Brasileiros entregam ao papa carta contra violência a políticos negros
Integrantes do movimento Educafro denunciaram ao líder católico perseguição e morte de 100 políticos brasileiros afro-descendentes
atualizado
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Dois integrantes do movimento Educafro conseguiram entregar ao papa Francisco, ontem, uma carta-denúncia sobre a questão do racismo estrutural no Brasil, com relatos da violência a políticos negros e também a ausência de afro-descendentes nas escolas ligadas à Igreja Católica no país.
Na carta, foi denunciado ao papa que, de 2018 a 2022, quase cem parlamentares afro-brasileiros foram perseguidos ou assassinados por motivações políticas. E cita como uma “perseguição gritante” a cassação do mandato do vereador Renato Freitas, de Curitiba (PR).
“Foi cassado por escolher o espaço de uma Igreja Católica de Curitiba, construída por escravos e para servir como espaço de apoio à luta por justiça da população afro-brasileira e, daquele espaço sagrado, denunciar a alta percentagem de assassinatos de jovens negros na sociedade brasileira, inclusive de torturas até a morte”, diz a carta.
O assassinato da vereadora Marielle Franco também foi citado como uma “ferida ainda aberta na sociedade brasileira”.
“Estranhamente prenderam o assassino e, até hoje, a polícia ‘diz não saber dizer’ quem mandou matar a vereadora Marielle Franco. Se o assassino fosse uma pessoa negra, já a teriam torturado até revelar o nome do político que mandou matá-la. Ou a polícia está comprometida ate o pescoço com o mandante do crime?”
A presença da comitiva brasileira em Roma, onde se encontrou com o papa, foi revelada ontem pelo repórter Eduardo Barretto, da coluna Guilherme Amado.
Na carta, o movimento diz que hoje, em setembro de 2022, as comunidades afros em toda América Latina, não só no Brasil, estão entre as mais sofridas, exploradas, humilhadas e descartadas.
Os integrantes da Educafro lembram no texto que a ONU decretou o período de 2015 a 2024 como a “década do afrodescendente” e afirmam que o Brasil, país signatário, não colocou em prática nem 10% das políticas públicas ali previstas. E pedem que o líder católico ajude a solicitar a ONU para adiar por mais cinco anos esse período.
A Educafro cita uma situação de racismo estrutural na própria Igreja Católica, que envolve o acesso por negros às suas escolas.
“A Igreja tem centenas de Escolas Católicas do Ensino Fundamental, Médio e Superior. É, no seu conjunto, a maior rede de ensino privado do país. Aqui, no Brasil, a população afro-brasileira é de 56,2%. No entanto, nas Escolas Católicas, estimamos que não passamos de 5%, o que nos leva a afirmar que a Igreja é uma das principais forças reprodutora do racismo estrutural que amplia a exclusão da população afro-brasileira dos bancos escolares privados”.
O movimento pede à Sua Santidade que chame a atenção dos bispos, arcebispos e cardeais da Igreja Católica no Brasil para que as suas dioceses atuem com políticas de reparação dos afro-brasileiros e que essas escolas adotem cotas de 30% para os negros em todas salas de aula.
É pedido a Francisco que ajude a Igreja do Brasil a rever práticas centenárias que levam ao racismo estrutural e pedem e relatam que os padres negros, em sua maioria, estão alocados em paróquias deficitárias e que dificilmente se escolhe padres negros para a função de bispos. Há críticas também de que há muitos grandes conventos vazios e que estão ao lado um enorme contingente de moradores de rua.
Também é solicitado ao papa que produza uma carta aberta aos partidos políticos do Brasil que atuem no combate à violência contra políticos afro-descendentes.

Como foi chegar ao Papa
Um casal de economistas da Educafro – Dione Vales de Assis e Gilvan Bueno Costa (na foto acima) – conseguiram acesso ao papa numa audiência pública que recebem noivos. O casal vai com roupa de casamento, quesito necessário para entrar nesse espaço. E, no momento do encontro com o papa, na fila de cumprimentos dos casais com o religioso, eles entregaram a carta a Francisco.
“Disse a ele que éramos do Brasil e que aquela carta era a descrição da situação dos negros no Brasil. Pedi que ele orasse por nós. Estamos sem palavras e nem sabíamos que estava acontecendo (esse evento do casamento). E aproveitamos a oportunidade”, disse Dione.


