
Chegou a hora de a CPI da Covid pôr um ponto final no seu trabalho
Dar publicidade ao caso da Prevent Senior foi um acerto. Oferecer um palco ao palhaço Hang, um tiro no pé

À saída do seu depoimento, já despido do papel de palhaço verde e amarelo do circo de horrores do presidente Jair Bolsonaro que contabiliza a morte pela Covid-19 de quase 600 mil brasileiros, o empresário Luciano Hang, dono da rede de lojas Havan, provocado por jornalistas falou sério pela primeira vez:
“Vou pensar até o último dia para me candidatar, mas fica aberta minha possibilidade de ingressar na vida pública”.
Hang pensa em ser candidato a senador por Santa Catarina. Para isso, não lhe faltam notoriedade, apoio político e dinheiro. Seu discurso está afinado com o bolsonarismo de raiz, descoberto por ele, como disse, só em agosto de 2018. Negacionismo na veia. Economia acima de vidas. Antivacina. Pró-cloroquina.
Santa Catarina foi o estado que mais deu votos para eleger Bolsonaro. Por que não dará para Hang, que, ontem, chegou e saiu do Senado escoltado pelo filho Zero Um de Bolsonaro, Flávio, e pela tropa de choque bolsonarista? Ele usou a CPI como se ela fosse um auditório de programa de televisão. Deu-se bem.
Naturalmente, a CPI deu-se mal. Ou ela está forrada de provas para incriminar Hang no relatório final que prepara o senador Renan Calheiros (MDB-AL), ou deu um tiro no próprio pé e sem necessidade como se previa. A CPI prestou um relevante serviço ao país por tudo que apurou sobre a fraude do combate à pandemia.
Não precisava do espetáculo encenado por Hang, que, com seu histrionismo, superou de longe o dos senadores. Se insiste em permanecer sob a luz dos holofotes além do razoável, por que não chama para depor o general Braga Netto? Como chefe da Casa Civil, ele coordenou as ações do governo quando o vírus apareceu.
Por que não volta a ouvir o ministro Marcelo Queiroga, da Saúde, sobre o caso da Prevent Senior? É fato que o depoimento da advogada Bruna Morato pouco acrescentou ao dossiê sobre o caso de posse da CPI. Mas oferecer-lhe uma tribuna para que falasse ao país a respeito foi uma iniciativa acertada.
Se confirmado, chamou a atenção para um dos crimes mais hediondos da história do Brasil. Uma operadora de plano de saúde juntou-se ao governo para fazer de seus clientes, e à revelia deles, cobaias de um experimento que resultaria inevitavelmente em mortes. E tudo para evitar danos à economia. Escabroso!
A mãe de Hang foi uma dessas cobaias, mas ele não pareceu se importar. Não é coveiro. E ela já era bastante idosa, como diria Bolsonaro.
