Conheça a Davati, empresa no centro da nova acusação de propina por vacinas

Diretor do Ministério da Saúde pediu propina de US$ 1 por dose de vacina, segundo jornal. Empresa é investigada no Canadá

atualizado 30/06/2021 21:07

A empresa Davati Medical Supply é investigada no Canadá por negociar doses da vacina contra o novo coronavírus em paralelo ao governo local e sem o aval, até mesmo, da própria AstraZeneca.

No Brasil, o cabo da Polícia Militar de Minas Gerais Luiz Paulo Dominguetti Pereira – que se diz representante da empresa – denunciou, conforme revelado pela jornalista Constança Rezende, do jornal Folha de S. Paulo, ter recebido pedido de propina de US$ 1 por dose em troca de fechar contrato com o Ministério da Saúde. A empresa buscou a pasta para negociar 400 milhões de doses.

A proposta teria sido feita pelo ex-diretor de Logística do Ministério da Saúde Roberto Ferreira Dias, em 25 de fevereiro deste ano. Ele foi oficialmente exonerado na manhã desta quarta-feira (30/6).

Em 10 de março deste ano, o ministro de Serviços Indígenas do Canadá, Marc Miller, informou, de acordo com registros do site Saskatoon Star Phoenix, estar em contato com a polícia sobre o acordo entre grupos indígenas e a empresa privada, que ele acredita não ser legítima.

As suspeitas sobre a legitimidade das negociações feitas pela Davati ganharam força após a AstraZeneca informar que “se uma organização está oferecendo o fornecimento privado de nossa vacina, provavelmente não é uma oferta legítima”.

O chefe da Nação Cree James Smith (JSCN), Wally Burns, disse que estava tentando obter milhões de doses de vacina por meio da Davati. Miller, por sua vez, fez um alerta sobre ofertas que podem parecer “boas demais para ser verdade”.

“Dinheiro não é minha preocupação. Minha preocupação é a saúde e a segurança das pessoas que receberiam a vacina ”, ponderou Miller.

Ao Metrópoles, a farmacêutica também confirmou não usar intermediários para tratar de vacinas contra a Covid-19. “Atualmente a AstraZeneca não disponibiliza a vacina por meio do mercado privado ou trabalha com qualquer intermediário no Brasil. Todos os convênios são realizados diretamente via Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e governo federal”, assinalou, em nota.

Site da Davati

Outro ponto que chama a atenção para a real capacidade da Davati de vender os imunizantes surge ao analisar o seu próprio site.

No catálogo, não há nenhuma menção ao imunizante da AstraZeneca. Porém outro medicamento relativo ao combate à Covid-19 aparece ofertado: o antiviral Remdesivir. Aprovado no Brasil pela Anvisa, o medicamento não é apoiado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Em abril, a cientista-chefe da entidade, Soumya Swaminathan, afirmou que, com base em cinco estudos, o remédio não mostrou redução na mortalidade ou na duração da hospitalização, e não afetou o progresso geral da doença.

Catálogo da Davati Medical Supply não contém a vacina contra a Covid-19
Catálogo da Davati Medical Supply não contém a vacina contra a Covid-19

A Food and Drug Administration (FDA), agência regulatória dos EUA, também optou pela aprovação do medicamento, ainda no ano passado. O remédio chegou a ser usado pelo ex-presidente norte-americano Donald Trump depois que ele testou positivo para Covid-19.

Além do Remdesivir, a Davati diz ofertar a vacina da Influenza, contra a gripe comum. Máscaras, luvas e outros equipamentos de proteção individual (EPI) também são vendidos.

O site, inclusive, tem visual e marca iguais aos da empreiteira Davati Building Products, localizada no mesmo endereço que a homônima, na cidade de Round Rock, no Texas. A empresa também pertence ao empresário Herman Cárdenas, o CEO da Davati Medical Supply.

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Oferta confirmada

Ao jornal O Globo, Herman Cárdenas confirmou que a Davati ofereceu 400 milhões de doses de AstraZeneca ao Ministério da Saúde e que Dominguetti constava da proposta.

“Estou ciente disso. Nos disseram para incluí-lo, mas ele [Luiz Paulo Dominguetti Pereira] não estava nos representando. A Davati não tinha conhecimento de quem ele era, então presumimos que ele era representante deles”, disse o CEO.

O presidente da companhia afirmou também não ter recebido respostas do Ministério da Saúde.

“Seu governo terá que conduzir suas investigações para verificar se o sr. Dominguetti pode provar suas alegações. Tudo o que posso te dizer é que nunca nos pediram para aumentar nossa oferta em US$ 1 e que nem o vendedor nem a Davati teriam considerado um pedido desses”, completou.

Outro lado

O Metrópoles procurou a Davati Medical Supply e Luiz Paulo Dominguetti Pereira para se manifestarem sobre a publicação desta reportagem, mas não houve respostas até a última atualização. O espaço segue aberto.

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