
A luz está cada vez mais vermelha na campanha de Lula
Das divergências abertas com a velha guarda do PT em 2002 ao comportamento áulico dos novos auxiliares, presidente vê isolamento crescer

Em 2002, ao se eleger presidente da República pela primeira vez, Lula foi logo avisando ao estado-maior de sua campanha, reunido numa sala de hotel em São Paulo de onde acompanhara o anúncio de sua vitória: “Aqui só duas pessoas foram votadas: eu e o José de Alencar, meu vice. Mais ninguém. Não esqueçam disso. Mas não se preocupem: no governo haverá espaço para todos”.
E houve, de fato. José Dirceu de Oliveira, à época presidente do PT e deputado federal, ganhou o ambicionado cargo de chefe da Casa Civil. Antônio Palocci, ex-prefeito de Ribeirão Preto que atuara como coordenador do programa de governo, acabou nomeado ministro da Fazenda. Gilberto Carvalho, uma espécie de sombra de Lula, foi para a chefia do Gabinete Pessoal do Presidente da República.
Essas e outras pessoas com amplo conhecimento da conjuntura política e do temperamento explosivo de Lula jamais tiveram medo de expor suas opiniões, mesmo aquelas que pudessem contrariá-lo. Sabiam que a última palavra seria dele na condição de presidente, mas divergiram em diversas ocasiões. De todos, Carvalho foi o mais paciente com os desaforos que ouvia com certa frequência.
O escândalo do Mensalão do PT custou a cabeça de José Dirceu no final de 2005. A de Palocci rolou em 2006, ao estourar o caso da quebra ilegal do sigilo bancário do caseiro Francenildo Santos Costa, testemunha dos encontros secretos do ministro com empresários de Ribeirão Preto em uma mansão de Brasília. Ali, à discussão de negócios, seguiam-se festas com mulheres regiamente pagas.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesDa chamada velha guarda do PT, sobreviveram Carvalho — até abril último, secretário nacional de Economia Popular e Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego — e Paulo Okamotto, presidente do Instituto Lula e o único que “fala de igual para igual” com ele. Sem a importância que tinham antes, e à distância, Carvalho e Okamotto empenham-se nos bastidores para que Lula se reeleja mais uma vez.
Hoje, os que cercam Lula de perto estão pouco a fim de discordar dele. Comportam-se mais como áulicos, salvo raras exceções, do que como conselheiros com direito a ser escutados e levados a sério. Marisa Letícia, a segunda mulher de Lula, que já morreu, não se negava a discordar dele, mas o fazia discretamente. Janja, a atual, faz o mesmo com mais desenvoltura, embora o marido nem sempre acate suas sugestões.
Lula está diante do maior desafio de sua vida por escolha própria, e os sinais de que poderá vencê-lo escasseiam a cada dia que passa. Na pesquisa Datafolha de 19 de junho, a vantagem de Lula sobre Flávio no primeiro turno era de 10 pontos percentuais. Na mais recente pesquisa do mesmo instituto, a vantagem caiu para três pontos percentuais. É a quinta vez consecutiva que isso ocorre.

