Bolsonaro, o inimigo do sistema, a ele se alia para tentar sobreviver

O filho pródigo do Centrão à casa retorna. Bolsonaro filiou-se ao PL de Valdemar Costa Neto, ex-deputado condenado por corrupção

atualizado

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Gustavo Moreno/Metrópoles
Filiação de Bolsonaro ao PL 5
1 de 1 Filiação de Bolsonaro ao PL 5 - Foto: Gustavo Moreno/Metrópoles

Assim é se lhe parece. O presidente Jair Bolsonaro, depois de dois anos sem partido, finalmente tem um para concorrer a reeleição. E embora sua popularidade esteja em queda, é dono da caneta mais carregada de tinta do país e de uma montanha de dinheiro capaz de empurrá-lo outra vez rampa acima do Palácio do Planalto.

Em cerimônia fechada à imprensa e à circulação dos seus próprios devotos, o presidente Jair Bolsonaro filiou-se ao PL de Valdemar Costa Neto, ex-deputado condenado por corrupção, um dos personagens do escândalo do mensalão do PT. Nascido e criado no Centrão, a quem dizia abominar, ao Centrão Bolsonaro retorna.

Em 2018, quando lançado candidato a presidente da República pelo PSL em barulhenta convenção, Bolsonaro contou com a companhia do general Augusto Heleno, hoje ministro do Gabinete de Segurança Institucional. O general faltou ao ato de filiação ao PL que reuniu mais de 15 ministros.

Na verdade, foi aconselhado a não comparecer. Afinal, ele protagonizou a cena que marcou a convenção para sempre ao cantar com voz desafinada a paródia de um samba que dizia: “Se gritar pega Centrão, não fica um meu irmão”. Na letra original, era: “Se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão”.

Heleno justificou-se um ano mais tarde: “Sobre o Centrão, aquela brincadeira que eu fiz, foi numa convenção do PSL na época da campanha eleitoral. Naquela época, existia à disposição na mídia várias críticas ao Centrão. Não quer dizer que hoje exista Centrão”. Não mesmo general? Tem certeza?

O Centrão existe pelo menos desde 1988. Nasceu na Assembleia Nacional Constituinte. Faz parte do “sistema” que Bolsonaro prometeu destruir depois de eleito. Não só não destruiu como a ele rendeu-se com medo de que o Congresso abreviasse seu mandato por meio de um processo de impeachment.

“Tiramos o Brasil da esquerda. O verde-amarelo prepondera sobre o vermelho”, delirou Bolsonaro em seu curto discurso. Foi a Justiça Eleitoral que tirou ao não permitir que Lula, preso em Curitiba, disputasse a eleição sub judice como tantos prefeitos costumavam disputar.

Foram mornos os aplausos à fala de Bolsonaro, visivelmente constrangido. Seu filho Flávio, senador pelo Rio de Janeiro, que a justiça livrou do processo das rachadinhas, bem que tentou animar a plateia no papel de porta-voz feroz de uma família em apuros que vê o poder escapar-lhe por entre os dedos.

Vamos vencer o vírus, vencer qualquer traidor e qualquer ladrão de nove dedos”, proclamou Flávio. O coronavírus só não foi vencido mais cedo porque o pai do senador aliou-se a ele para deixar morrer “quem tivesse de morrer”, pois não era “coveiro”. Atrasou em meses a compra de vacinas. E daí?

O “qualquer traidor” tem nome, que Flávio preferiu não citar: o do ex-juiz e ex-ministro da Justiça Sergio Moro, recém-filiado ao Podemos e aspirante a candidato à vaga de Bolsonaro. O “ladrão de nove dedos” é o tratamento grosseiro conferido por Flávio, seus irmãos e Bolsonaro ao ex-presidente Lula.

Flávio bateu muito mais em Moro do que em Lula. Compreensível. É Moro quem subtrai votos ao pai dele, e é Lula quem Bolsonaro quer como adversário em um eventual segundo turno da próxima eleição. Moro cresce nas pesquisas deixando Ciro Gomes (PDT) para trás, Lula também cresce e Bolsonaro cai.

Na mais recente delas, divulgada ontem pelo Instituto Atlas Político, Lula continua na frente em simulação de primeiro turno (42% das intenções de voto), seguido por Bolsonaro (31%) e Moro (13%), e derrotaria qualquer um deles e os demais candidatos no segundo turno. João Doria (PSDB) segue na lanterninha.

A aprovação de Bolsonaro alcançou seu índice mais baixo desde o início de 2019: 65,3% dos brasileiros rejeitam seu governo, enquanto apenas 29,3% aprovam seu desempenho. Para 59,7% dos brasileiros, a gestão de Bolsonaro é ruim ou péssima. Só é considerada boa ou ótima por 19%.

Bolsonaro apresentou-se em 2018 como o candidato da antipolítica que varreria a corrupção e destruiria o sistema. Na eleição do ano que vem, goste ou não goste disso, será apresentado como de fato é: o filho pródigo do Centrão, pai do orçamento secreto, e o pior presidente da história.

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