Cadê o superministro que estava aqui? Guedes encolhe a cada nova bronca

O presidente Jair Bolsonaro desconstrói a agenda liberal de seu "Posto Ipiranga" e sua queda já é esperada pelo mercado financeiro

atualizado 16/09/2020 9:58

Rafaela Felicciano/Metrópoles

O presidente Jair Bolsonaro conquistou a elite econômica do país e o mercado financeiro ao jurar adesão à agenda liberal agressiva de Paulo Guedes, mas hoje pouca gente acredita que o personagem “Posto Ipiranga” tenha existido de verdade em algum momento. Entre o discurso e a realidade, o superministro Guedes foi conduzido pelo presidente ao caminho da fritura já trilhado por outros auxiliares, como os ex-ministros Santos Cruz, Luiz Henrique Mandetta e Sergio Moro.

A desconstrução de Paulo Guedes vem se dando de maneira cada vez mais ruidosa e hoje mercado e mundo político estão preparados para a sua queda. Até porque a agenda liberal não parou em pé e a presença de seu idealizador começa a se tornar incômoda nos círculos do poder agora ocupados pelo Centrão.

Guedes teve liberdade para montar sua superequipe, englobando ministérios como Fazenda e Planejamento em uma só pasta, mas sofreu resistência para implementar sua política econômica em vários pontos centrais.

Quando teve mais prestígio, no início da gestão, conseguiu aprovar a reforma da Previdência, mas sem sua sonhada capitalização. Desde então, viu o presidente desautorizar falas suas e de seus secretários em temas como a criação de uma nova CPMF e, na mais recente crise, do Renda Brasil.

As derrotas de Guedes na queda de braço com Bolsonaro começaram quando o presidente ainda nem tinha sido eleito e se recuperava no hospital da facada que havia sofrido na campanha.

Em alta após ter sido confirmado como ministro em caso de vitória, Guedes deu uma entrevista dizendo que seria necessária a criação de um novo imposto, nos moldes da CPMF. Pelo Twitter, em 19 de setembro de 2018, Bolsonaro o desautorizou e garantiu: “Chega de impostos é o nosso lema!”, numa posição que tem sido mantida pelo presidente.

Taxar igrejas? Não!

O primeiro pito público do presidente em um dos auxiliares de Guedes veio em 29 de abril de 2019, quando Bolsonaro divulgou longo vídeo nas redes sociais criticando a fala do então secretário da Receita Federal, Marcos Cintra, sobre planos para incluir igrejas na cobrança de um novo tributo que acabaria com a contribuição previdenciária que incide sobre a folha de pagamento. A ideia foi sepultada.

Não muito tempo depois, em 11 de setembro do primeiro ano de governo, Cintra, que formulava a proposta de reforma tributária, caiu após voltar a defender um imposto sobre movimentação financeira para salvar as contas públicas.

Levado pela pandemia

Com a chegada do coronavírus e a adoção de um orçamento de guerra com gastos facilitados, Guedes perdeu de vez qualquer condição de “super”, que já vinha abalada pelo “pibinho” de 1,1% em 2019, o menor em 3 anos.

O governo não fez força para manter sua proposta inicial de auxílio emergencial, de R$ 200, e uma ala chamada de desenvolvimentista começou a falar abertamente na necessidade de aumentar os gastos públicos para tirar o país da crise – o contrário da receita liberal de Guedes.

O momento simbólico dessa troca de lugar do poder de decisão foi em 22 de abril deste ano, quando o ministro da Casa Civil, Braga Netto, lançou em cerimônia no Palácio do Planalto o programa de recuperação econômica Pró-Brasil. O ministro da Economia não estava no local nem participou da formulação do programa.

Semanas antes, em 3 de março, Guedes havia perdido o poder de movimentar o Orçamento, abrir crédito suplementar e especial ou fazer o remanejamento de recursos entre pastas e órgãos, em decisão ancorada na “necessidade de avaliação do alcance e da aplicabilidade da impositividade do orçamento”.

A certeza de que não estava tudo bem veio em 11 de agosto, quando secretários especiais de Desestatização e Privatização, Salim Mattar, e o de Desburocratização, Gestão e Governo Digital, Paulo Uebel, anunciaram suas demissões e Guedes admitiu que a “debandada” acontecia porque a prometida agenda de privatizações e reformas não andava.

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Desde então, o mercado que tanto confiou em Guedes passou a fazer planos sem levá-lo em consideração. “Uma eventual saída, que já foi motivo de pânico, já é mais bem vista”, afirma o economista Matheus Portela, sócio-fundador da Rio Claro Investimentos de Brasília.

“Para pacificar o mercado, a população e parlamentares, o que se espera da equipe econômica é maior capacidade de diálogo com o Congresso, fim das declarações e vazamentos de informações polêmicas à imprensa e uma postura mais ponderada na condução econômica, mantendo a responsabilidade fiscal, mas aceitando a inevitabilidade de se adotar medidas de estímulos”, analisa ele, que não vê no atual ministro o nome mais indicado para seguir esse caminho.

“Sua substituição pelo atual presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, por exemplo, representaria uma gestão de viés econômico e capacidade técnica semelhantes, porém mais ponderada e com melhor capacidade de articulação”, aposta o gestor de investimentos.

Brasil sem Renda Brasil

A fase “fogo alto” da fritura de Guedes começou em 26 de agosto, quando Bolsonaro fez as primeiras críticas públicas aos planos da equipe de Guedes para financiar o Renda Brasil ao final da vigência do Auxílio Emergencial.

“Ontem discutimos a possível proposta do renda Brasil e eu falei ‘tá suspenso’. Vamos voltar a conversar. A proposta que a equipe econômica apareceu pra mim não será enviada ao parlamento. Não posso tirar de pobres para dar para paupérrimos”, disse Bolsonaro.

Setembro começou com o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), mostrando todo o seu descontentamento com Guedes, apesar de viver um momento de diálogo com o governo.

“A gente tinha um almoço com o Esteves [Colnago, assessor especial da Economia] e com o secretário do Tesouro [Bruno Funchal] para tratar do Plano Mansueto, e os secretários foram proibidos de ir à reunião”, disparou Maia, logo após receber do governo uma versão tímida da Reforma Administrativa que a equipe de Guedes formulou. “Então, não tenho mais diálogo com o ministro Paulo Guedes”, afirmou, isolando ministro dentro e fora do governo.

Nesta semana, a irritação de Bolsonaro com sua equipe econômica chegou ao ponto do cancelamento do Renda Brasil e manutenção do velho Bolsa Família, que o governo queria deixar no passado.

Discursos em rota de colisão

Ponto central do atrito, o congelamento das aposentadorias ainda não foi abandonado por Guedes, num prenúncio de que a relação não caminha para a pacificação. Após o último pito, o ministro reafirmou nessa terça (15/9) que é preciso rever a indexação – quando o salário mínimo, por exemplo, é reajustado com base na inflação – e que, “se quiser, pode manter o reajuste automático do BPC, do salário mínimo, mas agora pense duas ou três vezes sobre isso”.

“Quarenta milhões de desempregados. Cê vai ficar dando aumento do salário mínimo? Em vez de 40 [milhões], vai para 50 [milhões], 60 milhões de desempregados, porque está em uma situação de pandemia, o PIB caiu”, provocou, em videoconferência.

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