“O vídeo foi vazado por amigo de Luciana”, revela advogada do caso

Jovem agredida por ex-namorado saiu do Brasil por alguns dias para tentar se afastar da lembrança do espancamento. Ela está no Chile

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atualizado 29/12/2018 14:54

A advogada Luciana Sinzimbra sofreu ao menos três traumas no último mês. O primeiro, e mais emblemático, foi revelado pelo segundo. Espancada pelo seu ex-namorado, o piloto Victor Augusto Amaral Junqueira, ela conseguiu juntar provas para denunciá-lo à polícia. Entre as evidências reunidas, o vídeo que ganhou manchetes no país inteiro na semana passada. E foi justamente o vazamento dessa gravação que se tornou o segundo trauma.

Não era intenção da jovem tornar o vídeo público, conta a defensora da advogada goiana, Lana Carmo de Araújo Castelões. Um dos poucos amigos da vítima que teve acesso ao material traiu a sua confiança e expôs a violência.

“Foi alguém que ela tinha relação de confiança. E ela pediu para as poucas pessoas que tiveram acesso para não compartilhar, mas essa pessoa acabou compartilhando, infelizmente”, ressaltou Lana, em entrevista exclusiva ao Metrópoles, a primeira em que alguém tão próximo da jovem agredida revela detalhes sobre o caso. Luciana, ainda abalada, preferiu não falar.

Dessa divulgação, veio o terceiro trauma. Mesmo diante de tamanha brutalidade exposta na gravação, Luciana sofreu uma série de ataques nas redes sociais. Segundo Lana, foram xingamentos – geralmente com perfis falsos –, julgamentos e fake news. “Algumas mensagens diziam que ela tinha voltado [com o ex-namorado]. É mentira. Ela nunca mais viu, não quer saber dessa pessoa nunca mais”, contou Lana.

Como resultado da sequência de ataques, Luciana resolveu sair do Brasil para tentar distanciar-se um pouco do assunto. Lana, que além de defensora é amiga de Luciana – elas trabalham no mesmo escritório de advocacia, em Goiânia –, foi junto. Elas estão em Santiago, no Chile, onde pretendem ficar até que a situação se acalme. Por telefone, Lana relatou detalhes da história. Confira:

Como está a Luciana?
Está muito abalada, é tudo muito novo para ela. Ela nunca esperou um acontecimento desses, tanta agressividade por parte do seu ex-namorado. Eles namoraram aproximadamente três anos e ele nunca havia demonstrado violência física – porque nós sabemos que existem outros tipos de violência. Houve outras demonstrações de agressividade em brigas, como verbalizações, mas nunca algo físico.

Mas ela chega a dizer no vídeo que o namorado está batendo nela “de novo”. 
Agressões nunca existiram antes. Foi a primeira. No vídeo, quando ela fala “de novo”, é que quando ela colocou o celular para gravar, as agressões físicas já tinham começado. Então ela aproveitou um momento, uma brecha para filmar. Por isso que ela fala de novo.

Qual foi a reação da Luciana logo após a agressão?
Ela ficou muito assustada, mas como foi amparada pela família e por amigos, o que é essencial quando uma mulher passa por violência doméstica, no mesmo dia foi até a Delegacia da Mulher, fez o exame de corpo de delito e o inquérito foi instaurado. A delegada agiu com prontidão, na medida do possível. A estrutura da Polícia Civil é muito ruim. A Luciana teve de rodar a cidade inteira entre a delegacia e o Instituto Médico Legal (IML), onde fez os exames. Mas com o material oferecido, foi feito o possível. Tanto é que a medida protetiva saiu no mesmo fim de semana, por intermédio da delegada plantonista e do juiz plantonista.

Muitas pessoas questionaram o fato de o ex-namorado não ter sido preso.
Ele não foi preso porque não havia flagrante. Então, por mais que haja um clamor popular, revolta, as delegadas não podem ir além da lei. Então é um caso em que se pode aproveitar da visibilidade para exigir do nosso Legislativo a produção de projetos de lei que possam severizar a tratativa da violência doméstica.

Como assim?
Nós temos a Lei Maria da Penha. Foi uma evolução. Mas nós precisamos severizar. Nesse caso, quantas mulheres são assassinadas por aí depois que procuram a ajuda do Judiciário? E por quê? Porque se não tiver flagrante, não prende. Aí o agressor fica solto e, apesar de medidas protetivas, pode ter acesso à vítima e perseguir, como vimos inúmeros casos. Não é o caso da Luciana, mas vimos uma série de casos que, após a vítima ter procurado ajuda, foi agredida novamente ou assassinada.

A Luciana pretende fazer algum movimento nesse sentido?
Ela ainda não sabe o que vai fazer, mas ela tem a intenção de ajudar outras pessoas a saírem dessa situação igual à dela. Mas ainda não sabe como.

Como o vídeo tornou-se público?
Nós sabemos quem vazou o vídeo. Mas, por enquanto, como ainda não existe uma ação formalizada contra isso, porque a Luciana pretende ajuizar uma ação contra a pessoa que deu publicidade, a gente prefere não transmitir isso.

Mas foi um conhecido?
Sim, é alguém que ela tinha relação de confiança. E ela pediu para as poucas pessoas que tiveram acesso ao vídeo para não compartilhar, mas [essa pessoa] acabou compartilhando, infelizmente.

Na sequência da divulgação, vocês viajaram. Por quê?
Principalmente para [Luciana] se afastar do caso, mas está difícil, a internet deixa a pessoa curiosa e muita gente vai atrás dela.

E o que dizem quando falam com a Luciana?
Houve apoios, mas houve uma série de ataques. Disseram que ela está defendendo Victor. Isso é uma inverdade. Ela não está defendendo. Pediu para que quem estivesse compartilhando os vídeos, parasse. Ocorre que ela queria que sua imagem fosse preservada. Ela aparece machucada, só aparece a Luciana, não o agressor. Ele fica de costas, de perfil. Então ela queria que parasse a demonstração daquela situação. Aí algumas pessoas começaram a agredir, tanto fakes como reportagens, dizendo que ela estava arrependida. Algumas mensagens diziam até que tinha voltado. É mentira. Ela nunca mais viu [o ex-namorado], não quer saber dessa pessoa nunca mais.

A pessoa de quem ela esperava receber amor e segurança, ela se vê recebendo agressão

Lana Carmo de Araújo Castelões

O problema é que apesar de não ter voltado, independentemente de isso acontecer ou não, as mulheres têm medo de procurar ajuda. Primeiro porque têm medo de morrer. De o agressor reagir e tirar a vida dela. E o segundo é a repercussão. Como estamos ainda em uma sociedade machista, tanto [por parte] de homens quanto mulheres, a mulher é agredida e ainda assim é questionada. Por que está com ele? Por que deixou chegar nessa situação? Como se não houvesse todo um contexto que tapasse os olhos daquela mulher. E depois de ser agredida, muitas vezes está em uma situação de cárcere psicológico, que impede de ter qualquer reação. A pessoa de quem ela esperava receber amor e segurança, ela se vê recebendo agressão.

E qual vai ser a reação da Luciana?
Ela quer que seja realizado o devido processo legal. Não quer vingança da população, ela quer, sim, que haja um clamor para que as autoridades acordem, talvez uma legislação mais severa, mas principalmente que seja feito o devido processo legal. Alguns crimes foram tipificados, ele vai ser processado por esses crimes. Ameaça, lesão corporal dentro da Lei Maria da Pena, violência doméstica, invasão de domicílio. Então, ele vai responder pelo processo e ser condenado ou não. Temos provas suficientes para a condenação.

O Victor é filho de um ex-prefeito [de Anápolis-GO]. Há receio de alguma influência política no processo?
Com certeza. Moramos em um país corrupto, mas posso te dizer que até o momento o inquérito foi feito e não percebemos nenhuma violação dos direitos da Luciana. Mas existe um temor. Em contrapartida, os olhos da população estão voltados para esse caso. Então provavelmente vai ser mais difícil de isso [influência política pela impunidade no caso] acontecer. Esse é o único lado positivo da publicidade do vídeo.

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