Ensino particular domina EaD em meio à queda de investimentos públicos
Queda de recursos e equipes na Universidade Aberta do Brasil coincide com o avanço das instituições privadas na oferta de graduação EaD

A expansão da educação a distância (EaD) no Brasil tem ocorrido, sobretudo, por meio do setor privado. Segundo a 15ª edição do Mapa do Ensino Superior, 95,9% das matrículas em cursos de graduação EaD estão concentradas em instituições particulares, que hoje dominam quase integralmente a modalidade.
Em 11 anos, a participação do EaD no ensino superior brasileiro saltou de menos de 20% para 50,7% das matrículas — um crescimento de 153,5% — e em 2024, pela primeira vez na história, as matrículas em cursos a distância superaram as do ensino presencial.
O alcance dessa expansão ajuda a dimensionar o papel da modalidade no país. De acordo com o Censo da Educação Superior 2024, cerca de 43,1 milhões de brasileiros — o equivalente a 20,3% da população — só conseguem acessar uma graduação por meio do ensino a distância.
Em 2,3 mil municípios brasileiros, o ensino superior chega apenas através da internet e pela tela de um computador.
Nesta sexta-feira (12/6), o Metrópoles publica uma série de reportagens sobre a expansão do ensino superior para o interior do Brasil por meio da educação a distância. As reportagens acompanham histórias de estudantes de cidades sem oferta de cursos presenciais, analisam dados de acesso e evasão e discutem os desafios da modalidade para transformar matrículas em diplomas.
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A pesquisadora Andréia Mello Lacé, professora da UnB e coordenadora de estudos sobre permanência estudantil e qualidade do ensino remoto, argumenta que a expansão do ensino a distância privado também é resultado das limitações enfrentadas pela oferta pública.
Segundo ela, a maior parte dos cursos públicos de EaD está vinculada ao Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB), criado em 2006 para ampliar o acesso ao ensino superior por meio da articulação entre União, estados, municípios e instituições públicas.
A UAB reúne mais de 150 instituições públicas de ensino superior, cerca de 800 cursos e aproximadamente mil polos de apoio presencial distribuídos pelo país. Apesar da capilaridade, o modelo enfrenta um desafio estrutural: a dependência de editais e financiamentos específicos para manter suas atividades.
“A gente tem uma alta dependência de ciclos de financiamento, descontinuidade de equipes, heterogeneidade de qualidade. Não conseguimos manter um quadro permanente de docentes”, afirma Andréia. “Gostaria muito que a iniciativa pública avançasse para uma oferta maior da educação a distância no Brasil — mas esse ainda é um sonho, esse ainda é um horizonte.”
Dados do Painel de Monitoramento e Indicadores da UAB mostram que os investimentos no sistema público passaram por altos e baixos ao longo dos últimos anos, saindo de R$ 276 milhões em 2014 até atingir, em 2022, o menor valor já registrado: R$ 109 milhões. No mesmo período, o número de bolsistas despencou de 41.418 para 6.660.
A queda de mais de 60% no aporte financeiro e de 84% no contingente humano em menos de uma década coincide com o período em que o setor privado avançou de forma acelerada o domínio sobre a oferta EaD em território nacional.
O próprio desenho do Sistema UAB ajuda a entender a vulnerabilidade do EaD público. Entre 2011 e 2025, a foram registrados cerca de 135 mil bolsistas. Desse total, mais de 125 mil atuaram como tutores ou professores vinculados a bolsas temporárias, sem vínculo permanente com as universidades. Quando os recursos diminuem, as equipes são reduzidas e os projetos perdem continuidade.
Embora os investimentos tenham voltado a crescer nos últimos anos — chegando a R$ 249 milhões em 2025, com 25.545 bolsistas ativos —, o sistema ainda não recuperou os níveis observados na década passada. Norte e Nordeste seguem sendo as regiões com menor número de bolsistas da UAB.
Para Andréia, o país precisa ir além da expansão baseada em editais e programas temporários. A pesquisadora defende a criação de uma estrutura pública permanente para a educação a distância, com financiamento estável, corpo docente próprio e capacidade de atender regiões onde a oferta presencial é insuficiente e o mercado privado nem sempre consegue chegar.

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