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Coluna Blog do Noblat
Blog do Noblat - 22 anos

O livro voltou à moda (por Hubert Alquéres)

De Tolstói no YouTube às multidões da Bienal, os jovens estão redesenhando os caminhos que levam aos livros

28/09/2026 11:03, atualizado 28/09/2026 11:17
Divulgação
Bienal Internacional do Livro de Brasília terá 400 mil livros expostos

Um jogador de futebol acaba de transformar Tolstói em fenômeno de vendas no Brasil. Gustavo Scarpa, meio-campista do Atlético Mineiro, publicou no YouTube uma resenha de A Morte de Ivan Ilitch, escrita pelo autor russo no século XIX. O vídeo viralizou e o livro chegou ao primeiro lugar entre os mais vendidos da Amazon.

O episódio é curioso, mas não parece isolado. Scarpa já vinha falando de livros nas redes e suas recomendações estimularam a criação de uma comunidade de leitores criada por torcedores, a Galeitura. Um jogador de futebol, sem qualquer ligação profissional com o mercado editorial, passou a levar leitores a Tolstói, Kafka e outros clássicos.

Alguma coisa está acontecendo no mundo dos livros.

Atores, atrizes, cantores, jornalistas e criadores de conteúdo passaram a mostrar nas redes o que estão lendo. No TikTok, jovens recomendam autores, discutem personagens e transformam alguns títulos em fenômenos de vendas. Escritores são recebidos como celebridades. Clubes de leitura se multiplicam.

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Tudo isso contraria uma ideia que se tornou quase um lugar-comum: a de que o celular e as redes sociais afastariam inevitavelmente os jovens dos livros.

É evidente que as telas disputam nosso tempo e nossa atenção. Mas talvez tenhamos criado uma oposição excessivamente simples entre elas e os livros. Para muitos jovens, é justamente pela tela que se chega à leitura.

Há dados que mostram que não se trata apenas de impressão. O Panorama do Consumo de Livros, realizado pela Nielsen BookData para a Câmara Brasileira do Livro, mostrou que, em 2025, cerca de 3 milhões de brasileiros a mais compraram livros em relação ao ano anterior. O maior crescimento ocorreu justamente entre os jovens de 18 a 34 anos.

A Bienal Internacional do Livro de São Paulo, encerrada há poucos dias, deu forma concreta a esse fenômeno. Foram 760 mil visitantes em dez dias, o maior público de sua história. Cinco dias tiveram ingressos esgotados e a média diária de faturamento dos expositores cresceu 57%.

Mais impressionante que os números, porém, foi observar que os jovens estavam por toda parte. Muitos chegaram em grupos, carregando livros, procurando seus autores preferidos e enfrentando filas para sessões de autógrafos. Em determinados momentos, a relação com os escritores lembrava a dos fãs com seus ídolos da música.

Isso não significa que o Brasil tenha resolvido seu histórico problema de formação de leitores. Nem que todo livro que viraliza nas redes tenha qualidade literária. Significa apenas que seria um erro não prestar atenção no que está acontecendo.

Há também uma mudança na forma como os livros chegam às pessoas. Durante muito tempo, a recomendação de leitura esteve concentrada na escola, na crítica, nos suplementos literários, nas livrarias e nas editoras. Todos continuam tendo papel importante, mas já não detêm o monopólio da mediação.

Há nisso uma democratização da recomendação cultural. Nem sempre o livro que viraliza é aquele que a crítica escolheria. Mas há uma contradição em lamentar que o brasileiro leia pouco e, ao mesmo tempo, olhar com superioridade para os caminhos pelos quais novos leitores chegam aos livros.

E há uma dimensão pública nesse fenômeno. Vivemos numa época em que a política também foi capturada pela disputa da atenção: frases curtas, indignação permanente, respostas instantâneas e certezas produzidas em poucos segundos. O livro opera em outra velocidade.

Ler exige concentração e disposição para acompanhar um pensamento que não cabe numa postagem. Exige conviver durante algum tempo com o argumento do outro e, muitas vezes, com ideias das quais discordamos.

Isso não faz automaticamente de alguém um cidadão melhor. Mas uma sociedade que perde a capacidade de atenção prolongada e de contato com argumentos complexos perde algo que vai muito além do hábito da leitura.

É cedo para saber se estamos diante de uma mudança geracional mais profunda. Não há elementos para afirmar que a Geração Z esteja abandonando as redes em busca de uma vida analógica. É possível que esteja acontecendo algo mais interessante: o digital, em algumas situações, está servindo de ponte para experiências presenciais.

Foi o que se viu na Bienal. Comunidades alimentadas pelas redes ganharam corpo nos corredores do Anhembi. Autores descobertos pelo TikTok ficaram diante de centenas de leitores. Recomendações digitais transformaram-se em livros comprados, autógrafos, conversas e encontros.

Durante muito tempo discutimos como tirar os jovens das telas e levá-los aos livros. Gustavo Scarpa precisou do YouTube para levar milhares de pessoas a Tolstói. A Bienal mostrou comunidades digitais transformando-se em multidões de carne e osso em torno da leitura.

O livro não venceu a tela. Tampouco foi derrotado por ela. Aprendeu a circular por ela. Num tempo dominado pela disputa de segundos de atenção, descobrir que tantos jovens ainda estão dispostos a entregar horas a um livro é uma notícia mais importante do que parece.

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Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação, vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro e ex-professor da POLI/USP e do Colégio Bandeirantes.