Comerciante reclama que falta apoio do Carrefour após protesto em POA

Durante o protesto, manifestantes indignados tentaram invadir o local e depredaram lojas do piso inferior

atualizado 21/11/2020 18:09

JEFFERSON BERNARDES/ESTADÃO CONTEÚDO

Porto Alegre – O supermercado da rede Carrefour onde João Alberto Silveira Freitas, 40, o João Beto, foi assassinado na quinta-feira (19/11) amanheceu neste sábado (21/11) com as marcas do protesto contra o crime praticado por dois seguranças do local. Localizado na zona norte de Porto Alegre, a loja foi o alvo principal do protesto antirracista realizado na noite dessa sexta-feira (20/11). João Beto era negro e foi espancado até a morte por dois seguranças no Carrefour.

Durante o protesto, manifestantes indignados tentaram invadir o local e depredaram lojas do piso inferior. O pelotão de choque da Brigada Militar (BM) entrou em ação e o protesto virou um confronto entre manifestantes revoltados e os policiais. Com bombas de gás lacrimogêneo e efeito moral, a polícia tentava dispersar os manifestantes, que respondiam com pedras, fogos de artifício e pequenos incêndios nas grades do supermercado.

Na manhã deste sábado, enquanto o corpo de João Beto era velado a cerca de um quilômetro e meio do Carrefour, trabalhadores e lojistas recolhem os escombros e tentam consertar os estragos causados pelo confronto. As marcas da manifestação ainda podiam ser vistas por quem passasse.

Eram pichações e cartazes contra o racismo e pedindo o fechamento do Carrefour, grades no chão e cartazes espalhados que lembravam diversas pessoas negras que foram vítimas da violência que mata uma pessoa negra a cada 23 minutos no Brasil.

Vontade de chorar

A parte mais danificada foi o piso inferior do supermercado, onde estão localizadas pequenas empresas que alugam o espaço. O prejuízo atingiu comerciantes como Fernando Souza, 59, que há 20 tem uma lavanderia no local. “Dá vontade de chorar”, reclamava Souza.

Uma das suas principais reclamações é a falta de suporte do Carrefour aos locatários. “Ninguém avisou que não iria abrir aqui, não tinha segurança, nada. O Carrefour está intacto e a gente não tem suporte nenhum”, afirmou Souza, lembrando a falta de apoio da empresa que mensalmente recebe o aluguel dos pequenos comerciantes.

Souza avalia que os problemas da rede são antigos e resultado de uma política empresarial que desvaloriza e não prepara quem trabalha com eles para atuar com o público. “A gestão do Carrefour prioriza pagar mal aos funcionários e cobrar caro. Ninguém que trabalha aí é feliz”, situação que, de acordo com ele, gera diversos atritos entre funcionários e clientes.

Pouco treinamento

A má gestão e pouco treinamento dos funcionários é atestada pela secretária Lisiane Kipper, 44. Segundo ela, a funcionária que aparece no vídeo com os seguranças espancando João Beto é um exemplo. “Ela é uma das mais mal educadas, eu mesma já tive problemas com ela”.

Kipper passeava com seus dois cachorros da raça poodle na manhã de sábado quando chegou em frente ao estacionamento do Carrefour. Ela conta que costumava deixar o carro no estacionamento do supermercado, mas justamente no dia do protesto estacionou o veículo em outro lugar.

Embora incomodada com as cenas de destruição que podem ser vistas após a manifestação de indignação dos manifestantes, Kipper diz que o mercado já tem um histórico negativo. “Sempre acaba nisso, mas é que o Carrefour merecia. Já são seis processos que respondem”, afirmou ela, lembrando outros casos de agressão conhecidos da rede.

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