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Brasil

Novas regras da EaD podem colocar expansão do ensino superior à prova

Nova regulamentação pretende elevar qualidade do ensino, mas especialistas alertam que exigências podem dificultar acesso ao ensino superior

Madu Toledo12/06/2026 13:13, atualizado 12/06/2026 14:32
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Otávio Brito/Metrópoles
Imagem ilustrativa sobre ensino à distância mostra uma silhueta feminina e uma cadeira vazia

A expansão acelerada do ensino a distância e os questionamentos sobre qualidade, acompanhamento pedagógico e taxas de evasão levaram o governo federal a reformular as regras da modalidade. Em maio de 2025, foi publicado o Decreto nº 12.456, que instituiu a Nova Política de Educação a Distância (EaD).

Entre os fatores que motivaram a reformulação das regras, está a elevada taxa de evasão registrada na modalidade. Segundo o Ministério da Educação (MEC), a nova regulamentação busca ampliar a interação entre estudantes e instituições, além de fortalecer os mecanismos de acompanhamento acadêmico.

Apesar de ser visto como um avanço na regulação do setor, críticos apontam que parte das exigências do decreto pode dificultar o acesso ao ensino superior em municípios sem oferta presencial e reduzir a capacidade de expansão e consolidação do EaD, especialmente entre instituições públicas.

Segundo o Censo da Educação Superior 2024, cerca de 43,1 milhões de brasileiros — o equivalente a 20,3% da população do país — só conseguem acessar uma graduação graças à oferta de cursos na modalidade.

Em 2,3 mil municípios brasileiros, o ensino superior chega apenas por meio da internet e pela tela de um computador.

Nesta sexta-feira (12/6), o Metrópoles publica uma série de reportagens sobre a expansão do ensino superior para o interior do Brasil por meio da educação a distância. As matérias acompanham histórias de estudantes de cidades sem oferta de cursos presenciais, analisam dados de acesso e evasão e discutem os desafios da modalidade para transformar matrículas em diplomas.

Leia também as outras reportagens:

O marco regulatório tenta “corrigir distorções”, como a expansão sem qualidade e as altas taxas de evasão, promovendo um acompanhamento mais efetivo dos alunos.

Infográfico com os principais pontos do novo marco regulatório da EaD

De acordo com o MEC, as mudanças foram construídas a partir da análise de indicadores do Censo da Educação Superior, consultas públicas, reuniões técnicas e diálogos com especialistas, entidades e instituições públicas e privadas, com o objetivo de qualificar a oferta da modalidade sem comprometer seu papel na ampliação do acesso ao ensino superior no país.

“O objetivo é garantir mais qualidade na oferta da EaD, uma modalidade estratégica para a ampliação do acesso à educação superior em um país como o Brasil”, informou a pasta ao Metrópoles. O governo também sustenta que a modalidade não foi enfraquecida.
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Nova Política de Educação a Distância (EaD) foi assinada por Lula em maio de 2025
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Nova Política de Educação a Distância (EaD) foi assinada por Lula em maio de 2025

Luís Fortes/ MEC
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Luís Fortes/ MEC
Novas regras da EaD podem colocar expansão do ensino superior à prova - imagem 3
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Ricardo Stuckert

Embora reconheçam avanços na nova regulamentação, os especialistas ouvidos pela reportagem avaliam que ainda existem pontos de incerteza, sobretudo em regiões onde a oferta de ensino superior presencial é limitada ou inexistente.

A professora da UnB e pesquisadora da educação a distância Andréia Mello Lacé explica que a norma amplia as exigências de presencialidade em determinados cursos, mas não avança sobre onde e como as universidades públicas podem encontrar finaciamento para cumprir com essas novas obrigações.

“A gente pode pensar que, tendencialmente, as universidades públicas podem sair da oferta da educação a distância nas licenciaturas nesse novo modelo, prevendo a semipresencialidade”, avalia.

O professor da UnB e pesquisador de políticas públicas da educação Bernardo Kipnis considera positiva a tentativa de conter a expansão desordenada da modalidade, mas alerta para possíveis efeitos colaterais.

Na avaliação do pesquisador, o principal desafio está na implementação das mudanças em municípios que dependem exclusivamente do EaD para acessar o ensino superior.

“Seria necessário um planejamento para essas mudanças, que estivesse atento aos municípios com baixa infraestrutura e viabilizasse soluções mais criativas durante a transição”, pondera.
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A viagem de barco até o polo EaD para a realização de provas durava cerca de 6 horas, ida e volta, entre a RDS do Uatumã e a comunidade de São Thomé, no Amazonas
Sem internet em casa, Adilson estudava no colégio da comunidade ou na casa da irmã
Adilson foi o único de sete colegas da RDS do Uatumã, selecionados pelo projeto da Fundação Amazônia Sustentável (FAS) em parceria com a Universidade Nilton Lins, a concluir o curso de Gestão em Turismo na modalidade EaD
Primeiro da família a concluir o ensino superior, hoje Adilson é concursado pela Prefeitura de Presidente Figueiredo no cargo de técnico em endemias
Adilson Guerreiro, ribeirinho de 33 anos, mora na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Uatumã, no Amazonas, com a esposa e mais três filhos
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Adilson Guerreiro, ribeirinho de 33 anos, mora na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Uatumã, no Amazonas, com a esposa e mais três filhos

Arquivo pessoal
A viagem de barco até o polo EaD para a realização de provas durava cerca de 6 horas, ida e volta, entre a RDS do Uatumã e a comunidade de São Thomé, no Amazonas
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A viagem de barco até o polo EaD para a realização de provas durava cerca de 6 horas, ida e volta, entre a RDS do Uatumã e a comunidade de São Thomé, no Amazonas

Arquivo pessoal
Sem internet em casa, Adilson estudava no colégio da comunidade ou na casa da irmã
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Sem internet em casa, Adilson estudava no colégio da comunidade ou na casa da irmã

Material cedido ao Metrópoles
Adilson foi o único de sete colegas da RDS do Uatumã, selecionados pelo projeto da Fundação Amazônia Sustentável (FAS) em parceria com a Universidade Nilton Lins, a concluir o curso de Gestão em Turismo na modalidade EaD
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Adilson foi o único de sete colegas da RDS do Uatumã, selecionados pelo projeto da Fundação Amazônia Sustentável (FAS) em parceria com a Universidade Nilton Lins, a concluir o curso de Gestão em Turismo na modalidade EaD

Material cedido ao Metrópoles
Primeiro da família a concluir o ensino superior, hoje Adilson é concursado pela Prefeitura de Presidente Figueiredo no cargo de técnico em endemias
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Primeiro da família a concluir o ensino superior, hoje Adilson é concursado pela Prefeitura de Presidente Figueiredo no cargo de técnico em endemias

Material cedido ao Metrópoles

A preocupação também é compartilhada pelo setor privado. Diretor-presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), Janguiê Diniz destaca que o aperfeiçoamento regulatório é necessário, mas alerta para o risco de que restrições excessivas reduzam a oferta justamente em regiões mais dependentes da modalidade.

“É inquestionável a importância de aperfeiçoar o marco regulatório da EaD, especialmente no que diz respeito à garantia de qualidade. Contudo, o poder público precisa estar alerta para o risco de que restrições excessivas ou desconectadas da realidade do país comprometam a expansão do acesso, sobretudo em regiões onde a oferta presencial é limitada ou inexistente”, afirma Diniz.

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O município de Tabatinga, que faz fronteira direta com a Colômbia e o Peru, é banhado pelo Rio Solimões e cortado por igarapés como o São Jerônimo e o Tacana
Em 2022, perto de Jaciana completar a faculdade de Nutrição na modalidade EaD, a filha dela, Luna Gabriely, foi diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA) nível dois de suporte
A rotina de mãe atípica e principal cuidadora exigia adaptações constantes na rotina de estudos. Ela relata ter enfrentado crises de saúde mental e considerado abandonar o curso
Para Jaciana, concluir a faculdade de Nutrição significava  alcançar a liberdade financeira e voltar a acreditar em si mesma
Logo após concluir a graduação em Nutrição, ela foi aprovada em segundo lugar no concurso público da Secretaria Municipal de Educação (SEMED) do município
Jaciana Saraiva, de 35 anos, é moradora de Tabatinga, no extremo oeste do Amazonas. Ela conta que chegar à capital Manaus de barco pelo Rio Solimões leva pelo menos sete dias
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Jaciana Saraiva, de 35 anos, é moradora de Tabatinga, no extremo oeste do Amazonas. Ela conta que chegar à capital Manaus de barco pelo Rio Solimões leva pelo menos sete dias

Arquivo pessoal
O município de Tabatinga, que faz fronteira direta com a Colômbia e o Peru, é banhado pelo Rio Solimões e cortado por igarapés como o São Jerônimo e o Tacana
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O município de Tabatinga, que faz fronteira direta com a Colômbia e o Peru, é banhado pelo Rio Solimões e cortado por igarapés como o São Jerônimo e o Tacana

Arquivo pessoal
Em 2022, perto de Jaciana completar a faculdade de Nutrição na modalidade EaD, a filha dela, Luna Gabriely, foi diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA) nível dois de suporte
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Em 2022, perto de Jaciana completar a faculdade de Nutrição na modalidade EaD, a filha dela, Luna Gabriely, foi diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA) nível dois de suporte

Arquivo pessoal
A rotina de mãe atípica e principal cuidadora exigia adaptações constantes na rotina de estudos. Ela relata ter enfrentado crises de saúde mental e considerado abandonar o curso
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Para Jaciana, concluir a faculdade de Nutrição significava  alcançar a liberdade financeira e voltar a acreditar em si mesma
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Arquivo pessoal
Logo após concluir a graduação em Nutrição, ela foi aprovada em segundo lugar no concurso público da Secretaria Municipal de Educação (SEMED) do município
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Logo após concluir a graduação em Nutrição, ela foi aprovada em segundo lugar no concurso público da Secretaria Municipal de Educação (SEMED) do município

Arquivo pessoal
Hoje, nutricionista escolar concursada, ela trabalha na coordenação da alimentação escolar, atuando diretamente no Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE)
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Hoje, nutricionista escolar concursada, ela trabalha na coordenação da alimentação escolar, atuando diretamente no Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE)

Arquivo pessoal
Jaciana realizando avaliação nutriconal de alunos da comunidade indígena Belém do Solimões, localizada às margens do Rio Solimões, na Terra Indígena Eware, em Tabatinga (AM)
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Jaciana realizando avaliação nutriconal de alunos da comunidade indígena Belém do Solimões, localizada às margens do Rio Solimões, na Terra Indígena Eware, em Tabatinga (AM)

Arquivo pessoal
Jaciana durante entrega de alimentação escolar na comunidade indígena de Tauarú, na zona rural de Tabatinga e às margens do Rio Solimões
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Jaciana durante entrega de alimentação escolar na comunidade indígena de Tauarú, na zona rural de Tabatinga e às margens do Rio Solimões

Arquivo pessoal
Jaciana e equipe da prefeitura na comunidade indígena Bananal para educação alimentar e nutricional nas escolas
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Jaciana e equipe da prefeitura na comunidade indígena Bananal para educação alimentar e nutricional nas escolas

Arquivo pessoal
Jaciana na Escola Municipal Indígena Mutchicutu, na comunidade indígena Nova Jordânia, para entrega de alimentação escolar. "Estava na temporada da seca aqui na região. Os desafios da nutrição escolar: atolei o pé atravessando um lago que estava seco para chegar na comunidade", relembra
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Jaciana na Escola Municipal Indígena Mutchicutu, na comunidade indígena Nova Jordânia, para entrega de alimentação escolar. "Estava na temporada da seca aqui na região. Os desafios da nutrição escolar: atolei o pé atravessando um lago que estava seco para chegar na comunidade", relembra

Arquivo pessoal

Para os especialistas, a transição, prevista até 2027, não será apenas pedagógica. Ela exigirá adaptações logísticas, financeiras e territoriais por parte das instituições.

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