Goiás supera 10 mil mortes por Covid-19; centenas aguardam por UTI

Com situação de calamidade em 235 dos 246 municípios, estado já registrou óbito por variante do coronavírus; cepas graves foram confirmadas

atualizado 18/03/2021 7:36

coveiros de cemitério de goiânia usam roupas especiais para enterrar vítimas da covid-19 em goiásVinícius Schmidt/Metrópoles

Goiânia – Na noite desta quarta-feira (17/3), Goiás superou a marca de 10 mil mortes confirmadas pela Covid-19, em meio ao colapso no sistema de saúde. É como se a doença tivesse dizimado quase a metade da população de Abadiânia, no Entorno do Distrito Federal.

No total, o estado já registrou 445.676 casos da Covid. Outras 270 mortes ainda são investigadas por suspeita de tere sido provocadas por complicações do coronavírus. Nesta quarta-feira, 573 pessoas agonizavam na fila à espera de vaga por UTI ou enfermaria para tratamento contra a doença em cidades goianas.

Às 22h39 o sistema da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SESGO) registrou 10.024 mortes. O estado bateu a nova marca apenas 9 dias depois de serem registrados 9 mil óbitos. Foi o menor intervalo de tempo de confirmação de mil mortes no estado desde o início da pandemia.

Em evento esta semana, ao anunciar decreto com medidas restritivas e fazer apelo pela conscientização das pessoas, o governador Ronaldo Caiado (DEM) já havia alertado que a curva de mortes ganhava velocidade.

Famílias desoladas

Conforme a Covid-19 avança, cada vez mais goianos sentem na pele a dor de perder um ente querido ou uma pessoa  próxima. As estatísticas se tornam mais reais, palpáveis. Ganham calor e fazem doer. O que era apenas número passa a ser nome.

O músico Rafael Borges, de 20 anos, está entre as milhares de famílias devastadas pela Covid. A mãe dele, Selma Maria Borges de Oliveira, de 46, morreu, no último domingo (14/3), no Hospital Regional de São Luís Montes Belos, no centro goiano. Ele tocou hino preferido dela durante o enterro.

“É uma melodia que nunca mais se apagará da minha mente”, disse.

Veja vídeo:

O vereador por Goiânia Nataniel de Sena Soares, o Cabo Senna (Patriota), também está entre os que ainda tentam assimilar a tragédia da doença. No dia 10/2, ele perdeu a mãe e o irmão, que foram enterrados em um período de quatro horas. O pai morreu oito dias depois. “A Covid dizimou a minha família em menos de dez dias”, afirmou ao Metrópoles.

Aceleração de contágio

Cada vez mais, o coronavírus avança em estágio acelerado de transmissão em Goiás. A metade das mortes foi confirmada nos sete primeiros meses da pandemia, de 12 de março a 7 de outubro do ano passado.

Os cinco meses seguintes foram suficientes para o estado bater a mesma marca de óbitos pela Covid, em meio ao reflexo da desarticulação junto aos municípios goianos, que se estendeu ao longo de 2020, para enfrentamento contra a pandemia.

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Calamidade

Retrato da articulação tardia, o mapa da gravidade da pandemia só passou a ser divulgado, em 17 de fevereiro, pela SESGO. É o único levantamento técnico atualizado semanalmente, para orientar as prefeituras a tomarem medidas contra o avanço do coronavírus, considerando o contexto de todas as regiões.

O monitoramento estipula indicadores e classificações para as regiões em níveis de alerta, crítico e calamidade. Para cada uma dessas categorias, são aconselhadas medidas de isolamento que ficam a cargo e decisão das prefeituras. No total, 235 dos 246 municípios goianos estão no pior nível.

Variantes graves

Na mesma semana em que foi lançado o mapa da pandemia, houve confirmação oficial de oito variantes do coronavírus em Goiás, logo após resultado de exame comprovar primeiro caso de infecção por nova linhagem. O estado também já registrou a primeira morte por variante.

As cepas consideradas mais graves já circulam em Goiás desde o mês passado. São a de Manaus, conhecida como a mais transmissível e que aumenta a contaminação no estado, e a do Reino Unido, vista como a mais mortal pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

A variante britânica, segundo estudo de Londres, aumenta em 61% o risco de morte. As demais linhagens do vírus identificadas, em Goiás, “não têm importância epidemiológica”, como diz o secretário estadual de Saúde, Ismael Alexandrino. Mas, segundo ele, todo o estado precisa continuar em alerta por causa da situação de calamidade.

O secretário disse, ainda, que nenhuma das pessoas na fila está sem atendimento. Segundo Alexandrino, elas recebem assistência em leitos que não são exclusivos para coronavírus nas unidades de origem do pedido até que sejam transferidas para hospitais dedicados aos casos confirmados de Covid-19.

O pior, agora, é a presença das variantes do novo coronavírus. As cepas que já circulam livremente pelo estado são mais agressivas e matam pessoas mais jovens. Nesta quarta (17/3), a Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia informou que exames feitos pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás (HC-UFG) em doentes de Covid-19 indicou a presença da cepa de Manaus (P1) em 93% das amostras.

Cenário assustador

A presidente do Sindicato dos Médicos do Estado de Goiás (Simego), Franscine Leão, disse que a situação é ainda mais preocupante porque tem aumentado a quantidade de jovens internados e mortos por contaminação do vírus. Hospitais viraram campo de guerra.

O caos deve aumentar ainda mais, se considerada a previsão da primeira pesquisa nacional Os Médicos e a pandemia de Covid-19, feita pela Associação Médica Brasileira (AMB). No país, segundo o levantamento, sete em cada 10 profissionais de medicina da linha de frente apontaram tendência de aumento de mortes neste ano.

A pesquisa também mostra que oito em cada 10 médicos veem a pandemia neste ano tão grave quanto em 2020, ou até mesmo pior. Divulgada no mês passado, a pesquisa online teve participação de 3.882 trabalhadores da categoria.

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