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Brasil

Casas Bahia: pedido de recuperação expõe pressão no varejo brasileiro

Alta no endividamento, crédito caro, avanço do e-commerce e mudança no padrão de consumo podem ajudar a explicar crise no setor

17/08/2026 15:28, atualizado 17/08/2026 15:52
Divulgação/Casas Bahia
Imagem de loja das Casas Bahia - Metrópoles

O grupo Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo com dívida de R$ 17,3 bilhões nesta segunda-feira (17/8).

O processo envolve diferentes empresas da companhia e ocorre em meio ao aumento da pressão financeira sobre o varejo brasileiro, que tem registrado dificuldade de geração de caixa, crescimento do endividamento e piora nas condições de crédito.

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O movimento não é isolado. A Marabraz, concorrente do setor de móveis e eletrodomésticos, também recorreu à recuperação judicial após acumular cerca de R$ 140 milhões em dívidas.

Os dois casos se somam a uma sequência recente de reestruturações no varejo, que inclui a Americanas, em recuperação judicial desde 2023, após crise contábil e forte aumento do endividamento.

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Os pedidos de recuperação judicial em grandes redes do setor ocorrem em um contexto de combinação de fatores que afetam o desempenho do varejo brasileiro.

De acordo com levantamento do Serasa Experian, em abril, foram registrados 60 processos de recuperação judicial envolvendo 141 CNPJs no período. No total, 43 processos foram registrados no setor de comércio.

“As empresas seguem lidando com um ambiente de crescimento mais moderado, restrições financeiras e necessidade de ajuste de suas estruturas de capital”, afirma a economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack.

Segundo ela, “soma-se a isso o aumento da incerteza para setores mais expostos ao mercado externo, diante das mudanças recentes no cenário tarifário internacional, fator que pode afetar investimentos, planejamento e geração de receita nos próximos meses”.

Endividamento das famílias

Um dos principais elementos que pode explicar a pressão no varejo é o endividamento das famílias, que permanece elevado e limita a capacidade de consumo.

Com maior parte da renda comprometida com dívidas, há redução do espaço para compras parceladas e de bens de maior valor, segmento que concentra parte relevante do faturamento das grandes redes.

De acordo com a Confederação Nacional do Comércio (CNC), o endividamento das famílias chegou a 82% em julho, sexto mês consecutivo de alta.

O governo tem apostado em programas para desafogar o orçamento familiar e estimular o consumo, como é o caso do Desenrola, no entanto, por ser uma medida nova, ainda não é possível medir os impactos do programa na inadimplência.

Mudança do padrão de consumo

Outro fator associado ao cenário é a mudança no padrão de consumo. O crescimento das despesas com itens essenciais, como alimentação e serviços básicos, tem reduzido a participação de compras de bens duráveis no orçamento das famílias.

Eletrodomésticos, móveis e eletrônicos, que historicamente dependem de financiamento e crediário, passam a ter demanda mais sensível ao aperto financeiro das famílias.

Além disso, o avanço do comércio eletrônico alterou a dinâmica competitiva do setor. A expansão de marketplaces e plataformas digitais aumentou a concorrência, pressionando margens e ampliando a disputa por preço, logística e prazo de entrega.

Alta dos juros

O ambiente de crédito também influencia o desempenho do setor. A taxa básica de juros permanece em patamar contracionista, a 14% ao ano, o que encarece o custo de financiamento das empresas e reduz o acesso das famílias ao crédito.

Esse cenário afeta diretamente o modelo de vendas parceladas, amplamente utilizado no varejo brasileiro, especialmente em segmentos de maior valor agregado.

A combinação desses fatores pode ajudar a explicar o aumento das dificuldades financeiras no setor e a sequência recente de pedidos de recuperação judicial entre grandes redes varejistas.

No caso das Casas Bahia, o pedido de recuperação judicial ocorre em meio a um processo de reestruturação mais amplo, que busca reorganizar passivos e melhorar a estrutura de capital da companhia. Já a Marabraz também tenta reorganizar suas dívidas em um cenário de menor crescimento das vendas e maior pressão financeira.

A situação do varejo brasileiro tem sido acompanhada de perto por analistas e pelo mercado, já que o setor é um dos mais sensíveis às condições de crédito e renda.

Na semana passada, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), informou que o setor varejista avançou 0,5% em junho, ante pequena alta de 0,1% em maio. No ano, o crescimento do setor foi de 1,8%.

A pesquisa reflete um setor que tem avançado lentamente, sofrendo os impactos do crescente endividamento e da alta dos juros.