Em tempos de fake news e de ataques à imprensa, a morte de Ricardo Boechat provocou reações favoráveis ao exercício do jornalismo profissional e independente. Mesmo autoridades criticadas com veemência pelo âncora da Band saíram a público para exaltar suas qualidades e seu carisma.

Um dos que enalteceram Boechat foi o vice-presidente da República, Hamilton Mourão. “É uma perda muito grande para o nosso jornalismo. E acredito que, para vocês que são mais jovens, ele deixa algumas referências”, destacou o general aos repórteres em entrevista nessa segunda-feira (11/2).

Curiosamente, no passado, Mourão foi vítima da acidez dos comentários do jornalista. A passagem mais rumorosa foi em 2017, quando o general, ainda na ativa, tornou-se conhecido por defender uma intervenção militar se as instituições não tirassem da vida pública políticos envolvidos com corrupção.

Em reação ao posicionamento de Mourão, Boechat usou seu tempo na Band News para expor o que pensava da ditadura e da presença de integrantes das Forças Armadas no governo. “Toda vez que militares, em qualquer lugar do mundo, se meteram em política, o que resultou foram ditaduras com todos seus malefícios. Que esse general caminhe em direção ao ostracismo. Pare de encher o saco, excelência”, concluiu o jornalista.

Agora na cadeira de vice-presidente, longe do ostracismo, Mourão tomou o caminho da pacificação. Sem querelas com o antigo crítico, preferiu enaltecer o trabalho de Boechat.

O prestígio do âncora da Band ficou demonstrado com a reação do vereador Carlos Bolsonaro (PSL), do Rio de Janeiro. “Boechat era um grande profissional, referência no jornalismo, capaz de conquistar o respeito tanto dos que convergiam quanto dos que divergiam de suas ideias e opiniões. Que seja sempre lembrado por isso”, escreveu no Twitter o filho do presidente Jair Bolsonaro (PSL), conhecido por usar as redes sociais para brigar com a imprensa.

Se, entre os governistas, o âncora da Band foi tratado com deferência e respeito, o mesmo pode-se dizer em relação à oposição – mais um sinal de que o profissionalismo do jornalista se impunha, apesar do estilo cáustico de apresentar as notícias. O senador Humberto Costa (PT-PE) também destacou as qualidades de Boechat: “É uma perda horrível para o Brasil de um jornalista de incontáveis virtudes”.

A valorização da profissão também foi destacada pelo presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), José Otávio de Noronha. “Ao longo de quase 50 anos de carreira, o jornalista Ricardo Boechat construiu uma história marcada pelo profissionalismo, pela imparcialidade e pelo cultivo dos valores mais caros ao jornalismo, como a ética e o combate à corrupção”, afirmou o magistrado.

O ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), divulgou nota com manifestação de pesar pela morte de Boechat. “Profissional que marcou a sua carreira pelo exercício do jornalismo sério e independente”, diz trecho do comunicado.

Na opinião do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), o jornalista fazia “sempre uma análise muito bem feita, muito dura, mas muito democrática em relação às notícias do nosso país”.

A profusão de aplausos se explica, em parte, pela solidariedade das autoridades em relação ao triste fim do jornalista. Mas, as repetidas referências aos seus atributos profissionais revelam, mais do que as condolências pela morte de Boechat, a importância do jornalismo de qualidade para o Brasil nos dias de hoje.