Por que Lula não recua?
A confirmação do PT expõe a natureza de um Lula que prefere arriscar a fugir pela porta dos fundos
atualizado
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Quem insiste na tese de que Lula pode abrir mão da candidatura em 2026 por medo de “manchar a biografia” com uma derrota, ou não conhece a história do ex-metalúrgico, ou sofre de amnésia política seletiva. A fala recente de Edinho Silva, presidente do PT, apenas oficializou o que os corredores do Planalto já sabem: Lula é candidato de si mesmo, por instinto e por necessidade de sobrevivência do seu legado.
O argumento de que a idade ou o desgaste poderiam afastá-lo cai por terra quando olhamos para o retrovisor. Lula já enfrentou o deserto. Sobreviveu ao Mensalão, quando a oposição preferiu deixá-lo “sangrar” acreditando em uma derrota certa – e assistiu a ele se reeleger. Sobreviveu a 580 dias de cárcere, saindo da cela para derrotar, pela primeira vez na história, um presidente sentado na cadeira e com a máquina na mão.
Para Lula, a disputa de outubro de 2026 é a última fronteira. Ele sabe que esta é sua derradeira eleição presidencial e não pretende ser um espectador da própria sucessão. O risco de perder existe, como em qualquer democracia, mas para alguém que já foi do fundo do poço ao topo do Alvorada mais de uma vez, uma derrota eleitoral não é um horror, é apenas um capítulo possível.
Mais do que a vitória, há uma lição de simbolismo em jogo. Ao contrário do seu antecessor, que fugiu do país na véspera para não entregar a faixa ao sucessor, Lula parece disposto a oferecer o ensinamento que falta à política: a elegância democrática. Para ele, passar a faixa para um adversário eleito não seria um vexame, mas o fechamento de um ciclo de quem respeita as regras que o trouxeram até aqui.
No final das contas, o presidente não trabalha com a hipótese da renúncia. Ele trabalha com a memória de quem já foi dado como morto politicamente diversas vezes e, em todas elas, reapareceu para carregar a faixa – ou para entregá-la, com a cabeça erguida, a quem o povo escolher.
Lula sabe que a história não guarda lugar para quem foge do rito, mas imortaliza quem, mesmo na derrota, tem o brio de acender as luzes para o próximo que virá.


