Césio-137: saiba o que aconteceu com os sobreviventes da tragédia

Os sobreviventes da tragédia com o Césio-137 em Goiânia convivem, até hoje, com as consequências da contaminação

atualizado

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Hugo Barreto/Metrópoles @hugobarretophoto
Lourdes das Neves abraça os porta-retratos da filha, Leide das Neves Ferreira, que se tornou símbolo do acidente radiológico com Césio-137, em Goiânia, em 1987 - Metrópoles
1 de 1 Lourdes das Neves abraça os porta-retratos da filha, Leide das Neves Ferreira, que se tornou símbolo do acidente radiológico com Césio-137, em Goiânia, em 1987 - Metrópoles - Foto: Hugo Barreto/Metrópoles @hugobarretophoto

Quase quatro décadas após o maior acidente radiológico já registrado no Brasil, os sobreviventes do desastre com o Césio-137, em Goiânia, ainda convivem com marcas profundas – físicas e emocionais – deixadas pela contaminação.

O episódio teve início em 1987, quando uma cápsula contendo material radioativo foi retirada de um aparelho de radioterapia abandonado. Sem saber do risco, moradores manipularam o pó de brilho azulado, espalhando a substância por diferentes pontos da cidade.

A tragédia mobilizou uma das maiores operações de saúde pública do país: 112,8 mil pessoas foram monitoradas, 249 apresentaram algum nível de contaminação e 129 precisaram de acompanhamento médico.


Memórias radioativas

A história completa do acidente com Césio-137 é contada na série de reportagens especiais do Metrópoles “Memórias radioativas”. Confira:


Sobreviventes

  • Odesson Alves Ferreira

Irmão de Devair, Odesson tinha 32 anos quando foi contaminado. Ele entrou em contato com o material ao manuseá-lo na casa do irmão, sem saber dos riscos. Chegou a trabalhar por oito dias como motorista de ônibus enquanto estava contaminado, transportando cerca de mil pessoas por dia.

Internado em isolamento por meses, sofreu graves consequências físicas: perdeu a palma da mão, que precisou ser reconstruída, e teve parte do dedo indicador amputada. Hoje, mora no interior de Goiás e atua como ativista pelos direitos das vítimas.

Odesson Alves Ferreira -Metrópoles

  • Lourdes das Neves

Mãe de Leide das Neves (vítima-símbolo do acidente), Lourdes perdeu a filha na tragédia e teve a casa destruída por contaminação, sendo transformada em lixo radioativo. Após o acidente, dedicou-se a cuidar do marido, Ivo, que enfrentou depressão profunda.

Atualmente, vive em uma casa doada pelo governo de Goiás, em Aparecida de Goiânia. Hoje tem 74 anos.

  • Luiza Odete

Tia de Leide das Neves, Luiza teve contato direto com o material após ser chamada pela sobrinha para ver a “pedrinha iluminante”. Durante uma brincadeira, Ivo pegou um pedaço de papel com o material radioativo e passou no pescoço de Odete, que lhe causou lesões graves, principalmente no pescoço.

Ela ficou internada por meses e carrega cicatrizes permanentes da contaminação. Hoje tem 66 anos.

Luiza Odete mostra cicatrizes deixadas pelo contato com Césio-137 - Metrópoles

  • Geraldo da Silva Pontes

Funcionário do ferro-velho, Geraldo ajudou a levar a cápsula até a Vigilância Sanitária, carregando o objeto no ombro por dois quarteirões. Também foi contaminado e convive até hoje com marcas físicas deixadas pela exposição.

Geraldo Guilherme da Silva Pontes exibe marcas no ombro e nas mãos deixadas pelo contato com o Césio-137, após ajudar a levar a cápsula do material radioativo à Vigilância Sanitária. - Metrópoles

Mortes

  • Leide das Neves Ferreira

Símbolo do acidente, Leide das Neves Ferreira tinha 6 anos quando entrou em contato com o pó de brilho azulado levado para casa pelo pai. Encantada, brincou com o material e chegou a ingerir a substância ao comer um ovo com as mãos contaminadas.

Ela morreu em 23 de outubro de 1987, em decorrência da exposição à radiação.

Leide das Neves Ferreira, menina que se tornou símbolo do acidente radiológico com Césio-137, ocorrido em Goiânia, em 1987 - Metrópoles

  • Maria Gabriela Ferreira

Esposa de Devair Ferreira, dono do ferro-velho onde a cápsula foi aberta, Maria Gabriela teve papel decisivo ao suspeitar dos efeitos do material e levá-lo à Vigilância Sanitária, retirando a fonte radioativa de circulação. É vista como heroína.

Ela morreu em 23 de outubro de 1987, aos 37 anos, em decorrência da exposição à radiação.

Foto em preto e branco de Maria Gabriela, vítima do Césio-137, durante tratamento. Ela morreu pouco depois - Metrópoles

  • Israel Baptista dos Santos

Funcionário do ferro-velho, Israel participou da abertura do aparelho de radioterapia e teve contato direto com o pó radioativo durante o manuseio.

Ele morreu em 27 de outubro de 1987, aos 22 anos, em decorrência da exposição à radiação.

Israel Baptista dos Santos, vítima do Césio-137 - Metrópoles

  • Admilson Alves de Souza

Também trabalhador do ferro-velho, Admilson ajudou a desmontar o equipamento e entrou em contato direto com o material contaminado, que chegou a ser exibido a outras pessoas.

Ele morreu em 18 de outubro de 1987, aos 18 anos, em decorrência da exposição à radiação.

  • Devair Alves Ferreira

Dono do ferro-velho onde a cápsula foi aberta, Devair sobreviveu aos efeitos imediatos da radiação, mas morreu sete anos depois, aos 43 anos, vítima de cirrose hepática.

Após o acidente, enfrentou depressão e sentimento de culpa. Diante das consequências da tragédia, desenvolveu alcoolismo, o que contribuiu para o agravamento de sua saúde.

Imagem colorida mostra Devair Alves Ferreira, dono do ferro-velho palco da tragédia com Césio-137 em Goiânia - Metrópoles

  • Ivo Ferreira

Pai de Leide, Ivo morreu 15 anos após o acidente. A causa foi enfisema pulmonar, agravado pelo tabagismo e por sequelas físicas e psicológicas associadas à exposição à radiação.

Ele também enfrentou depressão e sofrimento emocional após a morte da filha.

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