Na internet, grupo neonazista diz ter influência “militar”. Veja diálogos

Ameaças a feministas, negros e homossexuais aparecem nas conversas de grupo de extrema-direita, mas eles dizem que é tudo brincadeira

atualizado 10/06/2020 11:15

Maos no Celulard3sign/Getty

A aparente possibilidade do anonimato na internet segue terreno fértil para a propagação de discursos de ódio e de propaganda de regimes ditatoriais e genocidas. Em grupos do aplicativo de mensagens mais popular no Brasil, o WhatsApp, a criptografia prometida aumenta essa sensação, mas a reunião de pessoas desconhecidas sempre traz a possibilidade de alguém vazar prints, a exemplo dos que ilustram esta reportagem, expondo como os brasileiros, sobretudo os jovens, são seduzidos por um discurso de segregação, ameaças a minorias e fascismo.

No grupo chamado Ultradireita, criado no fim de maio deste ano, segundo um dos registros, participantes trocam figurinhas de Adolf Hitler, desejam a morte de “todas as feministas”, atacam negros e homossexuais e celebram regimes que deixaram um rastro de morte na história da humanidade. Questionados pela reportagem, alguns deles classificaram as postagens como “brincadeiras” e “liberdade de expressão”.

O discurso agressivo não se encaminha para a prática na maioria dos debates do grupo, mas um dos membros chega a fazer uma ameaça caso seja denunciado pelas postagens e diz que tem “influência militar”. “Se alguém tentar me atingir é o governo que vai derrubar a pessoa que me acusou”, promete ele.

Questionado pela reportagem, o autor dessa e de outras postagens com textos como “não aceitamos negros, homossexuais ou militantes, todos devem morrer”, disse que estava “brincando”.

“Não são coisas a ponto de serem levadas tão a sério. Afinal, fora da internet as pessoas não têm coragem de dizer pessoalmente”, argumentou ele, que disse ter saído do grupo e estar preocupado com “problemas futuros, pois isso iria atrapalhar minha vida em questões de faculdade e emprego”.

O agora ex-membro do grupo, que mora em Minas Gerais, também disse que não se considera um seguidor do nazismo. “Mas me considero um entusiasta da história, tudo que o nazismo construiu na Segunda Guerra (tirando a morte dos judeus), tudo que fez pra conquistar metade da Europa. Eu acho interessante”, disse ele, pelo WhatsApp, sem se identificar.

Veja os prints:

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Os limites da lei
Em alguns casos, a linha entre a liberdade de expressão citada pelos membros do grupo e o cometimento de crimes pode ser tênue, segundo o jurista Acácio Miranda, mestre em direito penal. “O Supremo Tribunal Federal foi instado a se manifestar sobre os limites da liberdade de expressão quando do julgamento da marcha da maconha. E entendeu que há o exercício da liberdade de expressão quando se defende algo sem afetar o direito de ninguém”, explica ele.

“Em resumo, a liberdade de expressão vai até adentrar no direito de outra pessoa. Ofender alguém é crime. Ofender uma etnia é crime”, complementa o especialista, segundo o qual grupos de WhatsApp formados por pessoas que não se conhecem são considerados de caráter aberto pela Justiça, que pode usar conversas registradas ali como provas.

“Direito de ser nazista”
Um dos membros do grupo, que não aparece nas conversas registradas nos prints, mas cujo telefone estava entre os membros, também respondeu aos questionamentos do Metrópoles.

Perguntando sobre o teor das postagens, ele, que se apresenta como diácono da Igreja Católica nas redes sociais e tem telefone do Espírito Santo, argumentou que “pelo menos não estão mostrando peitos em público, não estão ensinando as crianças a passar a mão em homens, não estão mostrando o cu e etc”. Ao final, disse que “eles têm todo o direito de serem nazistas. Vivemos num país livre”.

Morador de São Paulo, o criador do grupo também falou com a reportagem e disse que havia expulsado todos os neonazistas do grupo, garantindo não aceitar o comportamento.

Ele mesmo, porém, festejou o ditador fascista italiano Benito Mussolini nas postagens e se justificou assim: “Tenho ascendência italiana, e meus ascendentes fizeram parte do governo de Mussolini, então é um compromisso”.

A mesma pessoa fez uma postagem com uma piada sobre a morte da ex-vereadora Marielle Franco, um símbolo que é constante alvo de extremistas da direita. “Lá [no grupo], tem muito humor negro, inclusive isso foi encaminhado para mim, de um modo muito realista, é, sim, algo pesado, até errado, porém é a nossa forma de atingir esse pessoal”, disse ele sobre a postagem.

Por fim, o internauta reafirmou que o grupo agora não é mais focado em fascismo e nazismo. “Lá, apoiamos a extrema-direita, o progressismo bélico, direito à herança sem tributação, contra o comunismo, neomarxismo…”, enumerou ele.

E o WhatsApp?
A reportagem questionou a empresa de mensagens, que pertence ao Facebook, sobre políticas para evitar a propagação do discurso de ódio na plataforma, mas não recebeu resposta até o fechamento desta edição.

Como houve a citação às Forças Armadas, o Ministério da Defesa também foi consultado. Por nota, o órgão afirmou que “não apoia ou reconhece qualquer manifestação contrária aos princípios constitucionais. O compromisso de todos os militares das Forças Armadas brasileiras é com a Defesa da Pátria, com a garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa destes, com a lei e com a ordem”.

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