Réquiem para Bruno Covas que partiu muito cedo
Aplicado e teimoso como o avô, Mário Covas, ex-governador de São Paulo, Bruno, prefeito da capital, escolheu triunfar e viver menos
atualizado
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Na última entrevista que concedeu a um site de notícias antes de disputar com Guilherme Boulos (PSol) o segundo turno da eleição para prefeito de São Paulo no ano passado, Bruno Covas, 41 anos de idade, viu-se diante de uma pergunta que a depender de sua resposta poderia lhe custar alguns milhares de votos.
A pergunta: se comparado com o seu, o programa de governo de Boulos destinado à juventude não seria muito melhor? Covas admitiu sem tergiversar que sim, o programa do seu adversário, nesse caso, era melhor. Advertido, mais tarde, por um amigo do perigo de ter dito o que disse, Covas retrucou:
– O que eu poderia ter respondido sem mentir? É melhor mesmo.
Covas era assim, e nisso parecido com seu avô, Mário Covas (PSDB), que governou São Paulo duas vezes e que, como ele, também morreu de câncer. Covas, o neto, era teimoso como o avô, embora mais suave do que ele. Os dois foram igualmente dedicados às tarefas inerentes aos seus cargos.
Quando soube que tinha um câncer e que ele dificilmente seria revertido, Covas, o avô, deu ordens aos médicos para que divulgassem a verdade a seu respeito. À sua época, o comum era que políticos e autoridades enfermas escondessem a doença. Os paulistas acompanharam todos os passos da agonia de Mário.
Covas, o neto, fez igual ao avô. E isso lhe granjeou a simpatia, a compaixão e o respeito dos paulistanos. Foi decisivo para que derrotasse Boulos. Os dois travaram uma batalha com rara elegância e bons modos. Jamais se atacaram abaixo da linha de cintura. Debateram com clareza os principais problemas da cidade.
Se dependesse dos médicos que cuidavam dele desde 2019, quando o tumor apareceu, Covas não teria sido candidato. E, se fosse e vencesse, nunca teria assumido a prefeitura. Jamais tiveram a esperança de curá-lo, mas queriam retardar sua morte. Covas escolheu viver menos, mas triunfar. Cumpriu-se a sua vontade.


