Governo enviou aos estados 557 respiradores: apenas 2,9% do prometido

Ex-ministro da Saúde, Teich garantiu a distribuição de 14.100 aparelhos para tratamento de casos graves de coronavírus, o que não aconteceu

atualizado 16/05/2020 15:14

Maca com lençol branco e respirador ao lado Hugo Barreto/Metrópoles

A curva de contágio pela Covid-19 avança de forma acelerada no Brasil, mas, por outro lado, a distribuição de equipamentos prometidos aos estados pelo Ministério da Saúde segue a passos lentos. Ao assumir o comando da pasta, há menos de um mês, o agora ex-ministro da Saúde Nelson Teich anunciou a compra de 14.100 respiradores, que são itens fundamentais para tratar os casos graves de coronavírus. Pontuou ainda que a entrega dos aparelhos para as unidades da Federação ocorreria em 90 dias. Até agora, no entanto, foram repassados apenas 557, ou 2,9% do total.

Dez das 27 unidades federativas foram contempladas com os equipamentos. Estados como Maranhão, Alagoas e Bahia, que estão à beira de colapso no sistema público de saúde, não receberam nenhum respirador do governo federal.

No Maranhão, a União chegou a tentar barrar a entrega de 68 aparelhos comprados pelo estado no exterior, fato que gerou imbróglio político, apesar de o próprio governo federal alegar que a compra dos itens é, na verdade, responsabilidade dos mandatários de cada unidade da Federação.

Vale ressaltar que o Maranhão é governado por Flávio Dino (PCdoB), alvo de Bolsonaro, em julho do ano passado, em conversa com Onyx Lorenzoni, então ministro-chefe da Casa Civil. Na ocasião, o mandatário do país disparou: “Dos governadores de ‘paraíba’, o do Maranhão é o pior. Não tem que ter nada com esse cara”.

Solução nacional

A compra dos 14.100 respiradores começou no início de abril, ainda na gestão Mandetta, e continuou na administração de Teich, que, durante os 28 dias no comando do Ministério da Saúde, foi pressionado por governadores em relação à aquisição dos equipamentos.

Nesse meio tempo, Teich cancelou a compra de 15 mil respiradores que viriam da China, pois as encomendas não estavam sendo entregues, e prometeu solução nacional.

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O prazo de três meses para a entrega dos respiradores foi previsto pelo ex-ministro para cobrir o momento mais crítico da pandemia de coronavírus no Brasil. Em resposta enviada ao Metrópoles após a queda de Teich, o Ministério da Saúde, já sob o comando interino do general Eduardo Pazuello, não mencionou data para distribuição dos aparelhos, tampouco a quantidade de itens que serão disponibilizados.

“Cabe esclarecer que a compra destes equipamentos é de responsabilidade dos estados e municípios. Mas, devido à escassez mundial do aparelho diante do cenário de emergência em saúde pública por conta da pandemia do coronavírus, o Ministério da Saúde utilizou o seu poder de compra para fazer as aquisições em apoio aos gestores locais do Sistema Único de Saúde (SUS)”, diz nota da pasta.

Os 10 estados que já receberam respiradores são Amazonas (90 aparelhos); Ceará (75); Paraíba (20); Pernambuco (50); Amapá (45); Pará (80); Paraná (20); Santa Catarina (17); Espírito Santo (10); e Rio de Janeiro (150). O custo dessas aquisições, segundo o Ministério da Saúde, foi de R$ 31,9 milhões.

Nem todos os estados que não receberam precisam da ajuda imediata do governo federal em relação aos respiradores, mas há algumas unidades federativas que necessitam e não conseguem.

É o caso de Alagoas, que já confirmou 3.212 ocorrências de Covid-19 e 187 mortes em decorrência da doença. O Ministério Público local e o MP Federal já questionaram o Ministério da Saúde sobre promessa feita no início de abril de enviar 30 respiradores para o estado, mas não tiveram resposta a respeito do cronograma das próximas entregas – o Metrópoles também aguarda retorno da pasta.

Na Bahia, a situação também não é confortável. O estado, que ainda não foi contemplado pelo governo federal com o recebimento dos aparelhos, confirmou nessa sexta (15/05) 8.128 infectados pelo novo coronavírus e 281 mortes causadas pela Covid-19.

Segundo o prefeito de Salvador (DEM), ACM Neto, a capital tem conseguido, a duras penas, evitar o colapso do sistema da saúde.

“O colapso estava previsto pelos estudos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) para acontecer ontem [quinta], nos casos dos leitos clínicos para pacientes com a Covid-19, e, para as UTIs, no dia 20. Mas, graças à ampliação do suporte em saúde e às medidas de isolamento social, conseguimos derrubar a taxa de transmissão e o colapso não aconteceu. Até o dia 24, posso dizer que não há risco de saturação. Mas ele ainda existe”, explicou o prefeito.

No início da pandemia, o Brasil contava com 65.411 respiradores, sendo 46.663 no SUS.

Pressão parlamentar

Representante do Mato Grosso do Sul, um dos estados que não receberam respiradores até agora, o deputado federal Fábio Trad (PSD) informou ao Metrópoles que fará requerimento ao Ministério da Saúde na próxima segunda-feira (18/05) para saber as razões da demora.

“A instabilidade política do governo federal, com idas e vindas em plena pandemia, é fator determinante para este atraso, que contribui para o aumento de mortes”, frisou o parlamentar.

“Meu estado, embora não esteja entre aqueles mais críticos, hoje passou a registrar preocupantes sinais de crescimento de infectados. São injustificáveis a demora e a falta de explicação em um contexto de aumento rápido de contaminados”, salientou Trad.

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