UnB está entre universidades com menores taxas de evasão do país

A quantidade de alunos que desistem da graduação na universidade diminuiu 3% em cinco anos

Felipe Menezes/MetrópolesFelipe Menezes/Metrópoles

atualizado 20/02/2019 8:53

Juliana Klein, brasiliense de 19 anos, está entre os 22% de estudantes do ensino superior brasileiro que abandonam a graduação antes da formatura. Ela ingressou em física na Universidade de Brasília (UnB), curso com maior índice de desistência da instituição, e relatou ter se decepcionado com o caminho até o diploma. “Tirou minha vontade de aprender e minou minha saúde mental”, contou a jovem. O dado é de uma pesquisa do Instituto Lobo, grupo atuante em projetos institucionais e governamentais há mais de 12 anos.

 

Guilherme Primola/Metrópoles

Ainda assim, a UnB é uma das universidades com menores índices de evasão do Brasil, com uma taxa anual flutuando em torno de 9%. De acordo com pesquisa do Decanato de Ensino de Graduação (DEG), a quantidade de alunos que deixam suas faculdades caiu de 10% para 7%, entre 2013 e 2017. Outras escolas superiores públicas que estão entre as melhores no ranking da Folha, como a USP, UFMG e Unesp, possuem taxa média anual de, respectivamente, 20%22% e 20%.

Para a equipe do DEG, que atualmente realiza um novo estudo sobre a evasão na UnB, a redução desse abandono aconteceu devido à consolidação de políticas de assistência estudantil, além das que democratizaram o acesso ao ensino superior, como a reserva de vagas para negros, indígenas e estudantes de escolas públicas. Na concepção do decanato, essas políticas precisam continuar sendo impulsionadas pelo governo federal, “para que mais pessoas possam sair da UnB, e de outras universidades públicas, bem qualificadas e preparadas para dar respostas aos inúmeros desafios nacionais”.

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Cursos com maior desistência

Segundo o DEG, em seu último estudo sobre o tema, os cursos com maiores índices de desistência na UnB são: física, matemática e enfermagem. Entre os alunos que ingressam no bacharelado de física, apenas cerca de 27% se formam. Juliana Klein, citada anteriormente, faz parte dos 72% dos desistentes. Qual a explicação desse comportamento diante de uma percentagem tão baixa de desistência na UnB como um todo?

A jovem explicou que, apesar de ter tido orientação vocacional durante o ensino médio e ter sonhado com a profissão, se decepcionou com o curso por considerar sua forma de ensino muito burocrática, não atendendo suas expectativas, e por não ter conseguido se encaixar. “É difícil se encaixar quando são 5 mulheres em uma turma de 40 homens. Esses 40 subestimam e não dão espaço para mulheres”, contou. Já Mayara Reis, 21 anos, ainda cursa enfermagem, mas não satisfeita com o curso, pretende migrar para psicologia. “Não me identifiquei muito com a profissão, e me senti desmotivada pelos professores a continuar as disciplinas, por ter uma deficiência visual”, disse.

O que justifica tanta desistência?
A falta de preparo, a ausência de uma base sólida de conhecimento adquirida no ensino médio e a desinformação sobre os cursos são os principais fatores para as desistências, na avaliação da psicóloga Maria das Graças Santiago. Especialista em análise do comportamento e com a experiência de quem acompanha jovens com incertezas quanto à escolha da profissão, ela aponta, também, a escolha precoce da profissão, exigida dos estudantes na faixa de 16 a 18 anos, como uma das causas comprometedoras do desempenho no decorrer da graduação.

De acordo com a psicóloga, nas universidades privadas, o principal motivo para evasão é a situação financeira do estudante. “As mensalidades são altíssimas. Muitos pais fazem a matrícula, se comprometem a pagar no começo, e depois exigem que os filhos trabalhem para ter autonomia financeira e pagar a própria educação superior. Muitas vezes, o jovem não alcança essa meta e desanima porque precisa pagar, acaba deixando a faculdade para depois”, explica ela.

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Já nas universidades públicas, o abandono é por falta de preparo para o mundo universitário durante o ensino médio. “Eles não têm muito interesse em se dedicar, estudar, saem da escola com poucas habilidades para estudo e acabam reprovando, trancando, mudando de curso”, diz Maria.

E como evitar a evasão?
Existem algumas medidas que podem ser tomadas pelas escolas, ainda no ensino médio, para evitar a evasão de estudantes no ensino superior. “O processo de orientação vocacional é fundamental antes da escolha, pois possibilita ao estudante fazer descobertas sobre si, suas aptidões, interesses e o ajuda a ter mais segurança ao final do ensino médio”, defendeu a psicóloga Maria das Graças, citada anteriormente.

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A especialista cita outros fatores para cravar a decisão: análise do mercado de trabalho, duração do curso e onde é possível achar a graduação desejada. “No mercado de trabalho, é importante verificar o piso salarial, as atividades exercidas dentro da profissão, e se o mercado está em alta ou em baixa”, explica. Segundo ela, o teste vocacional deve “agregar valor ao resultado” e tem a função de checar as habilidades e interesses dos jovens.

O Centro de Ensino Médio Setor Leste tem algumas iniciativas que favorecem a escolha profissional dos estudantes. Luís Guilherme Batista, professor de história da instituição, comanda o projeto Re(vi)vendo Exodus, no qual alunos realizam pesquisas nas áreas de identidade e patrimônio histórico. O colégio também realiza pesquisas de campo fora de Brasília e, nesse processo, muitos descobrem sua vocação. Os estudantes do Setor Leste também têm a oportunidade de participar de um programa de rádio na Cultura FM, assim como frequentar feiras profissionais que ocorrem anualmente.

 

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