Inscreva-se no canal MetrópolesTV no YouTube
Foto de Blog do Noblat
Coluna Blog do Noblat
Blog do Noblat - 22 anos

Vai ter acordão com Flávio?

Bolsonaros só queriam o controle da direita, agora vislumbram assar uma pizza nos casos do banco Master e das emendas

09/10/2026 13:01
BRENO ESAKI/METRÓPOLES @BrenoEsakiFoto
Vai ter acordão com Flávio?

A candidatura de Flávio Bolsonaro nasceu da necessidade de manter sob controle o campo da direita e preservar o projeto político da família. Havia uma missão particular: caso eleito, Flávio poderia conceder indulto ao pai, Jair Bolsonaro, condenado  pela trama golpista. A Constituição dá ao presidente essa prerrogativa, embora sua aplicação possa ser questionada pelo Supremo.

Mas após os resultados do primeiro turno, em que saiu favorito e teve um Congresso eleito a seu favor, o projeto pode ganhar maiores dimensões, em que Flávio  seria o articulador de uma nova correlação de forças entre Executivo, Congresso e Supremo. Não por acaso, nesta semana afirmou que pretende usar a maioria conservadora eleita para “mudar a Constituição” e “redemocratizar” o país; Rogério Marinho, seu coordenador de campanha, se reuniu com Edson Fachin, presidente do STF; sua candidatura recebeu apoio do União Brasil, Podemos, PP e Republicanos; Michel Temer também apoia Flávio.

O caso Master, as investigações sobre emendas parlamentares, a maioria no Congresso e os conflitos do bolsonarismo com o STF – e a promessa de campanha de impeachment de ministros da Corte –  entram no cálculo político. Aqui cabe a pergunta: essa mudança de correlação de forças entre os Poderes produzirá um acordo de autoproteção do sistema político para aliviar pressões sobre parlamentares investigados, limitar o poder de investigação do STF e redefinir as regras que hoje aumentam a transparência sobre o dinheiro público?

Os fatos recentes aquecem essa hipótese. No caso Master, documentos da PF apontam Flávio como interlocutor direto de Daniel Vorcaro na negociação de recursos para o filme Dark Horse. O próprio senador é investigado no episódio. Eleito, investigações e processos por atos anteriores ao mandato de Flávio ficam suspensos durante o período da Presidência. Entretanto, aliados como Ciro Nogueira (que perderá o foro privilegiado ao não se reeleger senador), Hugo Motta, Antonio Rueda, Ibaneis Rocha ainda serão alvos de investigações.

Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles

Paralelamente, o ministro Flávio Dino, relator do caso, mantém as  operações da PF sobre suspeitas de desvio de recursos de emendas parlamentares, incluindo valores que teriam sido destinados à produção do filme. O rol de todos os envolvidos ainda é desconhecido, mas certamente a lista é extensa e envolve parlamentares do Centrão, empresários e advogados aliados.

Por fim, há uma verdadeira comoção nacional contra o Supremo, que se transformou em puxador de votos para os candidatos bolsonaristas ao Senado – e funcionou. Alexandre de Moraes é o principal alvo midiático, pois carrega o protagonismo nas condenações contra os golpistas e ao mesmo tempo se enrolou no caso Master. Dino é o principal alvo político, justamente por investigar as emendas. Ambos colecionam pedidos de impeachment no Senado engavetados por Davi Alcolumbre.

A promessa de campanha de impeachment de ministros do Supremo, como se sabe, é só  uma promessa, mas serve de pressão e o STF sabe disso. Foram interpretadas como acenos as decisões de Moraes de autorizar o regime semiaberto para Débora do Batom, condenada pelo 8 de Janeiro, e  arquivar a investigação contra o senador Marcos do Val (Avante) e os blogueiros Allan dos Santos e Oswaldo Eustáquio por suspeita de obstrução de investigação de organização criminosa e incitação ao crime. Gilmar Mendes mandou arquivar uma investigação de um suposto estupro cometido pelo deputado Alfredo Gaspar (PL), a vice na chapa de Flávio.

Muita gente viu a entrada de Michel Temer, declarando apoio a Flávio Bolsonaro, como o início de uma negociação entre o ex-presidente e a extrema-direita  para salvar Moraes, indicado ao Supremo por Temer  em 2017.  Entretanto, na tarde de ontem, o ministro do STF mandou expedir prisão de Eduardo Bolsonaro e cancelar seus passaportes para iniciar o cumprimento da pena de 4 anos e 2 meses no semiaberto por tentar interferir no caso de golpe ligado a Jair Bolsonaro. O ex-deputado está nos EUA e não será preso.  Foi um ato simbólico, uma afirmação de que acordo algum é possível com ele?

Derrubar Moraes pode ter um custo político enorme, que pode arrastar Kássio Nunes Marques, André Mendonça, Luiz Fux e Dias Toffoli, suspeitos de manter relações diretas ou indiretas com Vorcaro. E dinamitará de vez a imagem corroída do Supremo. Vale? E Dino, vai ficar parado olhando a tempestade?

Está eternizado o áudio de Romero Jucá anunciando um acordão “Com Supremo, com tudo” para derrubar Dilma Rousseff e paralisar a Lava Jato. Desta vez o contexto é bem mais complexo, ainda mais porque o articulador, caso eleito, seria um presidente golpista.

O sonho de um acordão para bolsonarismo atender seus devotos e o Centrão: o Supremo entrega a cabeça de Moraes e segue o baile; as investigações do Master e das emendas cessam (ou só alguns envolvidos caem). O governo de Flávio começa e ainda comanda as duas casas.

Pode acontecer? Sonhos são difíceis de realizar. Moraes já mostrou disposição para sobreviver e pouco lhe importa a imagem do Supremo. Dino e Mendes são aliados contra o bolsonarismo. Negociar o comando do Congresso com o Centrão sempre sai caro. São muitas possibilidades. Primeiro, porém, o bolsonarismo terá que vencer as eleições no dia 25 de outubro. E isso ainda não aconteceu.