaro. Foram entrevistados 1,6 mil eleitores, entre 3 e 7 de setembro, com margem de erro de dois pontos percentuais.
Em Pernambuco, pesquisa da mesma empresa, divulgada em 15 de setembro, registrou 56% para Lula e 25% para Flávio no primeiro turno. Em um eventual segundo turno, o petista aparece com 59%, contra 36% do candidato do PL. O levantamento ouviu 1,6 mil eleitores entre 10 e 14 de setembro e tem margem de erro de dois pontos percentuais.
O Datafolha também apontou vantagem de Lula em Pernambuco. Na pesquisa realizada entre 8 e 10 de setembro, o presidente tinha 55% das intenções de voto no primeiro turno, contra 24% de Flávio. No segundo turno, o cenário era de 61% a 30%.
Na Bahia, próximo destino na agenda de campanha do senador, pesquisa Real Time Big Data divulgada em 9 de setembro mostrou Lula com 55% e Flávio com 24% no primeiro turno. Em eventual segundo turno, o presidente teria 61%, contra 30% do candidato do PL. Foram ouvidos 1,6 mil eleitores no estado.

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Ver todasO peso do Nordeste em 2022
A disputa pelo eleitorado nordestino remete ao desempenho de Jair Bolsonaro na eleição de 2022. No segundo turno daquele ano, Lula venceu o então presidente em todos os nove estados da região.
Nos estados visitados ou incluídos na atual agenda de Flávio, a diferença também foi registrada. Na Bahia, Lula recebeu 72,12% dos votos válidos no segundo turno, contra 27,88% de Bolsonaro. No Ceará, foram 69,97% para Lula e 30,03% para Bolsonaro. Em Pernambuco, o petista teve 66,93%, enquanto Bolsonaro ficou com 33,07%.
No resultado nacional, Lula terminou o segundo turno de 2022 com 50,9% dos votos válidos, contra 49,1% de Bolsonaro, segundo a totalização oficial do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O histórico ajuda a dimensionar o peso do Nordeste na disputa presidencial. Em 2026, Flávio tenta ocupar o espaço político e, durante a passagem pela região, tem usado a associação entre Lula, Moraes e Dino como parte de seu discurso de campanha.
Lula sobre crise no STF
Lula rebateu as declarações de Flávio nessa quarta-feira (16/9), durante entrevista ao podcast Desce a Letra Show. O presidente afirmou que as críticas do candidato do PL a Moraes estariam relacionadas aos processos que atingiram o ex-presidente Jair Bolsonaro e aliados, e não às suspeitas envolvendo o ministro no Caso Master.
“A raiva dele pelo Alexandre de Moraes é porque o Alexandre de Moraes mandou prender o cara que mandou matar a Marielle. A bronca dele com o Alexandre de Moraes é porque o Alexandre de Moraes prendeu o pai dele e os golpistas que tentaram fazer o 8 de Janeiro. Então, esse é o pavor dele”, declarou.
Lula também rebateu a associação feita por Flávio entre o presidente e a indicação de Moraes para o STF. “Eu não era presidente quando o Alexandre de Moraes foi indicado para a Suprema Corte”, afirmou.
Moraes foi indicado ao STF em 2017 pelo então presidente Michel Temer (MDB). À época, Flávio Bolsonaro era deputado estadual no Rio de Janeiro.
Na terça-feira (15/9), antes da entrevista ao podcast, Lula havia comentado a sessão do STF e defendido que eventuais suspeitas envolvendo ministros da Corte fossem investigadas. “Não há como o povo brasileiro ficar vendo a Suprema Corte perder credibilidade na sociedade. A instância máxima da Justiça brasileira precisa ser exemplo. Ora, então que se apure, se apure com todo o rigor”, afirmou.
Na mesma entrevista, o presidente defendeu a abertura dos sigilos relacionados ao caso. “Abra-se o sigilo de telefone de todo mundo. Aquilo que o André Mendonça tinha guardado como segredo de Estado e só soltando aquilo que interessava a ele, agora pode ser aberto para toda a sociedade saber quem estava metido nisso. Por que o Toffoli não votou? Por que o Kassio não votou?”, questionou.
Lula também defendeu mudanças nos critérios de escolha de magistrados e afirmou que o Judiciário precisava recuperar a confiança da sociedade.



