Quando continuar é um desafio: 6 em cada 10 alunos de EaD desistem
Apesar de ampliar o acesso ao ensino superior, modalidade EaD enfrenta desafios de permanência, qualidade e acompanhamento

Os dados mais recentes do Censo da Educação Superior mostram que, embora o ensino a distância (EaD) tenha ampliado significativamente o acesso à graduação no país, a modalidade ainda enfrenta desafios relacionados à permanência dos estudantes. Entre os alunos que ingressaram em cursos EaD em 2015, 59% abandonaram a graduação até 2024. Nos cursos presenciais, a taxa de evasão no mesmo período foi de 34%.
As diferenças também aparecem nos índices de conclusão. Enquanto 40% dos estudantes matriculados em cursos presenciais concluíram a graduação, no EaD o percentual foi de 34%.
Apesar dos desafios, o ensino a distância é considerado fundamental para a democratização do acesso ao ensino superior, afirmam especialistas. Segundo o Censo da Educação Superior 2024, cerca de 43,1 milhões de brasileiros — o equivalente a 20,3% da população do país — só conseguem acessar uma graduação graças à oferta de cursos na modalidade.
Em 2,3 mil municípios brasileiros, o ensino superior chega apenas através da internet e pela tela de um computador.
Nesta sexta-feira (12/6), o Metrópoles publica uma série de reportagens sobre a expansão do ensino superior para o interior do Brasil por meio da educação a distância. As matérias acompanham histórias de estudantes de cidades sem oferta de cursos presenciais, analisam dados de acesso e evasão e discutem os desafios da modalidade para transformar matrículas em diplomas.
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Bernardo Kipnis, professor da UnB e pesquisador da área de educação a distância, avalia que o EaD ampliou o acesso ao ensino superior ao alcançar estudantes que antes não tinham condições de ingressar em uma graduação. Segundo ele, entretanto, o desafio está em transformar esse acesso em permanência e conclusão dos cursos.
“Sem dúvida, o EaD democratiza o acesso, na medida que viabiliza a matrícula de quem, antes, sonhava, mas não tinha condições para fazer um curso em nível superior. No entanto, esse acesso pode se constituir em ilusão, pois precisa vir acompanhado da permanência até o final do curso”, ressalta o professor de políticas públicas.
Para o especialista, embora a modalidade tenha ampliado as oportunidades de ingresso no ensino superior, ela exige uma mudança na dinâmica tradicional de ensino e aprendizagem.
“É preciso um perfil diferente tanto do estudante quanto do professor, adequado a um processo de aprendizagem mediado por tecnologia. Parte desse processo pode ocorrer em momentos presenciais, físicos ou remotos, mas uma parcela significativa acontece de forma assíncrona, exigindo autonomia do estudante para conduzir os próprios estudos”, explica.
A pesquisadora Andréia Mello Lacé, também professora da UnB e coordenadora de estudos sobre permanência estudantil e qualidade do ensino remoto, avalia que os indicadores oficiais não são suficientes para explicar as causas da evasão na educação a distância.
“A evasão não é um evento único, ela é um processo. Os relatórios técnicos costumam evidenciar essa evasão por meio de um número final, mas eles não mostram dados qualitativos dos motivos que levam os alunos a se afastar, nem quando seguem matriculados e se tornam inativos”, afirma.
Segundo ela, os dados estatísticos — baseados em indicadores como matrícula, conclusão e abandono — não conseguem captar os fatores estruturais que atravessam a permanência dos estudantes no ensino a distância.
“Eles não revelam fatores como exaustão por conciliar trabalho, estudo e família, problemas de saúde mental, frustração com a qualidade do curso. São questões centrais da evasão, mas que dificilmente os dados estatísticos vão revelar.”

Andréia destaca que o próprio perfil predominante dos estudantes do EaD ajuda a explicar parte das dificuldades de permanência. A modalidade concentra, em grande medida, adultos que trabalham, possuem responsabilidades familiares e precisam conciliar múltiplas demandas ao longo do dia.
“Conciliar estudo, emprego e vida pessoal acaba sendo um desafio permanente, sobretudo em lares onde um dos genitores assume de forma exclusiva a criação e a educação dos filhos”, afirma Andréia Mello Lacé.
Para a especialista, a permanência dos estudantes EaD também é reflexo da qualidade dos cursos, da mediação pedagógica e do suporte oferecido pelas instituições.
Os resultados do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) 2023 e os indicadores de qualidade revelam diferenças significativas entre os cursos de EaD e os cursos presenciais.
Os dados apontam desempenho inferior dos cursos a distância em critérios como rendimento dos estudantes, valor agregado à formação, qualidade dos cursos e satisfação dos concluintes. As disparidades também aparecem no acesso a oportunidades acadêmicas, como bolsas de iniciação científica e extensão.

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