
Concorrência chinesa seguirá derrubando preços de veículos
Professor da FGV explica sucesso da marcas chinesas e aponta caminhos para a indústria nacional

A queda de 1.5% do valor dos carros no primeiro semestre de 2026 deve ser uma tendência e a concorrência das montadoras chinesas manterá a pressão sobre os preços no Brasil nos próximos anos. Essa é a avaliação do professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Antônio Jorge Martins, para quem a combinação entre excesso de capacidade produtiva na China, aumento da oferta global e avanço tecnológico tende a beneficiar os consumidores brasileiros.
Segundo o especialista, a redução dos preços não é um movimento passageiro. Ela reflete mudanças estruturais na indústria automobilística mundial. “Eu vejo que isso vai continuar. Há muitas empresas na China e aquelas que quiserem se manter terão que exportar. A tendência é que um número cada vez maior delas venha atuar no Brasil e na América Latina. Quanto maior a oferta, maior a produtividade e a concorrência. E isso leva à prática de preços mais competitivos.”
Martins explica que, nos últimos anos, a própria indústria chinesa passou por uma forte redução das margens de lucro em razão da intensa concorrência doméstica. Para sobreviver, as fabricantes precisam buscar novos mercados. “Na medida em que essas empresas ampliam sua presença internacional, a disputa tende a se intensificar também no Brasil”, afirma.
Segundo a Bright Consulting, a média dos valores dos veículos leves caiu de R$ 172,5 mil em junho de 2025 para R$ 170 mil no mesmo mês de 2026. Já o preço médio pago pelos consumidores brasileiros teve um recuo de 3,5%, passando de R$ 157,7 mil para R$ 152,1 mil.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesEscala explica vantagem chinesa
Para o coordenador dos cursos da área automotiva da FGV, o principal diferencial competitivo da China está na escala de produção. Enquanto o país fabrica cerca de 34 milhões de veículos por ano, os Estados Unidos produzem aproximadamente 15 milhões, a União Europeia entre 12 e 13 milhões e o Japão cerca de 8 milhões. O Brasil alcançou 2,64 milhões de unidades em 2025.
Essa diferença reduz significativamente os custos de produção. “Na minha percepção, o principal vetor desse sucesso foi o surgimento de grupos empresariais fortes, apoiados financeiramente pelo governo chinês, mas principalmente sustentados por uma escala gigantesca. Isso faz toda a diferença quando se trabalha com produtos de tecnologia.”
Martins ressalta que essa competitividade permanece mesmo diante das tarifas de importação brasileiras. “Hoje quem importa diretamente paga 35% de imposto e, ainda assim, consegue vender com margem de lucro. Isso acontece porque o preço de fábrica na China é muito menor, resultado justamente dessa enorme escala de produção.”
Ao contrário do que ocorre em muitos países, o governo chinês permitiu o surgimento de dezenas de fabricantes, criando uma disputa extremamente acirrada. Embora existam mais de 140 marcas comerciais, Martins explica que elas pertencem, na realidade, a cerca de 57 grandes grupos industriais, segundo levantamento de um banco europeu.
As seis maiores empresas concentram aproximadamente 70% do mercado, mas a competição continua intensa, estimulando redução de custos e inovação. Outro diferencial é a velocidade do desenvolvimento tecnológico. Segundo o professor, a indústria chinesa lança, em média, três novos modelos de veículos por dia, ritmo impossível para montadoras tradicionais.
Híbridos devem dominar o mercado antes dos elétricos
Apesar do crescimento dos veículos elétricos, Martins acredita que os carros híbridos serão predominantes no curto e médio prazo. Três fatores sustentam seu argumento: o elevado custo dos elétricos puros; a infraestrutura insuficiente de recarga e perda do poder de compra das famílias.
Uma grande mudança tecnológica ocorrerá com a chegada das baterias de estado sólido, que prometem menor custo de fabricação, maior autonomia e recarga mais rápida. “Enquanto essa tecnologia não estiver disponível em larga escala, acredito que a motorização híbrida continuará predominando.” Essas baterias devem entrar no mercado entre 2027 e 2028 e sua consolidação comercial será por volta de 2030.
Brasil precisa escolher onde competir
O professor afirma que o Brasil deve repensar sua política industrial. Em vez de tentar produzir todos os componentes da cadeia automotiva, como semicondutores, o país deveria concentrar esforços em segmentos nos quais possa desenvolver tecnologia própria e formar mão de obra altamente qualificada.
Outra prioridade seria ampliar as exportações para mercados como América Latina e África, aumentando a escala de produção das fábricas instaladas no país. “O mercado brasileiro, sozinho, não oferece escala suficiente. É preciso pensar regionalmente.”
Ele também avalia que o foco da política industrial do setor deve estar na competitividade e na inovação tecnológica, e não apenas na robotização da produção. Com uma taxa de juros elevada, investimentos intensivos em automação tornam-se mais difíceis, reforçando a necessidade de uma estratégia baseada em tecnologia, produtividade e inserção internacional.

