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Blog do Noblat - 22 anos

Trágico mundo do Discord (por José Sarney)

Hoje tenho muitos netos e bisnetos e olho para o mundo com certo temor

21/08/2026 11:01
NurPhoto/Colaborador/Getty Images
Logo da plataforma Discord

Deus me concedeu a graça de ter três filhos e uma esposa que me ajudou a conduzi-los pela vida, sem maiores dificuldades, senão as preocupações comuns a todos os pais para fazer com que um ser humano dê os primeiros passos pela vida e aprenda, assim, a mover-se por si mesmo.

Hoje tenho muitos netos e bisnetos e olho para o mundo com certo temor, pois na época em que criava meus filhos, embora com tantas atividades na carreira política e na vida literária, da qual nunca fiquei apartado, além de contar com Marly, sempre muito atenta às necessidades para a criação de um bom ser humano, tinha absoluta certeza de que, quando estavam em seus quartos, eles realmente ali se encontravam, e não em algum outro lugar do mundo, como é hoje a situação dos pais, que sofrem sem saber como lidar com esse novo passaporte que a humanidade descobriu de poder, a todo instante, se deslocar entre as nações sem gastar nada, apenas alguns toques no teclado ou até mesmo o som da própria voz.

Foi com muita perplexidade e apreensão que li a história da morte da jovem de 13 anos, na semana passada, na plataforma digital, que se soma a tantas outras que vêm acontecendo no mundo, lentamente, dentro de suas casas, já que sua morte foi consequência de outras tantas mortes que a criança fora tendo ao longo de dias de conversa com estranhos pelo computador, até chegar ao ponto de que essas tantas mortes se transformaram em uma, a definitiva. E é esta última que nos choca. É esta última pela qual sofremos. É esta última que faz com que todos nós, ajudados pelos meios de comunicação, gritemos: nossas crianças pedem socorro! Façamos alguma coisa.

No entanto, passado o luto, continuamos tristes, mas voltamos a silenciar sobre o tema. Mas este sofrimento que nos chocou continua pela vida afora nesses sofridos pais, nesses trágicos parentes, nos amigos, que nunca mais deixarão de olhar para uma tela de computador, celular ou tablet sem ver na hora a imagem de uma arma fatal.

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Esses mágicos aparelhos, como tudo na vida, têm seus dois lados: a faca que corta o tenro legume mata; o bisturi que opera para salvar vida pode matar se nas mãos de pessoas inábeis. Por isso, nós, adultos, devemos estar sempre atentos a essas crianças que ainda não descobriram que há flores belas que trazem o perfume da morte.

Mas como ser pai no mundo de hoje? Como ter tempo para construir um patrimônio que acolha não só os momentos de agora, mas também o futuro num mundo em que as fronteiras começam a ser dissolvidas por guerras, e os mercados financeiros se divertem na roleta russa na qual os mais espertos vão ficando cada vez mais ricos e todos os outros, cada vez mais pobres?

O que fazer? Se a criança corre risco dentro de casa, se o seu quarto representa tão grande perigo, imaginem a escola e tantos outros lugares que deixaram de ser apenas um lugar de diversão para a infância. Quando as nossas crianças ali estavam podíamos ter um certo descanso ou mais tempo para nossas atividades adultas.
O mundo literário, no qual sempre estive envolvido, me permite ver o mundo de uma forma em que relaciono a praticidade com a intuição. Interpretar personagens num romance pode parecer tolo para muitas pessoas que enxergam apenas nos números a única forma de construir sua vida. Mas por ser um intelectual ligado à literatura é que consigo melhor entender as dificuldades que estamos passando e saber que, se ficarmos desatentos, a civilização poderá encontrar seu fim.

E por meio dessa visão mais acurada da vida vejo uma saída para o momento que estamos vivendo, em que os parentes não podem estar mais o tempo todo ao lado de seus filhos: caberá ao Estado construir o arcabouço de proteção para que as novas gerações não se desintegrem frente às novas tecnologias, nas quais a inteligência artificial hoje compreende e faz parte desse universo paralelo em que as crianças estão se desafiando e encontrando um orgulho pessoal na sua própria morte!

Então, nesse momento de pânico com as ameaças claras e disfarçadas, conclamo a todos que façamos um momento de reflexão e uma oração por essa criança que encontrou a morte e por todas as outras que estejam vivendo a mesma tragédia. Quanto a essas que ainda vivem essa angústia, que sejamos rápidos o suficiente para salvá-las, como conseguiu fazer o pai de uma delas que transformou sua dor, o susto pela quase morte da filha, em um alerta para todos, para que possamos evitar, enquanto é tempo, essa loucura que se espalha, invisivelmente, pelas redes de computadores.

E a todos da imprensa, peço que nos ajudem — a todos nós, pais, políticos, juízes — a fazer a população compreender que, às vezes, é preciso calar a voz assassina, mesmo correndo o risco de sermos confundidos com aqueles que estejam limitando a liberdade de expressão; às vezes confundida com censura quando um indivíduo criminoso usa esse direito para, na verdade, cometer um crime.

Oh! mundo de Dickens, com seus trágicos meninos. Oh! mundo de Drummond, “vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo seria rima, não solução.” Oh! Jorge Amado, com seus capitães da areia!

Ainda há tempo! Unidos nessa dor, alimentados por ela, podemos acender na escuridão a chama da esperança que nos guiará a todos para um mundo no qual nossas casas, escolas e nossos parques e playgrounds voltem a ter a gostosura que tinham quando nós, adultos, vivíamos a nossa infância dos encantos de flores, sem computadores nem homem-aranha para nos iludir.