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Farra no inssBrasil

INSS: presidente da Conafer comprou R$ 1,7 milhão em gado, diz PF

Informação consta em análise do celular do empresário Higor Dalle Vedove Lourenção, um dos investigados na 1ª fase da Operação Sem Desconto

15/07/2026 19:29, atualizado 15/07/2026 19:31
Reprodução/Agênica Senado
Foto colorida de presidente da Conafer, foragido da PF, Carlos Roberto Ferreira Lopes

A Polícia Federal (PF) identificou uma compra de R$ 1,7 milhão em gado feita, supostamente, pelo presidente da Confederação Nacional de Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer), Carlos Roberto Ferreira Lopes (foto em destaque), conhecido como “Mão Preta do INSS”.

A aquisição do rebanho, segundo a corporação, teria sido feita durante o período em que a entidade recebia recursos provenientes de descontos associativos considerados ilegais em benefícios de aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

A informação consta na análise do celular do empresário Higor Dalle Vedove Lourenção, um dos investigados na primeira fase da Operação Sem Desconto.

O relatório foi encaminhado nessa terça-feira (15/7) ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator do caso. Ao todo, a PF indiciou 48 pessoas no primeiro inquérito da operação pelos crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro e corrupção.

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A investigação aponta que a Conafer recebeu mais de R$ 700 milhões no período analisado
Os investigadores concluíram que a estrutura era comandada por Carlos Roberto Ferreira Lopes
Presidente da Conafer, Carlos Lopes
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Presidente da Conafer, Carlos Lopes

Divulgação/Conafer
A investigação aponta que a Conafer recebeu mais de R$ 700 milhões no período analisado
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A investigação aponta que a Conafer recebeu mais de R$ 700 milhões no período analisado

Reprodução/Agênica Senado
Os investigadores concluíram que a estrutura era comandada por Carlos Roberto Ferreira Lopes
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Os investigadores concluíram que a estrutura era comandada por Carlos Roberto Ferreira Lopes

Reprodução/TV Senado

Compra milionária

De acordo com a investigação, uma conversa encontrada no WhatsApp de Higor cita que Carlos teria emitido um cheque de R$ 1,7 milhão para a compra de gado. A conversa também menciona outros pagamentos de R$ 40 mil destinados à compra de animais.

Na conversa, um interlocutor identificado como Cícero afirma que Carlos teria demonstrado preocupação com a compensação do cheque milionário, por temer que o pagamento fosse interrompido antes do previsto.

“É por isso que eu tô te falando e tem um cheque de 1 milhão e 700 mil que ele comprou fez uma semana atrás e de gado à vista 1 milhão e 700 mil por isso eu tô te falando entendeu e mais outros cheques de 40 mil também de gado de outro dia os caras da parceria forte pode falhar esses caras entendeu. Ai ele me ligou várias vezes, 8h40. Deveria ser pra ver se caiu lá, se não caiu, se tá com alguma pendência por lá pra cair. Só que ai eu fui falar depois da meia hora com ele e ele [não] me atendeu mais. Deve tá louco, né? Gritando lá no INSS atrás do governo. Pai, 1 milhão e 700 mil, um cheque inteirinho assim, só de gado”, disse Cícero em conversa extraída pela PF.

Segundo os investigadores, Cícero seria um dos responsáveis pela movimentação financeira do grupo da Conafer e considerado o operador financeiro do esquema. O rastreamento bancário e telefônico da investigação aponta Cícero como o responsável por fazer os pagamentos das compras de gado e de material genético de alto valor ligadas a Carlos.

A investigação mostra que Cícero tinha um grupo de aplicativo de mensagens denominado “GADO COMPROVANTES”, contendo diversos comprovantes de transações bancárias de pagamentos efetuados por várias empresas de fachada do grupo investigado.

Segundo os investigadores, o dinheiro não saía das contas do empresário nem da agropecuária dele.

As transações eram feitas por empresas de fachada, usadas para esconder de onde vinha o recurso. Entre agosto e setembro de 2023, essas empresas transferiram R$ 1.173.060,00 para Elisvaldo Vilanova de Menezes. O valor foi usado na compra de lotes de gado para Carlos. Já em novembro de 2024, outros R$ 675 mil foram pagos ao fornecedor “Celso Gado” pela compra de mais 30 animais.

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Fazenda e milhares de animais

Segundo a investigação, Carlos Roberto, a esposa dele, Bruna Braz de Souza Santos, e outro investigado, identificado como Vinicius Ramos da Cruz, cunhado de Carlos, teriam utilizado recursos provenientes do esquema para comprar fazendas, veículos de alto valor e grandes rebanhos por meio da Agropecuária e Mineração Lagoa Alta Ltda.

A PF afirma que Carlos Lopes teria utilizado uma estrutura empresarial e patrimonial para esconder valores obtidos de forma ilegal. A corporação aponta a existência de uma organização criminosa responsável por inserir cobranças sem autorização em benefícios previdenciários.

“Os elementos colhidos na investigação demonstraram que os recursos ilícitos foram submetidos a um complexo esquema de lavagem de dinheiro, sendo desviados para empresas de fachada e utilizados para o enriquecimento ilícito do núcleo da organização. Destacou-se a atuação de CARLOS ROBERTO FERREIRA LOPES (Presidente da CONAFER), de sua esposa BRUNA BRAZ DE SOUZA SANTOS, bem como de VINICIUS RAMOS DA CRUZ, os quais utilizaram os valores desviados para a aquisição de bens de alto padrão, incluindo propriedades rurais e expressiva quantidade de bens semoventes (bovinos e equinos)”, diz trecho do relatório.

A PF solicitou ao STF o bloqueio dos bens e a apreensão dos animais relacionados ao patrimônio investigado. As propriedades rurais foram localizadas nos municípios mineiros de Nova Módica, Itambacuri e Jequitinhonha.

Durante a operação, os policiais apreenderam cerca de 1.487 bovinos, 33 equinos e muares. Caminhões, carretas, uma caminhonete Trailblazer, equipamentos agrícolas e documentos das propriedades também foram apreendidos.

Por conta da dificuldade de transportar o rebanho de imediato, os animais permaneceram nas fazendas por decisão judicial. O gado está sob responsabilidade de depositários nomeados pela Justiça.

Patrimônio usado para ocultar recursos

Conforme o relatório da PF, o núcleo ligado à Conafer teria movimentado pelo menos R$ 708 milhões, entre 2019 e 2024.

Os investigadores sustentam que parte dos recursos teria sido direcionada para a compra de fazendas, veículos, gado e outros bens de alto valor, em uma tentativa de ocultar a origem do dinheiro.

A PF identificou dois núcleos principais de atuação. Um deles seria comandado por Cícero Marcelino de Souza Santos, e sua esposa, Ingrid Pikinskeni Morais. De acordo com o relatório, empresas ligadas ao casal receberam mais de R$ 312 milhões provenientes da Conafer.

Outro núcleo teria como operadores Samuel Chrisóstomo do Bomfim Júnior e sua irmã, Lucineide dos Santos Oliveira. A investigação aponta que empresas vinculadas aos dois também receberam valores da entidade e teriam participado da ocultação patrimonial.


Farra do INSS


Investigados

O primeiro inquérito da operação resultou no indiciamento de 48 pessoas pelos crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro e corrupção.

Carlos Roberto Ferreira Lopes foi indiciado por organização criminosa, lavagem de dinheiro qualificada e reiterada e corrupção ativa majorada. Ele é considerado foragido pela PF.

Entre os investigados estão o ex-presidente do INSS Alessandro Stefanutto, o ex-procurador-geral do Instituto Virgílio Antônio Ribeiro Filho, o ex-diretor de Benefícios André Fidelis e o lobista Antonio Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”. Segundo a PF, os quatro estão presos preventivamente.

Agora, caberá ao ministro André Mendonça encaminhar o relatório à Procuradoria-Geral da República (PGR), que decidirá se apresenta denúncia contra os investigados.

Metrópoles procurou a Conafer para comentar o inquérito da PF, mas não obteve retorno até então. O espaço segue aberto.