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A implosão da mentira

Tributo ao escritor e poeta Affonso Romano de Sant’Anna

Ricardo Noblat05/03/2025 08:00, atualizado 05/03/2025 02:05
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Reprodução/Instagram
Foto colorida de Affonso Romano de Sant'Anna - Metrópoles

Mineiro de Belo Horizonte, autor de mais de sessenta livros de vários gêneros, principalmente de poesia e crônica, Affonso morreu ontem, no Rio de Janeiro, aos 87 anos de idade. Ele foi diagnosticado com Alzheimer em 2017.

Affonso foi cronista do Jornal do Brasil, de O Globo, Estado de Minas e Correio Braziliense. Embora escrito no início dos anos 1980, seu poema mais famoso, “A implosão da mentira”, jamais perdeu a atualidade.

Segue em vídeo um fragmento do poema

E, abaixo, a íntegra.

“Mentiram-me.

Mentiram-me ontem e hoje mentem novamente.

Mentem de corpo e alma completamente.

E mentem de maneira tão pungente

que acho que mentem sinceramente.

Mentem sobretudo impunemente.

Não mentem tristes,

alegremente mentem.

Mentem tão nacionalmente

que acho que mentindo história a fora

vão enganar a morte eternamente.

Mentem, mentem e calam

mas nas frases falam e desfilam de tal modo nuas

que mesmo o cego pode ver a verdade em trapos pelas ruas.

Sei que a verdade é difícil e para alguns é cara e escura,

mas não se chega à verdade pela mentira

nem à democracia pela ditadura.

Evidentemente crer que uma flor nasceu em Hiroshima

e em Auschwitz havia um circo permanentemente.

Mentem, mentem caricaturalmente,

mentem como a careca mente ao pente,

mentem como a dentadura mente ao dente

mentem como a carroça à besta em frente,

mentem como a doença ao doente,

mentem como o espelho transparente

mentem deslavadamente como nenhuma lavadeira mente ao ver a

nódoa sobre o rio

mentem com a cara limpa e na mão o sangue quente,

mentem ardentemente como doente nos seus instantes de febre,

mentem fabulosamente como o caçador que quer passar gato por

lebre

e nessa pilha de mentiras a caça é que caça o caçador
e assim cada qual mente indubitavelmente.

Mentem partidariamente,

mentem incrivelmente,

mentem tropicalmente,

mentem hereditariamente,

mentem, mentem e de tanto mentir tão bravamente

constroem um país de mentiras diariamente.”