De salário em salário: como millennials enfrentam a alta inflação
Especialistas afirmam que 75% dos jovens não controlam os próprios gastos. País tem 12,5 milhões de endividados entre 18 e 29 anos

O aumento da inflação mudou os planos de inúmeras pessoas e, consequentemente, a rotina de gastos de cada um. A geração millennial, de nascidos entre 1980 e 1995, relata como a esperança de ter uma estabilidade financeira foi atingida pela crise econômica.
Matheus Nunes, de 28 anos, conta que a maneira de organizar as contas mudou. “Eu tenho tentado priorizar algumas coisas para poder fechas as contas no final do mês”, explica ele.
Entre todos os gastos, ele afirma que o combustível ainda é o que mais complica. “Eu tenho optado em ir para o trabalho de carona ou até mesmo de transporte público, para tentar evitar ao máximo o uso do carro. No final, o carro tem ficado muito mais na garagem do que rodando”, declara o millenial.
Matheus Nunes ainda lembra que “tem outros fatores”. “Eu e minha família temos tentado economizar ao máximo o gasto de energia e mudamos a forma de fazer compras, principalmente optando por diminuir o consumo de carne”, conta.
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Ver todasEssa nova organização também afetou os gastos com lazer. Matheus diz que tem evitado pequenos eventos, a fim de tirar excesso nos valores do orçamento.
De acordo com ele, ainda é difícil lidar ou criar expectativas sobre o cenário financeiro. Matheus afirma que usa esse período conturbado do país para aprimorar seus conhecimentos profissionais na tentativa de conseguir cargos e, consequentemente, salários maiores.
“Eu estou tirando certificações e correndo atrás de áreas que estão em alta no momento para tentar conseguir uma remuneração maior. Acho que somente assim a gente vai conseguir melhorar essa expectativa criada, conseguindo emprego com valores mais altos para tentar cobrir essa inflação”, declara.
Há um ano, Matheus precisou repensar os gastos prioritários. A chegada de sua filha, Manuella, mudou a rotina e criou mais despesas para a família.
“São muitos gastos e coisas de criança geralmente são bem mais caras. Isso acabou mexendo muito na dinâmica da casa, principalmente com vestuário, alimentação e itens que você acaba tendo que comprar para lidar com a bebê”, explica ele.
Falta de planejamento financeiro
Segundo Joe Ruas, especialista em finanças pessoais do Banco Inter, a realidade econômica da geração millennial também acontece por uma mudança de propósito. “Apesar de existir uma minoria dos jovens que busca conhecimento financeiro e bons hábitos para um futuro melhor, muitos têm um pensamento mais a curto prazo, vivendo dia após dia, sem grandes planos para o futuro”, descreve ele.
Pedro Lima, co-CEO da Meu Acerto, aponta que esse já é um grande problema para a geração.
“Os millenials, que chegaram há pouco na vida adulta, já representam um percentual muito relevante entre os brasileiros inadimplentes — são mais de 12,5 milhões de pessoas endividadas entre 18 e 29 anos. Quando a gente observa a relação dessas pessoas com dinheiro, o que vemos é que 75% da população jovem não faz o controle dos gastos. A existência dessa falta de controle e planejamento financeiro e do alto índice de inadimplência não é coincidência”, avalia.
Pedro também aponta a importância da educação financeira e o acesso à informação sobre investimentos como fatores que ajudam essa geração a construir uma nova realidade no país. “De acordo com dados do mercado, o público jovem é o público investidor que mais cresce no Brasil e os jovens têm começado a investir cada vez mais cedo”, pontua ele.
Organização de gastos
Pedro Lima afirma que três dicas podem ajudar a melhorar a organização de despesas: educação, buscando “informações no formato que mais lhes agradem”; controle financeiro, começando “pelo básico, anotando todas as receitas e despesas e tendo noção de para onde seu dinheiro está indo”; e negociação de dívidas, procurando “alternativas para negociar suas pendências o mais rápido possível”.
O economista Daniel Cavagnari concorda que essa organização está ligada à busca de novas alternativas para controlar os gastos. “O salário não vai ser reajustado com essa inflação que vem e vai. Ainda vai levar algum tempo para as coisas normalizarem e é preciso saber comprar e evitar o desperdício o máximo que puder”, declara ele.
Daniel e Joe apontam para a necessidade de conhecer os gastos necessários e priorizá-los corretamente dentro do orçamento. Procurar trocar e evitar produtos e serviços que tiveram um aumento alto no preço também entram nessa lista de alternativas.
Cavagnari ainda fala que é importante “planilhar” as despesas durante o ano, controlando os gastos mensais esperados e inesperados que vierem. “Você consegue ter uma visão do que vai acontecer com o seu dinheiro durante o ano e sabe se vai sobrar ou faltar orçamento no final do mês. Feito com antecedência, esse controle auxilia muito e traz bons resultados”, detalha.
Pedro relembra dois pontos importantes dentro da organização financeira: entender a relação da família com essa área, a fim extinguir uma situação com grandes despesas, e investir o dinheiro naquilo que faz sentido, sendo necessário traçar objetivos que deem valor ao dinheiro.











