Terrorista ou bandido, tanto faz pro eleitor (por Felipe Sampaio)
O inadiável mesmo é enfrentarmos a bravata de Washington sem esquecer de libertar os brasileiros do narcotalibã das comunidades
atualizado
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É inegociável resistir ao furor colonialista do Tio Sam, mas isso não nos dispensa de rever nosso tratamento dado ao domínio e à influência da bandidagem tropical que, bem antes dos EUA, vem ameaçando nossa soberania territorial, política e econômica.
A segurança pública tem dois olhares: a ocorrência criminal em si e a sensação de insegurança (do eleitor). Não é só a gravidade do B.O. que deixa a população sobressaltada. Roubos de celular, por exemplo, têm baixa letalidade, mas provocam medo generalizado, porque alcançam qualquer um, a qualquer hora. Imagine, então, o dia a dia de milhões de moradores sob a influência de facções e milícias aterrorizantes que tomaram territórios urbanos e rurais expressivos. Esses bandos ocupam o papel do Estado em bairros inteiros, em pequenas cidades pacatas e até em aldeias indígenas. Um permanente estado de sítio.
E o povo vê esse crime de esquina prosperar sem limites pela economia legal, fintechs, política, condomínios nobres, religiões, no meio artístico e digital. Violência e corrupção infectando todos os campos e cantos da rotina cidadã. Quadrilhas de bairro criando feudos, virando governo e se globalizando. Podem não ser terroristas, mas tocam o terror. Por isso, apesar da redução dos homicídios no Brasil, a sensação de insegurança segue elevada, seja nas áreas centrais urbanas devido à proliferação de crimes leves, seja pelo domínio ‘político’ das facções e milícias sobre um pedaço do Brasil que reúne milhões de habitantes (um verdadeiro país dentro do outro). Sejamos francos, nesses locais a sensação diária não é diferente daquela vivenciada sob o julgo de um Hezbollah, seja qual for a motivação original dos bandidos.
O caso da Colômbia tinha de tudo. Havia cartéis do narcotráfico, terroristas de esquerda (FARC e ELN) e milícias de direita (Autodefesas Unidas). Na verdade, todos esses grupos acabaram tendo comportamento político e criminoso. Disputavam poder, territórios, cargos públicos e lucro, corrompendo autoridades, desmoralizando o Estado e lavando dinheiro em negócios formais. O mesmo acontece no México, Haiti ou África, e alguém já chamou tudo isso de “narcoterrorismo”.
O mundo todo tem definição para terrorismo e narcotráfico. O crime organizado busca inicialmente o lucro financeiro e controla territórios para facilitar negócios ilícitos. Já o terrorismo tem o objetivo inicial de desestabilizar instituições, impor alguma ideologia ou religião e influenciar o Estado. Porém, o medo diário é tão grande que o cidadão comum não tá nem aí pra diferença entre o Comando Vermelho e o Estado islâmico. O resultado prático no cotidiano chega a um grau de privação do direito e da liberdade que dá no mesmo. Vários especialistas chegaram a chamar os ataques do PCC em 2006 de “terrorismo instrumental”.
A partir de um estágio agudo de expansão e intensidade, o terrorismo e o crime vão se assemelhando na prática (às vezes se associando), apesar de terem objetivos iniciais distintos. Isso leva, por um lado, a um nível de sensação de insegurança que acaba com a paciência do cidadão em discutir se o ‘dono da boca’ é bandido ou terrorista e, por outro lado, o tratamento dado pelo próprio Estado aos dois tipos de terror também vai gradualmente se assemelhando: operações especiais, inteligência, follow the money, cooperação externa, foco na corrupção. O inadiável mesmo é enfrentarmos a bravata de Washington sem esquecer de libertar os brasileiros do narcotalibã que se estabeleceu nas comunidades.
Felipe Sampaio: Dirigiu o Instituto de Estudos de Defesa no Ministério da Defesa; chefiou a área de estatísticas no Ministério da Justiça; foi secretário-executivo de Segurança Urbana do Recife; Cofundador do think tank Centro Soberania e Clima; com atuação em grandes empresas, organismos internacionais e terceiro setor; é diretor de programas no Ministério do Empreendedorismo.


