Desejo de justiça e comoção marcam enterro de João Beto em Porto Alegre

Familiares, amigos e pessoas solidárias ao homem negro assassinado por seguranças do Carrefour participam da despedida

atualizado 21/11/2020 14:21

cliente agredido e morto por seguranças do supermercado CarrefourReprodução/Redes Sociais

Porto Alegre – O velório de João Alberto Silveira Freitas, o João Beto, levou ao cemitério São João familiares, amigos e pessoas solidárias ao homem negro assassinado por seguranças do supermercado Carrefour. Além da saudade, o sentimento de indignação e clamor por justiça estavam presentes nos rostos e nas falas de cada um dos presentes.

Primo de João Beto, Flávio Jones Machado, 41 anos, foi um dos primeiros a chegar ao Carrefour após o crime. “Quando eu cheguei, ele já estava na ambulância e os dois seguranças dentro do camburão, que era onde deveriam estar.” O parente da vítima explicou qual o problema de saúde que levou Beto a receber um pecúlio de aproximadamente R$ 400 por mês. “Ele era ajudante de caminhoneiro e uma caixa caiu na mão dele, e ficou sem conseguir movimentar direito a mão.”

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Como o valor do pecúlio não era suficiente para bancar a dívidas mensais, Beto foi procurar outras alternativas de conseguir renda. “Ele trabalhou em muita coisa, inclusive vendendo frutas na sinaleira”, afirma Machado. Para o primo da vítima, foi justamente em razão desse trabalho que podem ter iniciado problemas com os seguranças do supermercado. “Não sei se não tinha uma rusga antiga. Porque ele ia sempre no mercado justamente para comprar frutas que depois vendia no sinal.”

Beto era pai de cinco filhos, frutos de dois relacionamentos anteriores ao que tinha com Milena Borges Alves, 43, atual esposa que estava com ele no dia do crime. Segundo Flávio, o primo Beto gostava de futebol. Morador da Vila Farrapos, um bairro próximo à Arena do Grêmio, participava da torcida organizada Geral do Grêmio.

Há dois anos, ele se mudou para a Vila IAPI para morar com Milena. O novo bairro é berço do São José, um time tradicional de Porto Alegre, e ali se aproximou da torcida organizada do clube. A participação e identificação com o São José tornou rapidamente Beto uma figura identificada e querida no time. Membro da Farrapos, Carlos Eduardo Borges, lembra do amigo brincalhão e sempre presente nos encontros do grupo. “Vamos continuar honrando a memória dele no estádio e esperamos justiça”, diz Borges. O grupo está preparando uma bandeira em homenagem a Beto.

Borges também vai ao encontro da impressão que o primo de Beto sentia, de uma animosidade antiga dos funcionários do Carrefour com Beto. “A gente sempre ia ali em dias de jogos e eles olhavam torto para nós, alguns seguranças nos seguiam”, conta Borges, que também é negro.

O São José também prestou homenagem a Beto, com a presença de dirigentes do clube no velório. O conselheiro do São José Rodrigo Santos Paines não mediu as palavras para classificar o assassinato como um ato racista. “Quem quer negar que isso foi racismo está negando o próprio racismo”, classificou.

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