Mega-Sena faz a felicidade de petistas em tempos de Bolsonaro

Grupo que acertou as seis dezenas com um bolão de 49 cotas ainda não sabe como vai investir o prêmio de mais de R$ 120 milhões

Marcelo Camargo/Agência BrasilMarcelo Camargo/Agência Brasil

atualizado 20/09/2019 7:39

Imagine a cena: há anos você faz aquela fezinha com os amigos em “bolões” para faturar o prêmio da Mega-Sena, a mais cobiçada loteria do país. Em todo jogo, o mesmo resultado: nada de acertar as seis dezenas mágicas. Mas eis que um dia você sai de casa para mais uma rotina no trabalho. E, ao fim deste dia, você nem sabe se volta para casa. Afinal, acabou de saber que faz parte de um grupo que pôs as mãos em mais de R$ 120 milhões, sendo que receberá, no mínimo, R$ 2,4 milhões depois de dividida a bolada.

Para completar, o grupo trabalha na liderança do PT na Câmara, que, em tempos de Bolsonaro, andava com a moral meio para baixo. A cena, apenas imaginável para muitos, tornou-se realidade para poucos nessa quarta-feira (18/09/2019). E trouxe, a reboque, várias histórias que serão contadas por muito tempo.

Um dos ganhadores do prêmio, que pediu para não ter o nome divulgado, garantiu: não conseguirá ficar sem trabalhar, uma vez que — ele pondera — não é um valor que permita uma “aposentadoria precoce”.

O auxiliar adjunto de gabinete, que ganhou cerca de R$ 2,5 milhões, disse ao Metrópoles que ainda não teve coragem de contar a novidade para a mãe, lavadeira de roupas em Correntina, no interior da Bahia.

“Eu ainda não contei para ela. Sou um dos 49 ganhadores e ainda estou tomando pé do que aconteceu. Primeiro veio a euforia. Agora, é hora de baixar a bola e ver o que fazer, com calma”, comentou.

“Sou retirante nordestino e não sei ficar sem trabalhar. É um dinheiro que não é tão alto assim, mas com certeza trará mais conforto para minha família”, completou o funcionário, cujo salário fica em torno de R$ 4 mil.

“São R$ 2 milhões. Não dá para viver o resto da vida. É hora de manter o pé no chão”, afirmou outro vencedor, que também pediu para não ser identificado. Ele afirmou que está muito feliz e que vai pensar ainda como investir a bolada.

Grupo antigo
O grupo vencedor do bolão não foi formado nesta aposta. Nos últimos dez anos, sempre que havia uma aposta acumulada, eles jogavam. Em outros momentos, acertaram a quadra e a quina.

Os apostadores, contou outra vencedora, iniciaram uma discussão de como ajudar aqueles jogadores que sempre participavam dos bolões, mas, por algum problema específico, não jogaram neste, que levou os R$ 120 milhões. “Vamos ver como podemos ajudar. São todos amigos”, afirmou a assessora que atua na sala da Assessoria Técnica que fica no Anexo II.

De fato, a informação foi confirmada pelo deputado Paulo Teixeira (PT-SP). “Os assessores do PT que ganharam a Mega-Sena vão compartilhar o prêmio com quatro copeiras que costumavam participar, mas que não o fizeram esta semana”, disse o parlamentar nessa quinta-feira.

Um dos novos milionários do país, que também pede o anonimato, confidenciou que é um jogador assíduo há 30 anos. Para ele, a frequência dos jogos colaborou na conquista. “Pessoas que me conhecem sabem que sou jogador. Só ganha quem joga. Eu sabia que em algum momento ia ganhar. Vinha acertando de 3 a 4 números”, contou.

Ainda segundo o ganhador, ele estava distraído no momento do sorteio e só ficou sabendo do resultado após ser surpreendido pelos colegas, que começaram a mandar mensagens. “Meu time estava jogando ontem, estava mais preocupado com jogo do que resultado [da Mega-Sena]”, disse.

Apesar de esperar por esse prêmio há três décadas, o assessor ainda não decidiu completamente a grande questão: o que fazer com o dinheiro? Ele pensa em liquidar dívidas, ajudar em projetos sociais e comprar presentes para a família.

Ganho socialista
Pelo rateio, cada um dos cotistas receberá R$ 2,5 milhões. Um motorista do partido teria adquirido seis cotas, o que significa que vai embolsar, sozinho, R$ 15 milhões. “Quando a gente ganha, a gente ganha de forma socialista, 49 cotas!”, disse um dos coordenadores da liderança do PT, Marcus Braga, que participou do bolão com uma cota de R$ 10.

“Já estava encaminhando a papelada para a aposentadoria, são 38 anos de INSS, comecei a trabalhar aos 16 anos, então dá uma tranquilizada”, afirmou Braga, de 61 anos, que momentos depois de saber que é um homem rico foi para o departamento médico da Casa medir a pressão arterial.

O líder do PT, deputado Paulo Pimenta (RS), afirmou que, até o momento, não recebeu nenhum pedido de exoneração. Ainda segundo o parlamentar, não houve nenhum tipo de festa para comemorar o resultado.

E quem não ganhou…
Mas se há os que festejam o fato de serem milionários, há aqueles que têm que se conformar em não fazer parte dessa nova confraria. Por motivos distintos, não participaram do bolão que mudou a vida dos companheiros.

“Bom não está. Acho que eu merecia até um dia de folga”, afirmou uma funcionária da assessoria técnica do partido que pediu para não ser identificada.

“Que alegria virou a liderança do PT. Você chega lá e ninguém olha na sua cara”, afirmou o deputado Paulo Teixeira ao relatar o desânimo de alguns servidores que apareceram para trabalhar.

Assessor do PT na Câmara, Marcelo Didonet chegou a ser convidado para o bolão, mas acabou optando por apostar em um outro jogo, também organizado pelos servidores. Questionado se ficou triste, negou: “Se eu jogasse sempre, talvez. Mas não faço muitas apostas. Eu fiquei feliz por eles, como se fosse eu”, contou. Didonet se considera uma pessoa cética em relação à loteria. “A gente sempre acha que é melhor gastar o dinheiro com alguma outra coisa”, afirmou.

De olho na vaga
Didonet disse ainda que os colegas vencedores estão cumprindo o expediente, mas que já tem gente de olho na vaga deles. “Recebi duas ligações pela manhã de gente oferecendo currículo”, assegurou. Nesta manhã, uma ex-funcionária comissionada na Câmara entrou na liderança para deixar currículo. “Ninguém mais vai querer trabalhar aqui. Estou sem emprego. Vou deixar meu currículo”, disse, com o documento na mão.

Ao lado dos funcionários exultantes de alegria, há aqueles que revelam o aborrecimento, embora recorram geralmente ao bom humor. “Para reunião chata, me chamam. Para ganhar dinheiro, não”, brincou um deles.

Azarões
Houve ainda os azarões. Um dos assessores de imprensa revelou que chegaram a oferecer o bolão, mas como nunca joga, não participou. Outro funcionário revelou sempre participar, mas, desta vez, estava ausente da liderança participando de uma cobertura e ficou de fora.

A curiosidade chegou ao gabinete da liderança do partido no Senado, que também não parou de receber ligações de pessoas à procura de vencedores. Uma funcionária que não ganhou usou as redes para desabafar: “Não ganhei o prêmio. Me amem pelo que sou”, escreveu. (Com informações do G1, Folha de S.Paulo e O Globo)

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