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“Sem EaD, eu não teria feito faculdade”, diz mãe atípica do Amazonas

Moradora de Tabatinga (AM), no extremo oeste do Brasil, encontrou na EaD a chance de concluir o ensino superior e conquistar a independência

Madu Toledo12/06/2026 13:35, atualizado 12/06/2026 14:39
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Otávio Brito/Metrópoles
Ilustração sobre foto de Jaciana Saraiva, moradora do interior do Amazonas que se formou em Nutrição via EaD

A possibilidade de cursar uma graduação sem sair de Tabatinga (AM) foi decisiva para que Jaciana Saraiva, de 35 anos, concluísse o ensino superior. O município fica no extremo oeste do Amazonas, na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia.

“Sem o EaD, não teria feito a faculdade. Sair do interior e ir para Manaus estudar é difícil. O custo de vida é caro. O curso é caro. O preço da passagem de avião é bastante caro. Viajar de barco de Manaus para Tabatinga é cansativo, são sete dias subindo o rio Solimões. Ficaria inviável”, afirma.

Antes de ingressar no curso de Nutrição na modalidade EaD, ela tentou cursar ciências biológicas, pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), e administração, pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), mas abandonou ambas as faculdades.

No caso da Ufam, a dificuldade era logística. O curso, em período integral, exigia deslocamentos frequentes até Benjamin Constant, município vizinho, acessado por uma viagem de cerca de 30 minutos de voadeira — embarcação de alumínio com motor de popa, comum no transporte e na pesca na Amazônia.

Com uma filha pequena, de apenas 2 anos na época, e dependente de cuidados constantes, Jaciana relata que a rotina era “insustentável”. “Deixava ela com a minha sogra para poder ir estudar, mas, às vezes, tinha uma emergência e precisava voltar para cuidar dela. Sem contar que às vezes tinha aula de manhã e de tarde”, lembra.

Dados do Censo da Educação Superior de 2024 apontam que 43,1 milhões de pessoas, cerca 20,3% da população do país, só podem ter acesso a um diploma de graduação devido ao ensino a distância.

Em 2,3 mil municípios brasileiros, o ensino superior chega apenas por meio da internet e pela tela de um computador

Nesta sexta-feira (12/6), o Metrópoles publica uma série de reportagens sobre a expansão do ensino superior para o interior do Brasil por meio da educação a distância. As reportagens acompanham histórias de estudantes de cidades sem oferta de cursos presenciais, analisam dados de acesso e evasão e discutem os desafios da modalidade para transformar matrículas em diplomas.

Leia também as outras reportagens:

A chegada do curso de nutrição a distância no município de Tabatinga, em 2019, inaugurou uma oportunidade inédita. Até então, segundo Jaciana, não havia oferta local de graduações na área da saúde, apenas licenciaturas oferecidas por instituições públicas.

A Região Norte, de acordo com a 15ª edição do Mapa do Ensino Superior no Brasil, tem o menor número de Instituições de Ensino Superior (IES) do país, com um total de 196 instituições. Em 2023, 51% dos estudantes de ensino superior nortistas estavam matriculados em cursos EaD, o equivalente a 432,4 mil alunos.

Mais barato e acessível, o curso a distância permitiu que Jaciana continuasse os estudos sem precisar deixar a cidade ou reorganizar completamente a rotina de cuidados com a filha.

“Os dias que eu não ia para o polo, estudava à noite. A rotina de dona de casa não me permitia estudar durante o dia. E a noite é quando tudo está silencioso, então me concentrava melhor nos estudos”, relembra Jaciana. “O EaD não é mais fácil, de jeito nenhum. O esforço é o mesmo, porque a gente tem que se esforçar para estudar, para dar conta dos assuntos, das matérias. Depende sempre da gente.”

A jornada, entretanto, não foi linear. O momento mais crítico ocorreu em 2022, quando, em período próximo à conclusão da faculdade, a filha de Jaciana, Luna Gabriely, hoje com 10 anos, foi diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA) nível dois de suporte. O período marcou o início de uma intensa sobrecarga emocional.

A rotina de mãe atípica e principal cuidadora exigia adaptações constantes. Além dos desafios relacionados à maternidade, Jaciana enfrentava uma relação conjugal conturbada. Embora o então marido custeasse as mensalidades da graduação, ela afirma que o apoio financeiro era frequentemente utilizado como instrumento de cobrança e controle.

“Foi como ter caído dentro de um buraco sem fim. Vieram muitos julgamentos, inclusive de algumas pessoas da minha convivência. Literalmente surtei. Foi quando o mundo veio abaixo”, afirma. “Pensei em desistir do nível superior de vez. Não estava dando conta.”

Ela relata ter enfrentado crises de saúde mental. Posteriormente, foi diagnosticada com transtorno de ansiedade generalizada, depressão, síndrome do pânico e transtorno de personalidade borderline.

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O município de Tabatinga, que faz fronteira direta com a Colômbia e o Peru, é banhado pelo Rio Solimões e cortado por igarapés como o São Jerônimo e o Tacana
Em 2022, perto de Jaciana completar a faculdade de Nutrição na modalidade EaD, a filha dela, Luna Gabriely, foi diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA) nível dois de suporte
A rotina de mãe atípica e principal cuidadora exigia adaptações constantes na rotina de estudos. Ela relata ter enfrentado crises de saúde mental e considerado abandonar o curso
Para Jaciana, concluir a faculdade de Nutrição significava  alcançar a liberdade financeira e voltar a acreditar em si mesma
Logo após concluir a graduação em Nutrição, ela foi aprovada em segundo lugar no concurso público da Secretaria Municipal de Educação (SEMED) do município
Jaciana Saraiva, de 35 anos, é moradora de Tabatinga, no extremo oeste do Amazonas. Ela conta que chegar à capital Manaus de barco pelo Rio Solimões leva pelo menos sete dias
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Jaciana Saraiva, de 35 anos, é moradora de Tabatinga, no extremo oeste do Amazonas. Ela conta que chegar à capital Manaus de barco pelo Rio Solimões leva pelo menos sete dias

Arquivo pessoal
O município de Tabatinga, que faz fronteira direta com a Colômbia e o Peru, é banhado pelo Rio Solimões e cortado por igarapés como o São Jerônimo e o Tacana
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O município de Tabatinga, que faz fronteira direta com a Colômbia e o Peru, é banhado pelo Rio Solimões e cortado por igarapés como o São Jerônimo e o Tacana

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Em 2022, perto de Jaciana completar a faculdade de Nutrição na modalidade EaD, a filha dela, Luna Gabriely, foi diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA) nível dois de suporte
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Em 2022, perto de Jaciana completar a faculdade de Nutrição na modalidade EaD, a filha dela, Luna Gabriely, foi diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA) nível dois de suporte

Arquivo pessoal
A rotina de mãe atípica e principal cuidadora exigia adaptações constantes na rotina de estudos. Ela relata ter enfrentado crises de saúde mental e considerado abandonar o curso
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A rotina de mãe atípica e principal cuidadora exigia adaptações constantes na rotina de estudos. Ela relata ter enfrentado crises de saúde mental e considerado abandonar o curso

Para Jaciana, concluir a faculdade de Nutrição significava  alcançar a liberdade financeira e voltar a acreditar em si mesma
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Para Jaciana, concluir a faculdade de Nutrição significava alcançar a liberdade financeira e voltar a acreditar em si mesma

Arquivo pessoal
Logo após concluir a graduação em Nutrição, ela foi aprovada em segundo lugar no concurso público da Secretaria Municipal de Educação (SEMED) do município
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Logo após concluir a graduação em Nutrição, ela foi aprovada em segundo lugar no concurso público da Secretaria Municipal de Educação (SEMED) do município

Arquivo pessoal
Hoje, nutricionista escolar concursada, ela trabalha na coordenação da alimentação escolar, atuando diretamente no Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE)
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Hoje, nutricionista escolar concursada, ela trabalha na coordenação da alimentação escolar, atuando diretamente no Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE)

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Jaciana realizando avaliação nutriconal de alunos da comunidade indígena Belém do Solimões, localizada às margens do Rio Solimões, na Terra Indígena Eware, em Tabatinga (AM)
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Jaciana realizando avaliação nutriconal de alunos da comunidade indígena Belém do Solimões, localizada às margens do Rio Solimões, na Terra Indígena Eware, em Tabatinga (AM)

Arquivo pessoal
Jaciana durante entrega de alimentação escolar na comunidade indígena de Tauarú, na zona rural de Tabatinga e às margens do Rio Solimões
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Jaciana durante entrega de alimentação escolar na comunidade indígena de Tauarú, na zona rural de Tabatinga e às margens do Rio Solimões

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Jaciana e equipe da prefeitura na comunidade indígena Bananal para educação alimentar e nutricional nas escolas
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Jaciana e equipe da prefeitura na comunidade indígena Bananal para educação alimentar e nutricional nas escolas

Arquivo pessoal
Jaciana na Escola Municipal Indígena Mutchicutu, na comunidade indígena Nova Jordânia, para entrega de alimentação escolar. "Estava na temporada da seca aqui na região. Os desafios da nutrição escolar: atolei o pé atravessando um lago que estava seco para chegar na comunidade", relembra
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Jaciana na Escola Municipal Indígena Mutchicutu, na comunidade indígena Nova Jordânia, para entrega de alimentação escolar. "Estava na temporada da seca aqui na região. Os desafios da nutrição escolar: atolei o pé atravessando um lago que estava seco para chegar na comunidade", relembra

Arquivo pessoal

Jaciana diz que só não abandonou o curso porque buscou ajuda psicológica e psiquiátrica. O tratamento, segundo ela, foi fundamental para compreender os próprios desafios emocionais e encontrar forças para seguir em frente.

Ao longo do processo, afirma, passou a enxergar a conclusão do curso como uma forma de provar a si mesma que era capaz. O que mais a motivava a terminar a faculdade, entretanto, era a necessidade de alcançar a liberdade financeira.

“A segurança financeira é o que dá aquele alívio. Não pensava em separação, pensava primeiro nas contas da casa. Pensava em como iria dar conta das necessidades da minha filha”, relata. “A segurança financeira foi o que me fez pensar: chega, você merece coisa melhor”. Atualmente, Jaciana é mãe solo e lida com desafios em relação à pensão, embora diga que faz questão de que o pai continue participando da rotina e da criação da filha.

Em 2024, logo após concluir sua graduação em nutrição, ela foi aprovada em segundo lugar no concurso público da Secretaria Municipal de Educação (Semed) do município. Hoje, como nutricionista concursada, Jaciana trabalha na coordenação da alimentação escolar, atuando diretamente no Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

“Pela parte da família do meu pai, sou a primeira a finalizar uma graduação. Pela parte da família da minha mãe, sou a segunda. Estou realizada”, conta, orgulhosa.

 

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