“As vidas só importam na zona sul do Rio”, diz mãe de Kathlen

Segundo os pais da jovem, tratamento dado ao caso e às pessoas da zona norte é diferente do oferecido para quem vive na área nobre da cidade

atualizado 10/06/2021 13:31

Aline Massuca/Metrópoles

Rio de Janeiro – “A impressão que eu tenho é de que as vidas só importam na zona sul. A gente não vê a polícia agindo na zona sul da mesma forma que se comportam depois do túnel Rebouças (principal ligação da zona sul com as zonas norte e central da cidade).” O desabafo é de Jaqueline de Oliveira, mãe de Kathlen Romeu, jovem gestante de 24 anos que foi assassinada com um tiro de fuzil quando visitava a avó no Complexo do Lins, na zona norte. Jaqueline participou do Encontro com Fátima Bernardes nesta quinta-feira (10/6).

Kathlen era a filha única de Jaqueline e Luciano Gonçalves. A jovem nasceu e cresceu no Complexo do Lins e havia se mudado do local há apenas um mês e meio, após descobrir que estava grávida. Durante o programa da TV Globo, os pais de Kathlen debateram a violência na comunidade, a sensação de insegurança e a falta de justiça.

“Eu espero ser a última mãe que vem ao seu programa para falar de um filho assassinado”, disse Jaqueline para a apresentadora. “Não entendo como um tiro no braço mata alguém? Tem alguma coisa errada!”, completa.

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“A polícia diz que foi recebida a tiros. A gente tem que ficar assim, afirmando a todo momento que somos pessoas do bem. A gente nunca é respeitado por nada, você não é respeitado pelo que você é, vivemos no medo. Você não é respeitado porque você é favelado”, define Jaqueline. “Estou tentando inventar uma desculpa, uma justificativa pra seguir em frente. Pra mim, ela não morreu. Essa é minha covardia”, declarou.

A luta por justiça, segundo a mãe da vítima, é o que vai motivar sua vida daqui para frente. “Se fosse um filho de desembargador, de um juiz, a resposta seria imediata. E eu quero esta resposta. Peço orações pra ela e peço Justiça. Ela era grande demais para ter morrido em vão. Querem é nos calar e não vão conseguir. Eu agradeço aqui é o espaço. A possibilidade de ter voz”, avalia.

Emocionados e de mãos dadas durante toda a entrevista, os pais da jovem relembraram a terça-feira, dia 8 de junho, quando Kathlen foi baleada. “Estava trabalhando e recebi ligações da melhor amiga dela, da minha sobrinha, do padrinho dela. Pensei: minha filha pode estar perdendo o neném, pode estar no hospital, ela pode estar perdendo o bebê. Pensei na minha mãe, que estava dentro da comunidade, e no meu irmão. Até que a amiga dela contou: ‘Tia, ela ganhou um tiro’. Eu não tinha força para levantar da cadeira, fui até meu superior e falei: ‘Me tira daqui, eu preciso socorrer minha filha!'”, lembra.

Pai da jovem, Luciano Gonçalves contou que querer Justiça não significa ter aversão à polícia e que situações como a que sua família está passando são frequentes, por conta da cultura do medo e pelo rótulo de bandido, atribuído aos moradores de favelas. “A gente tem medo de onde a gente mora. Mas a gente tem orgulho, entendeu? Pobres, mas temos orgulho, somos gente de bem, que sempre procura crescer, progredir na vida”, ressalta.

“Infelizmente, não importa de onde saiu tiro que matou minha filha. O importante é uma reformulação na maneira, no modus operandi das forças de segurança. Como disse, 99% das pessoas que residem nas comunidades são pessoas de bem, que morrem de forma truculenta, de forma desumana. Não é desacreditar a polícia, mas o sistema. Tenho amigos policiais, convivo com todos os tipos de pessoas. Fui militar e tinha policiais, gente de bem, delegados, no enterro da minha filha”, comenta.

A mãe agradece as mensagens de conforto, mas lamenta não ter se despedido da filha. “Me dizem que ela está bem, num lugar melhor. Agradeço, mas não consigo acreditar que minha filha esteja bem, porque ninguém quer morrer assim. Ela não morreu na hora. Sei que Deus dá vida e a morte, mas qualquer pessoa que morra desse jeito, brutalmente, não pediu por isso”, reflete.

Estatísticas

Levantamento da plataforma de dados Fogo Cruzado mostra que quase 700 mulheres foram baleadas, de 2017 a 2021, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Pelo menos 15 delas estavam grávidas. Oito gestantes morreram. Do total, 258 mulheres faleceram por causa de disparos de armas de fogo. O último caso registrado foi a morte de Kathlen.

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