
Voto brasileiro (por André Gustavo Stumpf)
Visto de Brasília, o resultado das eleições norte-americanas significa alívio

A democracia é o pior regime de governo, excetuados todos os outros. A frase é de Winston Churchill. É uma verdade incontestável. A guerra contra o Irã, que as forças armadas dos Estados Unidos não conseguiram resolver, provocou a derrota de Donald Trump. Os eleitores colocaram os democratas na frente de governos, fizeram a maioria nas duas casas do Congresso e ainda elegeram sete brasileiros para câmaras estaduais. O Partido Democrata alcançou feito só comparável à vitória obtida em pleito após o escândalo de Watergate, quando repórteres do Washington Post descobriram que o então presidente Richard Nixon havia determinado a invasão do escritório do partido Democrata.
Na eleição deste ano, a recomendação da oposição foi a seguinte: vote como os brasileiros. A formidável e surpreendente vitória de Lula contra a extrema direita no Brasil foi ponto de honra. Exemplo para o eleitor norte-americano. Deu certo. Os democratas conquistaram cadeiras no Senado em estados onde não venciam há décadas. No Kansas, a vitória de Adam Hamilton é a primeira do partido na disputa pelo Senado desde 1932. No Texas, James Talarico se tornou o primeiro democrata a vencer desde 1988. Na Carolina do Sul, Annie Andrews deu ao partido a primeira cadeira no estado desde 1998. No Maine, o democrata Troy Jackson derrotou a republicana Susan Collins, que ocupava o cargo há quase 30 anos.
A disputa no Texas foi a mais cara da história fora de uma eleição presidencial, com mais de meio bilhão de dólares gastos em publicidade. O bilionário Elon Musk investiu mais de US$ 200 milhões para apoiar o republicano Ken Paxton, que perdeu. Mais de 100 mulheres democratas foram eleitas para o próximo Congresso, o maior número da História, segundo a Bancada de Mulheres Democratas.
A estratégia republicana de redesenhar distritos para ampliar a vantagem na Câmara não deu o resultado esperado em estados-chave. Nos EUA, os mapas distritais costumam ser refeitos depois do Censo, para refletir mudanças na população. Pressionados por Donald Trump, estados governados por republicanos fizeram redesenhos para dificultar a retomada da Câmara pelos adversários. No Texas, democratas venceram em três dos cinco distritos alterados. Na Flórida, ficaram com três dos quatro redesenhados.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesA eleição nos Estados Unidos é diferente da realizada no Brasil. Não há um documento de identidade nacional. Cada estado, ou condado, decide que documento é válido para o eleitor exercer seu direito de voto. Também não há um método uniforme de votação e de apuração. Em alguns estados a eleição é feita em cédulas de papel. E a apuração é manual. Em outros, existe urna eletrônica. Mas quem faz a apuração, por consenso, é a Associated Press, uma agência de notícias particular. É assim, desde a independência do Texas, e sua posterior incorporação aos Estados Unidos, em 1846, quando a AP começou a transmitir notícias. A agência faz as projeções que são aceitas em todo país. Não há contestação. Donald Trump, reconheceu a vitória dos aversários. “Eles trabalharam bem”, comentou.
Visto de Brasília, o resultado das eleições norte-americanas significa alívio. As negociações com o pessoal de Brasília deverão ser mais amenas, até porque os postulantes a sucessão de Trump viram surgir uma barreira enorme para chegar à Casa Branca na sucessão do chefe. Marco Rubio, secretário de estado, cubano ressentido, terá que fazer concessões aos brasileiros que segundo o eleitor norte-americano, encararam o fascismo e conseguiram derrotar o monstro autoritário. As tarifas impostas por Trump estarão sob intensa crítica em todo mundo.
Juros e dívida pública – O Banco Central decidiu manter a taxa Selic, que determina os juros no país, em 13,75% ao ano. É a maior do mundo, acima da taxa praticada na Rússia, país que está em guerra. A interessante crítica de André Lara Resende, que foi presidente do Banco Central, é oportuna. O governo brasileiro pagou, ano passado, R$ 1,007 trilhão a título de juros da dívida interna, contraída em bancos brasileiros. No mesmo período o governo gastou R$ 170 bilhões com o pagamento do bolsa família.
Mais complicado ainda é que sem o pagamento da taxa de juros, que é maior despesa do governo, a relação entre receita e despesa é equilibrada. O que causa desequilíbrio é justamente a taxa de juros. A Selic, enlouquecida, na prática, funciona com uma bolsa família para investidores. Eles estão protegidos de inflação, porque seus rendimentos são indexados à Selic. Se forem desindexados, como investidores pretendem fazer com salários, aposentadorias e pensões, o país resolve o problema. O governo gastou seis vezes mais com o pagamento de juros, do que com o bolsa família. Os números não mentem.

