GO: polícia pede quebra de sigilo de presos por venda ilegal de vacina

Investigação também quer identificar rede de compradores e possível envolvimento de agentes públicos no esquema de desvio de imunizações

atualizado 08/04/2021 17:13

Divulgação: PMGO

Goiânia – Um dia depois de prender um técnico em refrigeração de 28 anos com 20 frascos com 200 doses de vacina contra Covid-19 em Senador Canedo, região metropolitana de Goiânia, uma força-tarefa da Polícia Civil de Goiás (PCGO) conseguiu levar à prisão, nesta quinta-feira (8/4), um homem de 29 anos, o segundo suspeito de integrar o esquema criminoso, na capital.

A investigação aponta que as doses da vacina seriam destinadas a Goiás, Distrito Federal e outras unidades da Federação.

A Justiça deve autorizar, ainda nesta tarde, a quebra de sigilos telefônico e fiscal do técnico Marcos Antônio Costa Oliveira e de Rodrigo Gomes Lisboa, além de converter pedido de prisão temporária em preventiva. Eles também devem ser ouvidos, pela polícia, novamente, até o final do dia.

A Secretaria de Segurança Pública do Estado de Goiás (SSPGO) e a PCGO vão realizar coletiva de imprensa, às 18h30 desta quinta, para detalhar as investigações.

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Lisboa foi apontado como envolvido no esquema por Oliveira, preso com três ampolas em desvio da vacina Coronavac, na porta de um supermercado em Senador Canedo. A Polícia Militar e a Guarda Civil informaram que o técnico tentava vendê-las por R$ 450 cada, via WhatsApp, e encontraram outras 17 ampolas na geladeira da casa dele.

“Não bastasse a Covid que tanto tem nos penalizado, ainda temos ainda pessoas que acham que podem driblar a lei, ter benefícios ou se beneficiar de crimes como este, que devem ser punidos com o rigor da lei e com penas bem mais agressivas do que de pessoas que praticam outros roubos”, lamentou o governador Ronaldo Caiado (DEM).

Vacinas lotes desviados

Ao Metrópoles, o secretário de Segurança Pública de Goiás, Rodney Miranda, afirmou que as doses apreendidas são parte de um segundo lote desviado e seriam destinadas a Goiás, Distrito Federal e, possivelmente, outras unidades da Federação. Em depoimento, o técnico disse que já havia vendido vacinas de um primeiro lote.

“Pode ser que este lote também teria doses para outros estados”, disse Miranda, em entrevista ao portal. O secretário estadual de Saúde, Ismael Alexandrino, determinou auditoria para identificar, exatamente, de onde as vacinas foram desviadas.

A polícia aguarda autorização judicial para fazer rastreamento das contas bancárias dos suspeitos, identificar possíveis transferências de dinheiro e saber com quem cada deles conversou por ligação e WhatsAppp.

Os investigadores acreditam que os produtos vendidos ilegalmente são provenientes de um lote de 64 mil doses da Coronavac, distribuído para o Centro-Oeste, no último sábado (3/4), pelo Ministério da Saúde.

A informação divulgada inicialmente de que as vacinas teriam saído do Hospital de Urgências Otávio Lage (Hugol), na capital, não foi confirmada.

“Tudo indica, pela numeração, que seja um lote que veio destinado a Goiás e Distrito Federal. Nenhuma possibilidade vai ser descartada até chegar ao fim desse crime absurdo”, pontuou.

Suposta rede criminosa

O técnico em refrigeração disse, em depoimento, que usava principalmente o aplicativo de celular para comercializar vacinas. “A gente vai saber de quem ele recebeu e para quem ele mandou dinheiro porque todo mundo é criminoso nessa história. Quem forneceu e quem recebeu”, asseverou o secretário de Segurança Pública.

“Ele [o técnico] não chegou a falar para quem destinava. Vendia para quem quisesse comprar e cobrava R$ 400 ou R$ 450 cada dose, depois reduziu para R$ 50”, disse Miranda.

De acordo com o secretário, o técnico em refrigeração é morador de Senador Canedo, onde foi preso, e o segundo suspeito é “estelionatário” de Brasília e que também mora no Setor Bueno, região nobre de Goiânia. Os dois acusam um ao outro de comandar o esquema.

“O outro [Lisboa] é estelionatário. O fato de morar ali não quer dizer que tenha condição de morar ali. Ele não tem outra fonte de renda, a não ser o crime de estelionato, e falou que é cartãozeiro, que mexe com cartão de crédito”, disse Miranda.

À polícia, o segundo preso negou participação no esquema. “Falou que foi oferecida a vacina para ele por esse sujeito [técnico] quando foi fazer trabalho de ar-condicionado na casa dele”, disse o secretário.

A investigação apurou que o técnico está vinculado a duas empresas do ramo de refrigeração e presta serviços autônomos na área. Os nomes delas não foram divulgados.

Visitas técnicas

Por isso, segundo Rodney, o suspeito pode ter se aproveitado da profissão para, durante visitas técnicas, conseguir acesso a locais que guardassem as vacinas em hospitais.

“Estamos trabalhando no rastreamento das visitas técnicas. Tanto no contato com as empresas quanto no rastreamento da movimentação dele, mas tudo precisa de autorização judicial. Estamos rastreando também a origem dos lotes”, disse o secretário.

Segundo Rodney, o técnico admitiu que “tem alguns dias que está mexendo com isso”. “A data só vai ser colocada quando a gente confirmar quando o primeiro lote sumiu. Este segundo lote a gente sabe que foi sábado (3/4), mas só tem indícios ainda”, disse.

Inicialmente, a investigação acredita que mais pessoas estão envolvidas no esquema criminoso de desvio de vacinas, mas não descarta que o técnico pode ter agido sozinho para furtar as vacinas.

“Há possibilidade do furto. Em princípio, a gente pensou que pode ter envolvimento de agente público, mas ele pode ter acesso [aos locais] e tirado [as doses de vacina]”, explicou o secretário.

“Ninguém sentiu falta?”

Se confirmada a hipótese de furto, a investigação mantém, ainda, a possibilidade de responsabilização de agentes públicos.

“Mesmo que seja na negligência na guarda de vacinas. Vamos dizer que tenha sido furtado, e depois? Ninguém sentiu falta desse lote? Nenhuma linha de investigação vai ser descartada até chegar a todos os autores”, asseverou o secretário.

A investigação identificou muitas declarações confusas nos depoimentos dos suspeitos e, por isso, muitas informações precisam ser esclarecidas, inclusive, para saber se o técnico é apenas intermediário e quem comanda os esquemas, além de identificar os compradores.

“As pessoas que compraram, se não fizeram procedimento correto, além de terem cometido crime, podem estar correndo risco à saúde, porque as vacinas precisam ser acondicionadas adequadamente”, lembrou o secretário.

A força-tarefa tem participação da Delegacias de Senador Canedo, de Investigações Criminais (Deic) e de Combate à Corrupção (Deccor), além de apoio da Secretaria Estadual de Saúde de Goiás (SESGO).

O Metrópoles não localizou os advogados dos suspeitos.

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