Advogada que associou fala de Alvim com nazismo: “Foi por acaso”

A primeira a fazer a ligação foi a advogada trabalhista Manuela Lourenção, de 36 anos, que assistiu ao vídeo do então secretário da Cultura

NILTON FUKUDA/AENILTON FUKUDA/AE

atualizado 17/01/2020 18:54

A associação do discurso de Roberto Alvim com o do nazismo foi feita quase por acaso. A primeira a fazer a ligação foi a advogada trabalhista Manuela Lourenção, de 36 anos, que assistiu ao vídeo em que o então secretário de Cultura parafraseia o ministro da Propaganda de Adolf Hitler, com dois amigos na noite de quinta-feira (16/01/2020).

Em conversa com o Estadão/Broadcast, Manuela disse que na hora não percebeu a referência, mas que estranhou o cenário e a trilha sonora. “Foi ao acaso, não trabalho com isso. Era meio que uma brincadeira de teoria da conspiração”, afirmou.

No vídeo em que anuncia o Prêmio Nacional das Artes, o agora ex-secretário de Cultura, Roberto Alvim, faz um discurso em tom nacionalista ao som de uma ópera de Richard Wagner, compositor alemão admirado por Hitler.

Manuela então transcreveu um dos trechos do discursos de Alvim e pesquisou no Google. O resultado a surpreendeu: uma discurso do ideólogo nazista Joseph Goebbels a diretores de teatro em maio de 1933.

A referência está no livro Joseph Goebbels: Uma Biografia, de Peter Longerich. O trecho que chamou a atenção da advogada foi: “Ou então não será nada”.

“Estava vendo o vídeo com dois amigos e começamos a ver a estética, a cruz presente brasão da Hungria… E aí um deles falou que a música é do (Richard) Wagner (compositor alemão). Pensei, ‘deve ter mais referências (ao nazismo), vamos ver'”, disse Manuela.

“A frase ‘ou então não será nada” me chamou muito a atenção, eu encafifei com ela porque parecia uma frase de efeito, e aí surgiu a biografia do Goebbels.”

Após a descoberta, por volta das 23h, Manuela foi ao Twitter e comentou que a citação de Alvim era “plágio” propagandista nazista. A música de Wagner, compositor que Hitler admite em sua biografia ter servido como uma inspiração, segundo Manuela, foi identificada por um amigo.

Ela afirmou que começou a ver a repercussão do caso, inicialmente compartilhado pelo site Jornalistas Livres, cerca de duas horas depois de sua publicação, no início da madrugada. Pela manhã, o termo “Goebbels” já era o tema mais comentado da rede social.

“Para uma pessoa fazer uma associação tão clara (com o nazismo), achei que tivesse algum respaldo do governo”, disse a advogada, que afirmou não imaginar que o secretário seria demitido.

“O conteúdo (do vídeo de Alvim) não é diferente do que prega o governo Bolsonaro. Todo o resto que ele falou, de acabar com ‘arte degenerada’, tudo está de acordo com o discurso do Bolsonaro”, afirmou a advogada.

Manuela se incomodou quando o site Jornalistas Livres começou a reivindicar o “furo”, jargão jornalístico para quem publica uma informação importante primeiro.

“O @J_LIVRES estão repetindo sem parar que deram o furo que derrubou o secretário, inclusive agradecendo os elogios da @LiraNeto_ , @gduvivier e da @cynaramenezes. Devem ter aprendido com o próprio Goebbels que ‘Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade'”, postou na tarde desta sexta-feira.

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