Salles usa foto antiga para ligar Greenpeace a óleo na praia

Ministro do Meio Ambiente diz que navio da ONG estava em frente à costa brasileira no período do derramamento, mas não dá detalhes

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atualizado 24/10/2019 16:20

Em meio a um embate direto com o Greenpeace, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, sugeriu, pelo Twitter, que a ONG internacional possa ter ligação com o derramamento de óleo na costa nordestina. O post é acompanhado por uma imagem do navio da organização, o Esperanza.

“Tem umas coincidências na vida né… Parece que o navio do #greenpixe estava justamente navegando em águas internacionais, em frente ao litoral brasileiro bem na época do derramamento de óleo venezuelano…”, escreveu ele, com a hashtag que ironiza a ONG.

O ministro não informou, contudo, qual a origem da imagem, quem fez a captura nem o horário ou data do registro. Ainda que a foto seja meramente ilustrativa, ele também não diz quem identificou a presença do navio, em que dia e em que localidade.

O Metrópoles entrou em contato com o Ministério do Meio Ambiente (MMA) para solicitar mais informações sobre a foto, se ela seria ilustrativa ou não, e para saber se há mais detalhes a respeito da identificação do navio próximo à costa brasileira. Em sua resposta, a assessoria de imprensa da pasta indicou que a reportagem procurasse o próprio Greenpeace para saber.

Ocorre que o autor do post é o ministro e não o Greenpeace. Logo, a responsabilidade por esses esclarecimentos, seguindo o princípio da autoria, é do ministério. Ao ser questionado sobre a origem da suposição, a assessoria não se posicionou. O espaço continua aberto.

O Google Imagens retorna uma série de resultados com a mesma foto postada por Salles em outras ocasiões. Ela foi utilizada, por exemplo, em um artigo de 2018 do próprio Greenpeace da Espanha. No site do Greenpeace espanhol, a foto apareceu em 2017. Uma busca no Yandex, outro site de busca de imagens, também traz como resultado um artigo de 2016 com a mesma foto usada pelo ministro.

A reportagem procurou a ONG e eles classificaram, em nota, a insinuação como “uma mentira para criar uma cortina de fumaça na tentativa de esconder a incapacidade de Salles em lidar com a situação”. Segundo a assessoria, a foto é antiga e o navio está, hoje, em Montevidéu (Uruguai), como parte da campanha internacional “Proteja os Oceanos”, que vai do Ártico até a Antártida, onde chegará no primeiro semestre de 2020. Ainda de acordo com eles, a embarcação estava na Guiana Francesa entre agosto, quando começou o vazamento, e setembro.

Na segunda-feira (21/10/2019), Salles usou, também no Twitter, um vídeo editado do Greenpeace acusando a ONG de se recusar a ajudar a limpar as manchas do nordeste. Na versão completa, que tem 3 minutos, o representante da organização diz que tem voluntários atuando e faz pontuações acerca de desastres com óleo.

O ministro já declarou, inclusive em rede nacional, que testes comprovaram que o petróleo é de origem venezuelana. Ele afirmou ainda que o presidente Jair Bolsonaro (PSL) encaminhará solicitação formal à Organização dos Estados Americanos (OEA) para cobrar um posicionamento da Venezuela.

Em meio à confusão entre o ministro e ambientalistas, na última quarta-feira (23/10/2019), ativistas derramaram um líquido semelhante a óleo em frente ao Palácio do Planalto, em Brasília (DF). 17 deles acabaram presos e foram chamados por Salles de “ecoterroristas“: “Não bastasse não ajudar na limpeza do petróleo venezuelano nas praias do Nordeste, os ecoterroristas ainda depredam patrimônio público“. No Twitter, usuários subiram a hashtag #GreenpeaceEcoTerroristas para criticar a ONG.

O Greenpeace organiza, em seu site, um abaixo-assinado pedindo que “parem a destruição ambiental”. Citando as queimadas na Amazônia e o derramamento, a ONG diz que o episódio, “é apenas mais um dos resultados do desmonte das políticas e órgãos de proteção ambiental do Brasil que vem sendo empreendido pelo atual governo”.

Confira a nota do Greenpeace na íntegra:

Enquanto o óleo continua atingindo as praias do Nordeste, o ministro Ricardo Salles nos ataca insinuando que seríamos os responsáveis por tal desastre ecológico. Trata-se, mais uma vez, de uma mentira para criar uma cortina de fumaça na tentativa de esconder a incapacidade de Salles em lidar com a situação. É bom lembrar que isso vem de alguém conhecido por mentir que estudava em Yale e ser condenado na Justiça por fraude ambiental.

O nosso navio Esperanza faz parte de uma campanha internacional chamada “Proteja os Oceanos”, que saiu do Ártico e vai até a Antártida ao longo de um ano, denunciando as ameaças aos mares. Ele passou pela Guiana Francesa, entre agosto e setembro, onde realizou uma expedição de documentação e pesquisa do recife conhecido como Corais da Amazônia, com o propósito de lutar pela proteção dos oceanos e contra a exploração de petróleo em locais sensíveis para a biodiversidade marinha. No momento, o navio está atracado em Montevidéu, no Uruguai.

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