Neymar e o pacto da boleiragem

Uma de suas regras básicas é não confrontar outros homens

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1 de 1 Imagem colorida de Neymar - Foto: Reprodução / X

Mais um texto sobre Neymar? Quase. É que a defesa ou o passapanismo para o jogador do Santos assemelha-se ao pacto da masculinidade. É disso que trata o texto. Acontece em todos os setores desse amontoado desigual que chamamos de sociedade. O futebol é só mais um exemplo. A maioria dos jogadores e ex-pelejadores querem Neymar na Copa. O último deles foi o eterno Ronaldinho Gaúcho: “Eu, particularmente, sou amigo e acho que é um dos maiores talentos do futebol mundial. Torço para que ele vá porque acho que pode ajudar muito”.

“Sou amigo”. Taí o ponto. Não tenho dúvidas que Neymar é o parça dos parças dos boleiros. Exemplo de sucesso financeiro. Companheiros de profissão o idolatram e ressaltam suas qualidades dentro do campo e nos bastidores dos vestiários. Alguns deles estão assistindo aos últimos jogos dos Santos? Parece que só comentaristas, boa parte moralistas de ocasião, criticam o menino Ney. Será que para a boleiragem pega mal falar mal do ex-10 da seleção?

Aí entra o pacto da masculinidade, esse acordo silencioso entre homens que ajuda a perpetuar padrões de poder e comportamento. Uma de suas regras básicas é não confrontar outros homens. Vacilou? Pois é, acontece. Se as críticas pesarem, detone a imprensa e acuse haters. Se não funcionar, diz que foi mal interpretado e se vitimize. É o próprio método dos machões bolsonaristas. Não me parece coincidência jogadores de futebol evitarem falar de política e, quando falam, jogam com a camisa da direita conservadora.

Talvez por isso seja uma classe unida para defender seus privilégios sociais e desunida para lutar por direitos. Quem joga na série A é uma minoria milionária – 55% dos jogadores recebem cerca de um salário mínimo e a média nacional é de pouco mais de 4 mil reais. O andar de cima chora ao contar suas histórias de superação, mas não se importa que os de baixo se lasquem.

Rodri, volante do Manchester City, da Inglaterra, criticou o calendário do futebol europeu: “Ou paramos, ou não chego aos 32 anos”. A intensidade do jogo é absurda, o número de lesões graves é crescente. Mas quem luta por quem? Lembra do movimento “Bom Senso F.C”, reivindicava melhores condições de trabalho?  Após uma acolhida inicial, com atraso proposital de partidas, o movimento arrefeceu. No Brasil faltam craques e jogadores progressistas.

Repito a pergunta: quem está assistindo aos últimos jogos dos Santos? O craque está lá, toda vez que toca na bola, mas parece que sua magia é um rio que secou. Num futebol em que o físico é mais importante que a técnica, o Júnior do pai fica pra trás. Que fique claro: Neymar é cracaço. Explodiu no Santos e no Barcelona. Acho uma injustiça desprezar seu tempo no PSG, quando, mais recuado, quebrava linhas incessantemente. Mas esse tempo passou. Sua presença na Copa poderia servir de  blindagem para o elenco, mas ele jamais assumiria esse papel – principalmente no banco de reservas, o máximo que ele merece hoje. Insistir em sua convocação é pacto da boleiragem. Ou dos nostálgicos que assistem cortes de suas antigas atuações na internet.

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