Bolsonarismo pressiona para que EUA classifique CV e PCC como terroristas

Governo brasileiro teme impactos políticos e financeiros no Brasil caso os Estados Unidos levem o plano adiante

atualizado

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CV e PCC
1 de 1 CV e PCC - Foto: Arte/Metrópoles

A possibilidade de os Estados Unidos classificarem o Comando Vermelho (CV) e o PCC (Primeiro Comando da Capital) como organizações terroristas conta com o apoio do bolsonarismo, que tem feito lobby pela mudança.

Há pelo menos um ano, um grupo de políticos liderado pelos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) Eduardo Bolsonaro, ex-deputado, e Flávio Bolsonaro (PL-SP), senador e pré-candidato ao Planalto, vem fazendo uma espécie de campanha, em especial por meio das redes sociais, para que isso ocorra.

Nesta semana, o governo dos Estados Unidos anunciou que considera as duas facções como “ameaças à segurança regional”. Ao comentar o assunto, o senador Flávio Bolsonaro aproveitou para alfinetar o governo Lula ao acusar a gestão de proteger esses grupos.

“Combater o narcoterrorismo, sufocar o financiamento dessas facções e devolver a liberdade aos cidadãos deveria ser prioridade do governo Lula, mas o que vemos é o oposto. Lula protege os “anjinhos” e ainda faz lobby para evitar que os Estados Unidos classifiquem PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas”, disse.

Eduardo também provocou Lula. “Eu estou do lado daqueles que combatem narcoterroristas. Lula está do outro. E você?”, provocou nesta terça-feira (10/3).

O governo brasileiro é contra enquadrar essas organizações como terroristas. No entendimento do Planalto, há uma diferença jurídica nos termos, e a mudança poderia abrir margem para ataques à soberania do país.

O bolsonarismo, por outro lado, tem atuado junto ao governo dos EUA em prol da pauta. A articulação inclui agendas internacionais com discursos puxados por figuras influentes. Um dos mais recentes foi em El Salvador. Flávio e Eduardo estiveram no país, em novembro, para se reunir com o presidente Nayib Bukele, considerado por eles um exemplo a ser seguido no combate ao crime organizado.

Desde que assumiu a Presidência, em 2019, Bukele impôs um modelo radical de combate ao crime, ancorado em prisões em massa, estado de exceção permanente e vigilância militar constante.

Em declaração recente, o bolsonarista Paulo Figuereido, visto como aliado de Eduardo, afirmou que os dois estão “há mais de um ano trabalhando para recebermos ajuda e libertar a população brasileira do jugo do CV e PCC. Do outro lado, um lobby do governo Lula pesado em favor de quadrilhas narcoterroristas junto ao governo americano. Desesperador”.

Em maio do ano passado, Flávio entregou um dossiê a integrantes de uma comitiva dos EUA que liga facções ao terrorismo. O documento indica conexões dessas organizações com grupos internacionais, como o Hezbollah.


O que é o PCC e o CV?

  • PCC e CV são siglas de duas das principais facções criminosas do Brasil.
  • O Primeiro Comando da Capital (PCC) é um grupo criminoso criado na década de 90, em São Paulo, por detentos da penitenciária Casa de Custódia de Taubaté. Com o tempo, o grupo foi crescendo e tornou-se uma grande facção criminosa.
  • Já o Comando Vermelho (CV) surgiu nos anos 70, também dentro do sistema prisional, mas no Rio de Janeiro, no Instituto Penal Cândido Mendes. O grupo também se consolidou no tráfico e se tornou a maior facção criminosa carioca.
  • Ambas são envolvidas principalmente com tráfico de drogas, armas, lavagem de dinheiro e crimes organizados.
  • Hoje, elas possuem atuação em vários estados brasileiros e também em países da América do Sul.
  • Durante décadas, as duas facções foram rivais e disputaram rotas de tráfico e áreas de influência no Brasil. Essa rivalidade contribui até hoje para conflitos violentos em diferentes regiões do país, sobretudo dentro de presídios e em áreas dominadas pelo tráfico.

EUA busca classificar PCC e CV como grupos terroristas

Nesta terça-feira (10/3), o Departamento de Estado dos Estados Unidos disse que considera o PCC e o CV como “ameaças significativas à segurança regional”, devido ao envolvimento com tráfico de drogas, violência e crime transnacional.

Desde o ano passado, o governo norte-americano avalia classificar as duas facções como organizações terroristas internacionais. A ação faz parte das medidas do governo Trump contra o tráfico internacional de drogas na América Latina.

Entretanto, não se sabe se a intenção de tornar as facções criminosas brasileiras em grupos terroristas tem a ver com o lobby da família Bolsonaro.

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Marco Rubio e Mauro Vieira em Washington
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Governo brasileiro tenta impedir

O governo brasileiro tenta impedir que a intenção dos EUA venha a se tornar realidade.

Uma das justificativas seria a de que o PCC e o CV não se enquadram na lei que trata sobre terrorismo no Brasil, em que a prática é tipificada como crimes motivados por razões religiosas, ideológicas, políticas ou de cunho preconceituoso ou xenofóbico.

Outro ponto que deixa o governo brasileiro em alerta é o impacto que a classificação poderia causar na economia brasileira. Isso porque abriria brecha para o bloqueio de ativos financeiros e outras restrições aos sistemas financeiros do Brasil, além da limitação de transações financeiras.

A classificação também pode abrir brechas para intervenções do governo dos EUA em território brasileiro.

O assunto deve ser uma das pautas entre Lula e Trump no encontro que deve ocorrer em breve, na Casa Branca. A expectativa era que a reunião acontecesse em março, mas, devido às agendas dos dois presidentes, uma data ainda não foi confirmada.

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